Pregação preparada pelo pastor Elienai B. Batista
Leitura: 2 Samuel 15
Texto: Salmo 03

Amada igreja do Senhor Jesus Cristo,
O livro de Salmos é um livro de cânticos, mas muitos desses cânticos são verdadeiras orações, nas quais o coração aflito se volta para Deus e com confiança busca Seu socorro.

O Salmo 03, é um desses salmos. Na verdade é o primeiro deles. Nele encontramos uma nota antes do v.1. Essa nota nos ajuda a entender a situação histórica relacionada a este Salmo. A nota diz: “Salmo de Davi quando fugia de Absalão, seu filho”. Assim, somos informados de que foi o rei Davi quem compôs este salmo, e que ele o fez quando teve de fugir de Jerusalém por causa da conspiração de Absalão, seu filho.

Foi sobre isso que lemos em 2 Sm 15.

O Salmo 3, também é o primeiro Salmo onde encontramos a expressão “Selá”. Ela não aparece na versão (ARA), mas está no texto hebraico. Essa expressão – “Selá”, é um termo técnico que aparece em muitos salmos, e que provavelmente quer indicar um acompanhamento musical mais alto. Aqui no Salmo 3, “Selá” aparece depois do v.2, depois do v. 4, e depois do v. 8. Isso nos ajuda a perceber a divisão deste Salmo. Portanto, neste Salmo que nos ensina que Deus é o escudo dos que nEle confiam, podemos aprender três coisas (com base nesta divisão do Salmo):
• Nos vv.1 e 2, aprendemos sobre a aflição do crente.
• Nos vv. 3 e 4, aprendemos sobre a proteção do SENHOR.
• Nos vv. 5 ao 8, aprendemos sobre salvação do SENHOR.

Portanto, voltemos nossa atenção para cada uma dessas três partes.

Em primeiro lugar aprendemos sobre a aflição do crente (vv. 1 e 2).
A nota inicial, nos diz que este Salmo está relacionado a um momento muito difícil na vida de Davi. Aqui é bom nos situarmos historicamente.

A essa altura, Davi era o rei de Israel, e já obtivera muitas vitórias. Mas ele também havia cedido ao pecado, pois cometera adultério com Bate-Seba, e homicídio ao ordenar a morte de Urias. Sabemos que Deus enviou o profeta Natã, e que este chamou Davi ao arrependimento. Davi se arrependeu, mas Deus já lhe havia dito que traria juízo sobre ele, e que isto viria de dentro de sua casa.

Podemos dizer que isso se evidenciou quando seu filho Amnon manteve uma relação incestuosa com Tamar (meia irmã), e depois quando Absalão matou Amnon. Por causa disso, Absalão fugiu ficando alguns anos fora de Israel. Mas depois ele voltou, fingindo submissão, enquanto planejava uma conspiração para assumir o reinado no lugar de seu pai. 2 Sm 15, registra exatamente isso.
Absalão atraiu para si muitas pessoas, de modo que quando ele se proclamou rei, muitos se colocaram ao seu lado. Por isso, Davi teve de fugir rapidamente de Jerusalém, e à medida que fugia, ouvia que mais e mais pessoas estavam passando para o lado de Absalão. Desta forma entendemos o que lemos no início do Salmo 03.

Em meio a esta aflição terrível, Davi se volta para o SENHOR (o Deus da aliança). Ele diz que o número de seus adversários estava crescendo. E isso é ressaltado nas expressões: “são numerosos” (v.1) e “são muitos” (v.2). Um rei depende de seus súditos, e Davi estava perdendo os seus. O tapete estava sendo puxado. Cada vez havia menos pessoas ao seu lado e mais adversários.

Davi diz que estes adversários estavam se levantando contra ele, isto é, estavam agindo contra ele, em rebelião ao seu reinado. A notícia que corria era a seguinte: “Deus abandou Davi, não há em Deus salvação para ele”.
A imagem por trás desses versículos é uma imagem militar. Davi estava sendo cercado, por inimigos por todos os lados, a quantidade de homens ao redor do cerco aumentava de momento a momento. E o pior, a conspiração vinha de seu próprio sangue. Seu filho Absalão era o mentor.

Certamente este foi um dia difícil para Davi. Um dia de aflição, de dor e de decepção. E lemos em 2 Sm 15, que à medida que saia de Jerusalém Davi chorava, e que em sinal de contrição ele tinha a cabeça coberta e andava descalço. Os que estavam ao redor de Davi choravam também, e por onde ele passava as pessoas choravam em alta voz. Certamente foi um dia muito difícil para Davi. Um dia de aflição, de decepção de vergonha e tristeza.

E quando pensamos sobre a causa dessa aflição pela qual Davi passou, descobrimos que foi uma consequência de seus pecados.
Amados irmãos, é exatamente nessa situação que o pecado costuma nos colocar – em aflição. Não quero com isso dizer que toda aflição é decorrente de pecados específicos. Mas devemos reconhecer que às vezes Deus nos faz experimentar as consequências amargas dos nossos próprios pecados.

Davi adulterou com a mulher de Urias e ordenou a morte deste homem. Agora Absalão se deita com as concubinas de Davi e busca a morte de seu pai. Deus como Justo Juiz, em Sua soberana Providência, deu a Davi algumas gotas de Sua justa retribuição.

Quando Deus nos concede algumas gotas de sua justa retribuição, quando Ele nos faz experimentar o gosto amargo dos frutos dos nossos pecados, Ele quer que lembremos de que o salário do pecado é a morte, que o caminho final do pecado é o inferno. O pecado é como fogo, não é possível abraçá-lo sem sair queimado.
Alguém pode desprezar o evangelho, desprezar a Cristo como Salvador e Senhor, pode continuar vivendo em pecado, mas não pode escapar do juízo de Deus. Toda Escritura ecoa: o salário do pecado é a morte.

Por isso, às vezes Deus nos faz experimentar as consequências de nossos pecados, para nos afastar do pecado. Então pode ser que experimentemos dores, tristeza, calúnias, decepção, vergonha, enfim sofrimentos no corpo e na alma. E talvez sejamos envolvidos em grande angústia e muitas lágrimas brotem de nossos olhos para nos lembrar sobre a miséria decorrente do pecado.

Assim sendo, quando outros são atingidos pela aflição, nós não somos juízes para julgar os que estão ao nosso redor e dizer porque estão sofrendo. O sofrimento pode vir por muitas razões dentro da Providência de Deus. Mas se a aflição cai sobre nós, é nosso dever nos perguntar se Deus não quer com isso nos mostrar as consequências de algum pecado em particular e nos levar ao arrependimento.
Mas o que devemos fazer quando isso acontece? Se a aflição é consequência de nossos pecados, ou se ela tem origem em outra razão dentro da Providência de Deus, o remédio é o mesmo. Isso nos leva ao nosso segundo ponto.

Em segundo lugar aprendemos sobre a proteção do SENHOR (vv.3 e 4).
Davi não estava literalmente sozinho, pela graça de Deus haviam ainda uns poucos fiéis. Mas isso não era suficiente para reverter a situação. Davi sabia que não podia confiar em si mesmo ou nos amigos, por isso, voltou-se para a mão que o disciplinava.

No v. 4, lemos que ele clamou ao Deus aliança. Ele pediu por socorro. E Deus o respondeu do seu santo monte. O santo monte é uma referência ao Monte Sião. É onde estava a arca da aliança e onde estava o palácio do rei. Então notem bem. Davi deixara o trono, Absalão o impelira de lá. Mas Deus responde desde o Monte Sião. Davi havia sido movido de seu lugar, mas Deus não. Ninguém pode impedir o agir soberano de Deus.

Devemos lembrar disso quando estamos em aflição: quer seja como consequência de nosso pecado, quer seja pela Providência de Deus. Nós podemos ser sacudidos como palha. Mas o trono de Deus é firme.

Deus respondeu a Davi. Apesar dos adversários dizerem que não havia para ele, salvação em Deus. Davi pode dizer (v.3): “Porém tu, SENHOR, és o meu escudo”. A ideia aqui é de um escudo ao redor. Então voltamos à imagem militar. Davi estava cercado por todos os lados, mas dentro deste cerco havia outro. Deus um era um escudo ao redor de Davi.

Davi ainda diz, “… és a minha glória e o que exaltas a minha cabeça”. Apesar de toda tristeza daquele momento, ao voltar sua atenção para o SENHOR, Davi reconhece nEle sua glória. Uma glória maior que a do trono, uma glória que não podia ser tirada. E mais, Davi reconhece o SENHOR, como Aquele que lhe pegava no queixo e lhe erguia a cabeça.
Amados irmãos, vejam como Deus é Justo e Misericordioso. Ele usou o pecado de Absalão para punir o pecado de Davi. Mas quando Davi clamou a Ele, o SENHOR se colocou ao redor de Davi como um escudo a proteger-lhe. E nós podemos, se estamos em Cristo, ter a mais absoluta certeza, que se Ele nos aflige, se faz com que choremos. Ele mesmo se coloca como nosso consolador.

Por vezes, Ele tira de nós o amparo em que confiamos, para que nos amparemos somente nEle. Deus é o nosso escudo. Ele nos protege de tal forma que nenhuma mal pode nos atingir, a menos que esta seja a vontade dEle. Por isso mesmo, quando a aflição bate à nossa porta, seja por causa de nosso pecado, ou por outro motivo muito sábio dentro da Providência de Deus, devemos correr a Ele, nos amparar nEle e buscar o consolo dEle pois é dEle que vem a nossa salvação. Isso nos leva ao próximo ponto.
Em terceiro lugar aprendemos sobre a salvação do SENHOR (vv.5-8).
O agir de Deus a nosso favor traz para aqueles que nEle confiam uma paz que excede a todo entendimento. Vejam o que diz o v. 5: “Deito-me e pego no sono”. O que se espera quando alguém tem de enfrentar talvez o dia mais difícil de sua vida? Imagine-se no lugar de Davi (tristeza, decepção, perigo), você conseguiria dormir? Davi dormiu. Ele dormiu porque sabia que o SENHOR estava com Ele. Teve paz, porque o SENHOR era o seu escudo. Ele dormiu e acordou porque Deus o sustentou.

No v.6, Davi confessa que apesar do grande número de adversários, ele não estava com medo daqueles que estavam tomando posição contra ele de todos os lados. Afinal, Deus era um escudo ao seu redor.

Por isso, no v.7, Davi clama: “Levanta-te, SENHOR”. Notem que isso entra em contraste com os inimigos. No v.1 lemos que eles se levantaram contra Davi, mas agora é o SENHOR que se levantará contra eles.
Os inimigos disseram que não havia salvação em Deus para Davi. Mas agora o SENHOR o salvará. Davi pede que o SENHOR fira os inimigos no queixo, que lhes dê um golpe que lhes quebre os dentes. Ou seja, que todos os seus planos sejam frustrados, que eles não consigam ir adiante em seu intento.

Davi sabia que a salvação é do SENHOR (v.8), que é a Ele que toda alma aflita deve buscar. Que Ele é o amparo, o escudo do Seu povo. Que aqueles que nEle confiam não são confundidos. Ele poderia cantar conosco: Castelo Forte é o nosso Deus. E foi o próprio Davi quem escreveu as palavras que usamos em nosso voto no início do culto: “O nosso socorro está em o nome do SENHOR, criador do céu e da terra.”

Por isso, ciente de quem Deus é, Davi se volta de seu pedido particular, para um pedido mais amplo. A nação estava dividida, à beira de uma guerra civil. Davi como rei de Israel, como Ungido do SENHOR, ele pede a bênção do Senhor sobre seu povo.

Amados irmãos, já reconhecemos isso: Do SENHOR é a salvação. E isso, nos tem sido revelado por meio do Filho de Deus, o Senhor Jesus Cristo a respeito de quem o Salmo 3 também nos ensina.

Assim como Davi, Jesus Cristo é o rei que foi desprezado pelos seus, que foi traído por aquele que lhe era próximo. Ele foi cercado pelos seus inimigos, e dentre eles estávamos nós, pois éramos rebeldes contra seu reino.

Nosso Salvador ouviu na cruz palavras muito parecidas com estas: “Em Deus não há salvação para ele”, ele bebeu inteiramente o cálice da ira de Deus, Ele, mesmo sendo inocente, recebeu a justa retribuição de Deus contra todos os nossos pecados. Ele entristeceu-se até a morte, Ele foi despido de suas vestes, envergonhado, humilhado e ferido. Ele clamou ao Pai, mas o SENHOR não se colocou como escudo ao Seu redor, pelo contrário, Ele foi desamparado, sofreu sozinho a aflição eterna que nós merecíamos.
Por causa dEle, agora nós sabemos o que significa: “Do SENHOR é a salvação”. Por causa de Cristo, Deus é o nosso escudo. Por causa de Cristo na aflição podemos clamar ao SENHOR, certos de que Ele nos responderá. Por causa dEle, desfrutamos da paz que excede todo entendimento, podemos dormir e acordar, certos de que o SENHOR é o nosso sustento.

Por causa dEle, não precisamos temer o nosso futuro, o futuro do nosso casamento, da educação dos nossos filhos, do nosso trabalho. Se estamos doentes, se sofremos calúnias, se alguém nos decepciona, se o momento que passamos é um tempo difícil, ficamos certos de uma coisa: mesmo que todos nos deixem, nunca seremos desamparados.

Amados, e este mesmo que foi humilhado por causa dos nossos pecados, foi exaltado pelo Pai, Sua cabeça foi erguida, e tornou-se Ele mesmo a nossa glória. E agora Ele intercede por nós para que sejamos abençoados, Ele diz dos mais altos céus, Pai abençoa Teu povo.

Por causa do Filho de Deus, o nosso grande Rei, em toda nossa aflição podemos nos voltar para Deus, podemos confessar, O SENHOR é o meu escudo, O SENHOR é a minha glória, O SENHOR levanta minha cabeça, do SENHOR vem a minha salvação.

Portanto, se você está em Cristo, não há o que temer. Ele é o seu socorro e o seu consolo, tanto na vida quanto na morte. Você pode dormir tranquilo, Deus está sustentando sua vida e nada pode separar você do Seu amor.

Então podemos seguir adiante, mesmo quando os dias mais difíceis chegarem. Temos sobre nós uma bênção pronunciada dos céus, uma bênção conquistada por nosso Salvador.

A Ele seja a glória e o domínio pelos séculos dos séculos.
Amém!

Pastor missionário da Igreja Reformada em Imbiribeira, trabalhando na congregação em Paulista-PE.