Pregação preparada pelo Pr. Abram de Graaf

Leitura: Salmo 137

Texto: Salmo 137


O salmo 137 é um pouco complicado. O inicio é bonito, mas o fim é horrível. No inicio o autor fala sobre o seu amor para Jerusalém, a cidade de Deus; No fim ele fala sobre a vingança de Deus contra Edom e Babilônia. Especialmente o fim deste salmo deixa nos confusos: “Filha da Babilônia, que hás de ser destruída, feliz aquele que te der o pago do mal que nos fizeste. Feliz aquele que pegar teus filhos e esmagá-los contra a pedra.”

Que fazer com estas palavras? São palavras dum crente? Parecem palavras dum homem vingativo, que não quer saber nada de perdão; Estas palavras combinam com o ensino de Jesus? Por exemplo, Mt. 5,44: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Parece que o fim deste salmo mostra uma atitude completamente inversa; Jesus Cristo mostrou uma outra atitude quando ele orou na cruz por seus perseguidores.

Muitos comentaristas não sabem lidar com este salmo, por causa do fim. Acham que este é um salmo do Antigo Testamento que fica abaixo do nível do Novo Testamento. Mas isso não é verdade, pois também no NT encontramos orações de vingança; Pense, por exemplo, em Apocalipse 6. As almas em baixo do altar no céu reclamam e dizem: “Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?”

Não é verdade que existe uma diferença entre o AT e o NT neste ponto. A oração para pedir a vingança a Deus encontra-se tanto no AT quanto no NT. Não há diferença. O AT não mostra um Deus da vingança e o NT um Deus do amor. Isso é uma idéia errada que algumas pessoas têm. Deus é um só.

Então, o salmo 137 faz parte do breviário da igreja, que o Espírito de Deus nos deu. Este salmo não é o grito duma pessoa vingativa, que não pode esquecer a injustiça que lhe foi dada, MAS este salmo é uma oração, que podemos orar hoje em dia.

O início do Salmo fala sobre o Exílio; a época em que Israel morava em Babilônia. Havia uma grande tristeza no coração dos Judeus. Uma saudade enorme! Não foi uma saudade pelas casas e terrenos que perderam; mas uma saudade por Sião! Eles choravam porque Jerusalém fora destruída.

Este salmo nos mostra como o povo de Deus estava chorando. Eles se tinham arrependidos. Por causa dos seus pecados, eles se tornaram estrangeiros num outro país. Eles sofriam por causa disso. Foram os piedosos que choravam. O “remanescente santo”. Provavelmente sacerdotes ou levitas.

Eles sofrem, pois os inimigos estão zombando deles. Os inimigos queriam ouvir uns cânticos, mas eles não têm vontade. Não é o lugar certo, nem o momento apropriado para cantar. Eles se recusavam a cantar e penduravam as suas harpas nos salgueiros. Como eles podem ser alegres neste país, longe da terra prometida.

Que diferença de atitude encontra-se aqui, se comparamos este salmo com as profecias de Jeremias e Ezequiel. O povo não queria saber nada das profecias de Jeremias, mas agora eles se arrependem e choram. Isso é a obra de Deus! Deus não deixou o seu povo em Babilônia. Jeremias já tinha dito que eles iriam voltar; Este intervalo foi um período de castigo e de purificação. E o salmo 137 mostra isso. Este salmo nos mostra como o “remanescente santo” tinha se humilhado e chorava cheio de saudade para voltar para Jerusalém.

O salmo 137 não é um hino dum homem soberbo e vingativo, mas, sim, um hino dum crente. O resto do salmo confirma isso; sabemos que o fim é duro: uma maldição contra os inimigos, MAS não devemos esquecer: antes desta maldição encontramos uma HUMILHAÇÃO. O autor se humilha perante Deus: “Se eu de ti esquecer, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita. Apegue-se-me a língua ao paladar, se me não lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria.”

O autor está pedindo que o cérebro dele pare de pensar, se ele esquecer Jerusalém. Ele está pedindo um derrame cerebral, se esquecer Jerusalém. O autor não QUER esquecer e não PODE esquecer. Ele é um crente. Ele quer LEMBRAR. E lembrar no AT é muito mais do que somente PENSAR numa coisa; As lembranças estão ligadas com as grandes festas. Momentos comemorativos para se lembrar das ações do Senhor.

Como avaliar isso? Nós somos crentes no Novo Testamento. A Jerusalém do AT não tem mais o mesmo valor para nós. Mas em vez da Jerusalém do AT, devemos pensar no Jerusalém do NT, a cidade de Deus. Nós também vivemos em Exílio. A época entre a Ascensão de Cristo e a sua segunda vinda é o nosso Exílio. Estamos longe da cidade celestial, o novo Jerusalém, mas o nosso coração está ali. O nosso amor está ali; o nosso Salvador está ali. Para nós não vale mais o templo antigo com o seu culto e com os seus sacrifícios, mas o que vale para nós é Jesus Cristo, que é o sacrifício suficiente. Ele é o cordeiro de Deus que deve ser adorado. O nosso desejo é estar ali. Como os Judeus olharam para trás, nós devemos olhar para frente. Com a mesma saudade. Com a mesma fé.

A igreja atual é como uma colônia antiga dos Judeus em Babilônia. Eles sabiam: isso não é nossa terra; somos estrangeiros aqui; somos peregrinos; A Carta aos Hebreus nos ensina que nós também somos estrangeiros aqui na terra; esperamos a cidade com fundamentos, a cidade de Deus, o Novo Jerusalém.

Devemos estar ligados com o novo Jerusalém duma tal maneira que preferiremos ter um derrame cerebral a esquecer nosso belo destino: a nova Jerusalém! Aquela cidade deve estar no nosso coração; devemos buscar a paz dela; devemos orar para a vinda dela; Nunca devemos esquecer esta cidade.

Por causa disso estamos aqui. Pois aqui na igreja nós LEMBRAMOS que somos estrangeiros; aqui guardamos as promessas de Deus; aqui a nossa esperança fica viva. Aqui a nossa fé fica viva. Aqui continuamos orando: “Se eu de ti esquecer, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita. Apegue-se-me a língua ao paladar, se me não lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalémà minha maior alegria.”

Finalmente algumas palavras sobre o fim deste salmo. O fim é uma oração por VINGANÇA. Com certeza, palavras duras! Mas não duma pessoa soberba e dura; aqui fala um crente, que ama a Deus, que ama a cidade de Deus, e que ama a sociedade de Deus! É por causa deste amor que ele ora assim. Os inimigos destruíram o templo de Deus; mataram os filhos de Deus; até as crianças de Deus; as crianças da aliança!

O amor deste autor é como o amor de Davi em Salmo 139: “Não aborreço eu, Senhor, os que te aborrecem? E não abomino os que CONTRA TI se levantam? Aborreço-os com ódio consumado; Para mim são inimigos de fato. Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.”

A oração no fim deste salmo é contra os filhos de Edom e contra os filhos de Babilônia. Os Babilônios destruíram Jerusalém e levaram os Judeus em cativeiro. Os filhos de Edom gostaram disso e fizeram uma festa por causa disso. Um ódio eterno estava no coração de Edom. Compare com a profecia de Obadias. Os filhos de Edom não ajudaram os seus irmãos, mas ajudaram o inimigo. Eles foram realmente inimigos de Israel, e não somente de Israel, mas também de Deus. Eles destruíram o culto ao Deus.

Note que este salmo é baseado numa profecia. O autor não usa as suas próprias palavras, mas ele usa uma profecia. Esta profecia encontra-se em Isaías 13:16! O autor pede que Deus seja fiel. Ele deve cumprir as suas promessas. Babilônia faz parte da maldição. Esta cidade sempre se rebelou contra Deus. Esta cidade simboliza a sociedade sem Deus. A sociedade que vive sem Deus. Deus vai cumprir sua promessa, começando com a Babilônia antiga, e terminando com a Babilônia moderna, que nós encontramos no Apocalipse.

Como devemos tratar o fim deste salmo? Podemos orar para vingança? Sim, podemos orar por justiça. A vingança no AT é baseada na justiça de Deus. Presta atenção: não se fala sobre uma vingança PESSOAL. O POVO de Deus pede vingança. Deus está envolvido. Faz parte da luta espiritual. Como as almas em baixo do altar (Ap. 6)

Mas como pode estar escrito em Mt. 5:44: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”? Devemos fazer uma distinção entre descrentes e ímpios. Há ímpios que são tão depravados, que se tornaram inimigos abertos de Deus. O prazo da graça e do arrependimento não existe mais. Eles estão prontos para o julgamento. O Faraó do Egito foi um deles. O Senhor endureceu o coração dele, para que não obedecesse a palavra de Moisés. Houve Judeus que trouxeram a ira de Deus sobre si (1Ts. 2:15-16).

Nós não podemos apontar tais pessoas. Tenham cuidado! Também não podemos matar estas pessoas. A vingança não é nossa, mas é de Deus. Compare com Rm. 12,19: Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas daí lugar a ira, pois está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. A igreja pode orar por isso. Pois se amamos o Senhor e a sua igreja, sentimos as coisas horríveis que os inimigos de Deus fazem contra o Ungido.

Amém.

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Pr. Abram de Graaf

O pastor Abram de Graaf é “Doctorandus” (Drs) em Teologia e um dos professores do Instituto João Calvino (Aldeia, Camaragibe-PE). Ele é pastor da Igreja Reformada de Hamilton, Canadá, enviado como missionário às Igrejas Reformadas do Brasil, desde o ano 2000. É Diretor do Projeto Dordt-Brasil. Ele mora em Maceió e também desenvolve projetos nessa cidade.

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