Pregação preparada pelo Pr. Kenneth Wieske

Leitura: Salmo 133

Texto: Salmo 133


Amados em nosso Senhor Jesus Cristo,

Na mesa do Senhor nós lembramos. Lembramos o que Jesus fez por nós. Ele morreu em nosso lugar na cruz. Lembramos quais as conseqüências deste sacrifício. Recebemos muitas bênçãos por causa da morte de Jesus. Na mesa do Senhor nós lembramos destas bênçãos.

Uma destas bênçãos que Jesus conquistou na cruz por nós, é a bênção de comunhão. Depois da sua morte e ressurreição, Jesus chegou vitorioso no céu. Deus Pai deu a Jesus o direito de derramar o Espírito Santo sobre a Igreja. Isto aconteceu no dia de Pentecostes. Naquele dia, Jesus do céu mandou um presente para a Sua igreja. Sobre este presente, declarou: Eu tenho sido exaltado sobremaneira. Agora, eu vou compartilhar com vocês todos os benefícios da minha vitória.

Que o Espírito Santo habite em nós é conseqüência da obra de Jesus na cruz. Uma das coisas que o Espírito Santo faz é nos unir em amor e comunhão. Em 1 Coríntios 10:16-17, Paulo escreve, “O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão.”

Um pão é feito de muitos grãos. Um vinho é feito de muitas uvas. Da mesma forma, nós que somos muitos, somos um no Senhor.

O Salmo 133 fala sobre esta comunhão, esta unidade. O Salmista exclama, “Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” Esta unidade não era natural para os israelitas. A história de Israel mostrava muitos conflitos entre as tribos. Por muitos anos Davi reinou apenas sobre uma parte das tribos, no sul do país. E depois de Salomão, Israel se dividiu de novo entre o norte e o sul, as 10 tribos contra Judá e Benjamim.

O Salmista não procura basear a comunhão e unidade dos irmãos na bondade natural deles, ou na habilidade política deles. De onde vem, então, a comunhão dos irmãos? Devemos lembrar que o Salmo é um salmo de romagem. Um salmo que se cantava quando os filhos de Deus estavam subindo para Jerusalém para adorar no templo. Pelo menos três vezes por ano, todos os filhos de Deus tinham que se apresentar na presença do Senhor nas três grandes festas.

Não é uma surpresa, então, que a primeira coisa que passa na cabeça do Salmista para ilustrar a comunhão é a figura do Sumo Sacerdote. Ele representa o povo de Israel no culto de adoração a Deus. A unidade e a comunhão dos irmãos, então, está no fato de que juntos eles estão subindo para Jerusalém para se unir em adoração ao Único Deus. Esta comunhão e unidade na verdadeira adoração do verdadeiro Deus sempre unia o povo de Deus. Mesmo nas épocas quando Israel estava politicamente dividido, todos os verdadeiros israelitas sempre continuavam unidos no verdadeiro culto em Jerusalém.

O Salmista faz uma comparação especificamente entre a comunhão agradável, e o óleo de unção sobre a cabeça do Sumo Sacerdote. Todo Sumo Sacerdote tinha que ser ungido por este óleo. A receita deste óleo era tão especial e tão santa que Deus mandou matar qualquer pessoa que tentasse produzir ou usar este óleo fora do serviço do templo. Era um óleo perfumado e extremamente agradável. Quando o Sumo Sacerdote era ungido, o óleo era derramado da sua cabeça até a borda de suas vestes.

A palavra “gola” pode ser “borda” ao redor do pescoço, ou a borda em baixo das vestes: a bainha. Podemos imaginar o óleo precioso e perfumado derramando da cabeça de Arão até a borda das suas vestes. Com esta unção, Deus estava declarando que este homem estava sendo santificado para o serviço do Senhor. O Sumo Sacerdote tinha que dedicar todo momento de todo dia da sua vida inteira ao serviço do Senhor. Ele vivia respirando o ar do templo. Ele estava completamente dedicado e separado para o serviço de adoração. No seu turbante estava escrito, “Santidade ao Senhor”. Ele carregava sobre os seus ombros duas pedras preciosas, com os nomes das doze tribos. Também carregava um peitoral com doze pedras preciosas, cada pedra escrita com o nome de uma das tribos de Israel. Assim, enquanto o Sumo Sacerdote estava oferecendo sacrifícios e dirigindo o culto de adoração no templo, ele sempre carregava perto do seu coração o povo de Deus.

Deus mandou ungir o Sumo Sacerdote com óleo precioso desde a cabeça até aos pés. Isto santifica o Sumo Sacerdote para se dedicar à adoração do Senhor.

Da mesma forma, diz o Salmista, a comunhão dos santos. Deus concede a nós em sua graça o amor fraternal. Do norte até o sul, todos os fieis estão se reunindo para cultuar a Deus. E o amor fraternal é um óleo santo e precioso e perfumado que santifica o povo de Deus, para capacitá-los a se dedicarem à adoração de Deus.

Este amor fraternal é tão precioso, tão importante que sem ele Deus nem aceita o culto do Seu povo. A Bíblia diz, (Mt. 5:23) “Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, e então, voltando, faze a tua oferta.”

Se era assim na época das sombras e tipos, quanto mais depois do único sacrifício de Cristo! Se o povo de Deus tinha que adorá-lO num espírito de amor fraternal no Antigo Testamento, quanto mais no Novo Testamento? Nós conhecemos a Cristo. Conhecemos o poder da sua morte. Sabemos que Ele morreu para nos reconciliar com Deus, e uns com os outros. Não é por acaso que o próprio Jesus falou: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos. Se tiverdes amor uns aos outros” (João 13:35). Não é por acaso que Paulo em Gálatas 5 enfatiza que o primeiro fruto do Espírito Santo é amor.

Por natureza vivíamos odiando uns aos outros, e sendo odiados. Mas na Santa Ceia confessamos que Cristo morreu para nos transformar. Cristo morreu para reconciliar o pecador miserável com o Deus Santo. Cristo morreu para também nos reconciliar uns aos outros.

Nossa unidade, nossa comunhão, nosso amor fraternal é fruto da obra de Jesus em nós. Ele derramou o amor de Deus em nossos corações, para nos consagrar no serviço de adoração a Deus.

Isto tem conseqüências. Se você estiver aqui, com algum ressentimento em seu coração — se você estiver aqui, com alguma mágoa, com alguma coisa contra seu irmão ou contra os seus irmãos — este sentimento nega a obra de Cristo. Quando nós não conseguimos viver juntos em alegre comunhão fraternal, estamos dizendo que Jesus é um fracasso e sua morte não foi em nada proveitoso.

E mais: se nós não estamos vivendo em amor fraternal, não temos condições de entrar na presença de Deus para cultuá-lo. A Bíblia diz que se não conseguimos amar o nosso irmão, que podemos ver, não conseguiremos amar a Deus, que não temos visto. É impossível amar a Deus se não estamos amando o nosso irmão.

Vemos, então que o amor fraternal nos consagra para termos condições de adorar a Deus. Mas tem mais. O Salmista continua no verso três, para explicar que o amor fraternal também vivifica e anima a Igreja.

Hermom era uma monte muito importante no norte de Israel. Quase sempre estava coberto com neve. Israel era um país que depende muito de chuva e de orvalho. Não tem muitos rios e outras fontes de água. Literalmente, dependia dos céus para ter água suficiente para viver.

Num país tão seco e tão dependente da água que vem do céu, o orvalho de Hermom representa uma bênção enorme. Ao redor de Hermom, a terra podia ser frutífera e a grama e plantas podiam brotar graças ao orvalho pesado. Na terra de Israel, quando tiver chuva ou orvalho, isto pode de repente mudar um lugar seco e deserto em um lugar cheio de flores e plantas.

O Salmista usa esta ilustração para nos ensinar como o amor fraternal traz vida para o povo de Deus. Traz refrigério! Traz ânimo! Imagine que estamos em Jerusalém. Ao redor tem os montes de Sião. É verão, e tudo é seco. Não tem muita verdura. Mas, depois de um dia quente, anoitece. E começa um vento do norte, que traz o ar frio e o orvalho refrescante do monte Hermom. Que alívio, depois de um dia quente e seco. E, de manhã, vemos logo as conseqüências do orvalho: ao redor da cidade, a terra já esta brotando com verdura.

É assim, diz o Salmista. É assim o amor fraternal. É refrigério num lugar seco. É vida num lugar morto.

Não é assim ainda hoje? Onde podemos achar verdadeiro amor, se não aqui no meio dos nossos irmãos? Os relacionamentos secos e rasos do mundo não trazem satisfação. Procure amor no mundo, e você ficará repetidamente decepcionado. Num mundo cheio de ódio e egoísmo, achamos refrigério na comunhão dos santos. Na comunhão dos santos, achamos amor sacrificial.

Vivemos num mundo que corre atrás de relacionamentos que matam a alma. Todas as experiências e tentativas do coração não regenerado de achar amor acabam em tristeza e decepção. Mas aqui, na comunidade do Espírito Santo, achamos um amor não fingido. Achamos um amor que vivifica.

Na última frase do Salmo, vemos mais uma vez como o Salmista é um verdadeiro filho de Deus. Ele deixa claro mais uma vez que tudo procede primariamente de Deus: “Ali, ordena o Senhor a sua bênção e a vida para sempre”.

O amor fraternal é precioso somente quando ligado à verdadeira adoração de Deus. (v2). Da mesma forma, o amor fraternal anima e vivifica o povo de Deus somente quando praticado conforme a ordenança de Deus.

Durante a história de Israel, havia muitos lugares onde as pessoas tentavam cultuar a Deus. Pensem de Jereboão, que inventou um culto do seu jeito, nos lugares que ele bem queria.

O Salmista chama a nossa atenção a Sião. É outro nome para Jerusalém. “Ali, ordena o Senhor a sua bênção.” Isto é, a fonte do nosso amor fraternal: quando estamos unidos em verdadeira adoração no lugar onde Deus tem ordenado!

No Antigo Testamento, isto era Jerusalém. Por que? Porque em Jerusalém estava o templo. E no templo estava a arca. No Santo dos Santos, estava a presença de Deus no meio do Seu povo.

Hoje, não há mais templo em Jerusalém. E mesmo se houvesse, Deus não estaria lá. O templo de Deus hoje é a Igreja. Deus habita no meio de nós. Nós somos o templo do Espírito Santo.

Onde a verdadeira igreja está reunida, cultuando em espírito e em verdade, ali podemos dizer, “ordena o Senhor a sua bênção e a vida para sempre”. Não tem bênção, não tem vida, quando nós estamos cultuando a Deus do nosso jeito, no lugar que mais nos agrada. Deus nos chama a nos juntar com a verdadeira igreja de Cristo para adorá-lO. Não tem vida, não tem bênção em nenhum outro lugar. Não tem bênção quando ficarmos em casa por preguiça. Não tem vida quando negligenciamos o culto verdadeiro para correr atrás de adoração conforme a imaginação do homem.

Mas quando estamos reunidos na assembléia dos santos, quando estamos adorando a Deus em espírito e verdade, podemos ter certeza que ali Deus ordena Sua bênção.

E a vida para sempre.

Não é interessante que o Salmista termina o Salmo do mesmo jeito que o Credo termina? Todo domingo citamos o credo, e terminamos: “e a vida eterna. Amém.”

Estas palavras já estão nos lábios do nosso irmão Davi. Milhares de anos atrás, ele já sabia que a comunhão fraternal, a comunhão dos santos não é algo temporário. Não é algo raso. Não é algo provisório.

É eterno! Continua para sempre! O amor fraternal que estamos experimentando agora, vai crescer, madurecer, e se desenvolver. Vai brotar e frutificar. E vai continuar fazendo isto para sempre! Não tem fim! Hoje celebramos numa pequena mesa. Mas está chegando o dia quando estaremos festejando e celebrando a glória de Deus em Cristo com uma multidão que ninguém enumera. Está chegando o dia quando iremos experimentar a plenitude da comunhão dos santos, na presença do nosso amado Salvador.

Já hoje, nesta mesa, Ele nos permite provar as primícias desta alegria. “Oh, como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!”

Amém.

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Pr. Kenneth Wieske

Pastor da Igreja Reformada em Surrey, Colômbia Britânica. Desde 2000, serve as Igrejas Reformadas do Brasil como plantador de igrejas. B.A. McMaster University, M.Div. Theological College of the Canadian Reformed Churches. Estudos em línguas originais no Institut Farel de L´Église Réformée du Québec.

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