Pregação preparada pelo Pr. Abram de Graaf

Leitura: 1ª Coríntios 11:23-29; Colossenses 03:12-15

Texto: Mateus 05:23-24

Irmãos,

No domingo que vem vamos celebrar a santa ceia e devemos nos preparar para isso. Devemos nos santificar para celebrar a santa ceia. A Bíblia já fala sobre isso. O apóstolo Paulo nos ensina (1Co 11.28) que devemos nos examinar antes da celebração da santa ceia, de modo que ninguém participe ‘indignamente’ (1Co 11.27). E a respeito disso ele diz: “pois quem come e bebe sem discernir o corpo come e bebe juízo para si”. (v.29). Esse é o efeito duplo da santa ceia. A santa ceia é uma benção para quem participa da maneira certa; mas uma maldição para quem participa indignamente.

Pois se alguém profanar a santa ceia, ele chamará a ira de Deus sobre a congregação. Pois Deus não aceita a profanação, de jeito nenhum. Por isso o apóstolo Paulo diz à congregação dos Coríntios (v. 30) “Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos dormem”. Deus castigou a congregação dos Coríntios por causa da profanação da santa ceia.

Então, o que aconteceu? Paulo fala sobre isso nos versículos 18 e 19. Lá ele diz: “Porque, antes de tudo, estou informado haver divisões entre vós quando vos reunis na igreja”. Divisões, brigas, falta de respeito, falta de amor. Esse era o grande problema lá em Corinto. E isso causava a profanação da santa ceia. E era duma tal maneira que Paulo teve que dizer: “quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis”. Talvez os membros pensassem que estavam celebrando a santa ceia, mas a atmosfera não era correta. Não havia amor na mesa. Não havia amor pelos próprios irmãos, e isso também quer dizer: não há amor por Cristo. As pessoas visitavam a igreja, participavam, celebravam a santa ceia, mas tudo isso sem amor. Não sei qual motivo elas tinham para participar na igreja, mas com certeza o amor de Cristo não estava nos corações de todos os irmãos. Não é sem motivo que o apóstolo Paulo dedicou um capítulo (13) ao amor fraternal. A congregação dos Coríntios possuía muitos dons, — o dom de falar as línguas dos homens, o dom de profetizar e muito mais — mas o que faltou foi o amor. O amor de Cristo. O Amor de Deus!

Pois o amor vem de Deus. O apóstolo João disse isso (1Jo 4.7-8): “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor”. E versos 20-21: “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ora temos, da parte dele, este mandamento: que aquele que ama a Deus, ame também a seu irmão”. Essas duas coisas estão completamente ligadas. Quando falta um, falta também o outro. Onde falta o amor a Deus, falta também o amor para com os irmãos; e onde falta o amor aos irmãos, falta o amor a Deus. Se o amor fraternal não está aqui na igreja, Deus não está; se o amor fraternal não está na sua vida, Deus não está na sua vida. Pode ser que você esteja visitando a igreja regularmente, participando na santa ceia, você pode até ser um presbítero ou diácono, mas, se falta amor na tua vida, falta Deus.

Neste ponto devemos nos examinar. A forma da santa ceia, falando sobre este auto-exame, diz no final: “Cada um deve determinar se tem a intenção sincera de mostrar a Deus a sua gratidão por uma vida dedicada a Ele. Do mesmo modo, deve mostrar que está resolvido a amar o próximo e deixar toda a hipocrisia, inveja, inimizade e raiva”. Esses últimos sentimentos não combinam com a vida cristã. Várias vezes o apóstolo Paulo disse isso (Gl 5.14,20-21; Ef 4.31; Cl 3.8). E também o nosso Senhor disse isso. No sermão do monte, por exemplo, Mt 5,23-24: “Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-se com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta”.

Essas palavras do Senhor foram ditas aos Judeus. Eles tinham o Templo e o altar para fazer ofertas. Dessa maneira, Deus lhes deu a possibilidade de receber remissão dos pecados. As ofertas, isto é, todos os sacrifícios e holocaustos, tinham a intenção de manter uma boa relação com Deus. Jesus quer dizer: como podes ter uma boa relação com Deus se não tens uma boa relação com o teu irmão? Jesus critica a religião superficial. O nosso culto a Deus não é somente cumprir alguns deveres: visitar o templo, fazer ofertas, rezar “o pai nosso, que está no céu” e mais coisas que podem ser feitas superficialmente. Jesus quer dizer: quem vai ao templo deve ser puro. Exteriormente e interiormente. Os nossos atos devem ser puros, e o nosso coração também; Como Paulo diz em 1Coríntios 13.2-3: “Ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei; E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará”.

Sem amor, os nossos atos não valem; sem amor, a nossa fé não vale; sem amor, o nosso culto não vale; sem amor, a santa ceia não vale. Se Jesus Cristo morresse na cruz sem amor, o sacrifício dele não valeria um vintém; e se nós participarmos sem amor, a nossa participação não vale nada.

Há pessoas que estão dizendo “seria melhor ficar em casa”. Mas é assim, irmãos? Será que é melhor ficar em casa? Há pessoas que reagem assim. Nas semanas antes da celebração da santa ceia, eles têm uma discussãozinha com um dos seus irmãos, palavras duras foram ditas de cabeça quente e depois eles se separaram com irritação, ou até com raiva; e depois nada se resolve, pois um está dizendo: “eu não fiz nada de errado”; e o outro está dizendo: “mas ele quem começou.” Uma briga de nada. E agora a santa ceia está se aproximando. E o que eles devem fazer? “Eu não vou para santa ceia, desta vez”, diz um”. “Se ele vai, eu não vou”, diz o outro. E o que diz o Senhor Jesus a eles? “Se, pois te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai primeiro reconciliar-se com teu irmão”. O Senhor não diz, “fica em casa”, ou “não vai ao templo”, ou “não vai fazer ofertas”. Pelo contrário! O Senhor diz: Faça! Devemos fazer isso, mas, primeiro, devemos nos reconciliar com nosso irmão. Isso é o que o Senhor diz! Vá reconciliar-se com seu irmão! Mas, eu não fiz nada errado. Mas, isso é importante? Devemos perguntar isso: quem começou? Quem fez alguma coisa errada? Prestem atenção às palavras de Jesus. Ele não se ocupa dessas perguntas. Ele diz: “Se te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai primeiro reconciliar-se com teu irmão”. Então, pode ser que você nem tenha feito nada errado, mas teu irmão tem alguma coisa contra ti. E você sabe disso. Então, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão.

Quer dizer que devemos nos humilhar e procurar o irmão, até se não fizemos nada de errado. Isso não é estranho? Pois é, mas assim é o amor. O amor é estranho. O amor faz coisas anormais; O amor procura o inimigo; o amor procura o malfeitor. Deus é assim. Deus procurou Adão e Eva. Eles foram desobedientes, e estragaram tudo. Deus poderia destruí-los, mas ele não fez isso. Ele os procurou. Um ato estranho, um ato de amor. O amor não procura os seus interesses, mas se sacrifica. Por isso Cristo se sacrificou na cruz. Um ato estranho. Um ato de amor. Paulo fala sobre o amor e diz (1 Co 13.7): “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

Assim deve ser na vida de um cristão. Quem segue Jesus Cristo, deve viver como Jesus Cristo. Deve perdoar como Jesus; deve suportar como Jesus. Paulo fala assim em Colossenses 3.13: “Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós.” Esta é a grande mudança na vida de cada cristão. O amor de Jesus Cristo mudou a nossa vida. Quem vive na igreja, deve mostrar isso. A igreja é o lugar onde o Espírito de Cristo governa. Onde o amor de Cristo domina a nossa vida. A atmosfera na igreja deve ser diferente da atmosfera no mundo. O mais importante não é se uma pessoa visita regularmente a igreja, se faz boas obras, se pode orar bem; se pode bem pregar, etc e etc. Essas coisas não são importantes. Pois uma pessoa pode visitar a igreja, mas sem amor; pode fazer boas obras, mas só porque isto é uma doutrina; uma pessoa pode orar bem, mas ao mesmo tempo estar com raiva de um irmão; uma pessoa pode pregar bem, mas não consegue se reconciliar com a sua própria mulher. A nossa presença na igreja só recebe sabor se for com amor.

O amor sabe perdoar. Se alguém fez alguma coisa errada ou disse alguma coisa errada e pede perdão, o verdadeiro amor sabe perdoar; não fica orgulhoso, mas perdoa; pois Cristo perdoou as minhas atitudes erradas e as minhas palavras erradas.

O amor sabe suportar. Isso é um pouco diferente. Eu acho que isso acontece muito nos casamentos. Depois do casamento o casal vai conhecer-se mais e mais. A mulher vai descobrir as faltas do seu marido; e o marido descobre as fraquezas da sua esposa. Muitas vezes as pessoas podem mudar, mas, às vezes, as fraquezas características de uma pessoa permanecem. Não dá para mudar, mas eles devem aceitar as fraquezas um do outro; eles suportam essas pequenas coisas, que irritam; suportam e ajudam se for necessário. Como uma criança que não tem muito conhecimento e que não entende muito bem o que a professora está dizendo, essa criança precisa de ajuda. Uma professora que se irrita por causa da ignorância dessa criança e que fica com raiva ainda não sabe o que é amor.

O amor sabe perdoar, sabe suportar e sabe sofrer. Isso também. Como Pedro diz em 1ª Pedro 02:21-23: “O próprio Cristo sofreu por vocês e deixou o exemplo, para que sigam os seus passos. Ele não cometeu nenhum pecado, e nunca disse uma só mentira. Quando foi insultado, não respondeu com insultos. Quando sofreu, não ameaçou, mas pôs a sua esperança em Deus, o justo Juiz.”

Jesus Cristo é o nosso grande exemplo. O nosso grande amor. Sentimos isso especialmente quando celebramos a santa ceia. A mesa onde Cristo nos mostra os sinais, as provas do seu amor. Onde Cristo nos ensina: olha, paguei um preço enorme para te salvar. Suportei tudo, perdoei até os meus inimigos, sofri as dores infernais.

Tudo para te salvar. Mostre este amor ao seu próximo. Não somente com palavras, mas também com os seus atos. Suporte, perdoe e sofra em meu nome. Faça coisas estranhas. Faça as coisas de amor.

Amém.

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Pr. Abram de Graaf

O pastor Abram de Graaf é “Doctorandus” (Drs) em Teologia e um dos professores do Instituto João Calvino (Aldeia, Camaragibe-PE). Ele é pastor da Igreja Reformada de Hamilton, Canadá, enviado como missionário às Igrejas Reformadas do Brasil, desde o ano 2000. É Diretor do Projeto Dordt-Brasil. Ele mora em Maceió e também desenvolve projetos nessa cidade.

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