Pregação preparada pelo Pr. Elissandro Rabêlo

Leitura: Mateus 05:01-12; Lucas 18:09-14

Texto: Mateus 05:03

INTRODUÇÃO:

Amados irmãos no Senhor Jesus Cristo,

Você já viu um mendigo rico e feliz? Como? Um mendigo rico e feliz? Isso é algo estranho e impossível. É uma contradição de termos. Como alguém que não tem nada pode ser rico e feliz? Não existe mendigo rico e feliz. Ser mendigo é sinônimo de tristeza e extrema pobreza.

Nas primeiras palavras do sermão do monte, Jesus afirmou o seguinte aos seus discípulos: “Bem-aventurados os humildes de espírito porque deles é o reino dos céus” (Mt 05.03). Esta é uma afirmação interessante, pois nela Jesus realmente está dizendo que existem mendigos ricos e felizes. A palavra “bem-aventurados” tem o sentido de verdadeiramente felizes; o termo “humildes” tem o sentido de mendigos. Como isso é possível? Será que existem mendigos verdadeiramente felizes? O que o nosso Mestre quer nos dizer com estas palavras da primeira bem-aventurança? Que ensino ele quer transmitir à sua igreja? Para entendermos estas palavras do Senhor e retermos o seu ensino para nossa vida como cristãos, precisamos responder as seguintes questões:

  • 1. O que é humildade de espírito?
  • 2. Em que consiste a felicidade dos humildes de espírito?

1. O que é humildade de espírito?

A primeira característica apresentada por Cristo que deve marcar a vida dos seus discípulos é a humildade de espírito. Sem humildade de espírito é impossível entrar no reino de Deus e muito menos ser um herdeiro deste reino. Jesus está dizendo que os seus discípulos devem ser humildes de espírito. Mas que qualidade é esta que deve marcar fortemente a vida de todo cristão? O que é humildade de espírito?

A palavra usada por Jesus, que foi traduzida em nossa Bíblia por humildes, é uma palavra que aponta para aquelas pessoas que são totalmente desprovidas de bens e riquezas materiais; é uma palavra que se refere não àqueles que são mais ou menos pobres, mas àqueles pobres que mendigam, ou seja, que não têm nenhum recurso de si mesmos para sobreviverem e, portanto, dependem totalmente do auxílio de outras pessoas.

Algumas pessoas afirmam que aqui em nosso texto, o Mestre Jesus está se referindo à pobreza material. Conforme essa interpretação, os humildes de espírito são os pobres ou mendigos que não têm nenhum recurso material para sobreviver. Mas não é isso que o nosso texto quer dizer. É verdade que, em outros lugares, a Bíblia faz referência aos materialmente pobres, mostrando o cuidado de Deus por eles. Por exemplo, no salmo 146 encontramos o ensino de que Deus, em sua misericórdia, cuida dos pobres que não têm nada no sentido material. Ali lemos que ele é o Deus que ampara o órfão e a viúva e dá pão aos famintos.

Mas aqui em Mateus 5.3, na primeira das bem-aventuranças, o Senhor Jesus não fala de pobreza material, mas de pobreza espiritual (humildade de espírito). Ele não diz: bem aventurados os pobres de bens materiais; mas ele afirma: bem aventurados os pobres (mendigos) de espírito. A ênfase de Jesus não é na pobreza no sentido econômico ou social, mas no sentido espiritual. Quando Jesus se refere aos mendigos de espírito, ele fala de uma atitude interna do coração do homem para com Deus, e esta atitude é humildade de espírito.

A humildade de espírito é uma atitude totalmente oposta ao orgulho espiritual. Há pessoas que acham que podem obter a salvação por seus próprios méritos; se orgulham de sua vida religiosa, achando-se melhores do que os outros e não reconhecendo a necessidade da graça de Deus para serem salvas e viverem a vida que agrada a Deus. Estes são os crentes orgulhosos e soberbos que confiam em sua própria justiça e não se submetem à misericórdia de Deus. Um exemplo clássico desse orgulho espiritual é aquele fariseu da parábola que foi ao templo a fim de orar. Ele revelou esta má atitude nas palavras de sua oração: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos a adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho”. Ele se achava melhor do que os outros; não enxergava nenhum pecado sequer em sua vida. Que bênção ele recebeu de Deus com seu orgulho espiritual? Nenhuma. Voltou para casa sem ser justificado por Deus. Não foi abençoado, pois não reconheceu sua dependência da graça de Deus. Faltou-lhe humildade de espírito.

A humildade de espírito é uma atitude de humilhação perante Deus por causa do reconhecimento do próprio pecado. Os humildes de espírito são os espiritualmente pobres que reconhecem como são grandes os seus pecados e a sua miséria e, portanto, se humilham arrependidos perante Deus suplicando por sua graça e misericórdia. Eles reconhecem que nada têm de bom em si mesmos que possa agradar a Deus e entendem que necessitam da graça de Deus para receber o perdão dos seus pecados. Eles se colocam diante de Deus como mendigos espirituais, totalmente carentes da sua misericórdia. Os humildes de espírito agem segundo aquele publicano da parábola que, ao contrário do fariseu orgulhoso, convenceu-se do seu próprio pecado e suplicou a Deus por perdão dizendo: “ Ó Deus, sê propício a mim pecador”! Ele foi perdoado por Deus. Voltou para casa justificado. Foi abençoado por Deus com o perdão dos pecados, porque em humildade de espírito, reconheceu sua dependência da misericórdia de Deus para ser perdoado.

A humildade de espírito deve ser uma atitude constante na vida do crente. Embora regenerados, temos ainda uma natureza pecaminosa e, portanto, pecamos a cada dia. E, sendo pecadores, precisamos reconhecer nossa total necessidade da graça e da misericórdia de Deus. Há humildade de espírito em seu relacionamento com Deus? Você tem sido um mendigo espiritual? Você tem se humilhado perante Deus por causa dos seus pecados? Tem confessado a ele as suas transgressões? Você reconhece a necessidade da graça de Deus para receber o perdão dos seus pecados e, como um mendigo, implora a Deus por perdão? Ou você se orgulha de si mesmo achando que não depende de Deus para nada? Atente para o que diz a palavra de Deus: O Senhor resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça. Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte… (1Pe 5.5b-6), pois todo o que se exalta será humilhado, mas o que se humilha será exaltado (Lc 18.14b).

O Senhor não olhará para os orgulhosos espirituais que acham que não precisam de Deus e que são melhores do que os outros; também não olhará para os que vivem mergulhados em seus pecados sem se arrepender; mas ele olhará para todos aqueles que se esvaziam de si mesmos e recorrem humilhados e arrependidos ao seu auxílio e misericórdia. Ele mesmo prometeu: “Mas o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da minha palavra” (Is 66.2). Destes ele se aproxima: “Perto está o Senhor dos que têm coração quebrantado e salva os humildes de espírito” (Sl 34.18). Ele se agrada dos humildes de espírito e tem prazer em ouvi-los e abençoá-los, conforme podemos ler no salmo 51.17: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus”.

2. Em que consiste a felicidade dos humildes de espírito?

Deus abençoa os humildes de espírito. Jesus disse que eles são bem-aventurados, isto é, realmente felizes. Os mendigos a quem Jesus se refere são verdadeiramente ricos e felizes. Mas em que consiste a felicidade dos humildes de espírito? Qual é a riqueza deles? Por que eles são bem-aventurados? O nosso Senhor nos responde: “Porque deles é o reino dos céus”. Estas palavras constituem uma afirmação maravilhosa de Jesus. Ele não diz que a herança do reino dos céus pelos humildes de espírito é um sonho, um desejo ou uma possibilidade, mas que é um fato, uma realidade, uma certeza: aos humildes de espírito pertence o reino dos céus; eles são de fato herdeiros desse reino. Aqueles que descobrem sua pobreza espiritual não são infelizes ou miseráveis como os incrédulos e orgulhosos que não buscam a misericórdia de Deus, mas são bem-aventurados, felizes, ricos, pois possuem uma riqueza incomparável: deles é o reino dos céus.

O que é o reino dos céus? O reino dos céus ou reino de Deus foi o tema central da pregação e do ensino de Cristo. Logo após seu batismo e tentação, o Senhor começou a pregar e ensinar sobre o evangelho do reino de Deus dizendo: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo” (Mc 1.15a). Jesus está dizendo que o reino de Deus chegou, está presente entre os homens na sua pessoa e obra. Mas qual é a natureza deste reino? Esse reino não significa o governo político de um rei sobre um determinado país ou território. Os judeus, na época de Jesus, esperavam um reino terreno estabelecido em Jerusalém pelo Messias prometido. Eles esperavam um reinado político em que o Messias os libertaria do jugo dos romanos e reinaria sobre eles. Mas não foi esse tipo de reino que Jesus trouxe para seu povo.

O reino dos céus trazido por Jesus é muito abrangente. Poderíamos falar muita coisa sobre este reino. Mas no momento precisamos saber do seguinte: O reino dos céus, já presente na pessoa de Cristo, é um reino espiritual e significa o domínio da graça de Deus em Cristo sobre o seu povo santo, a sua igreja. Neste reino, Cristo é Rei e Senhor, e todos os que nele creem são herdeiros e habitantes deste reino. Neste reino há benefícios e deveres para seus súditos. Este reino, que já pertence aos humildes de espírito, é também uma realidade tanto presente quanto futura na vida deles.

O reino dos céus já é uma realidade presente na vida de todos os crentes. Os humildes de espírito são bem-aventurados, pois foram transportados do império das trevas para o reino do Filho Amado de Deus. São bem-aventurados porque desfrutam já aqui na terra das bênçãos do reino dos céus, do qual, pela graça de Deus, foram feitos herdeiros e cidadãos. Eles receberam pela graça de Deus, somente pelos méritos de Cristo, a remissão completa dos seus pecados e a nova vida em Cristo (sob a direção do Espírito Santo).

Os humildes de espírito são felizes porque desfrutam do governo e cuidado espiritual de Cristo sobre eles. O Cristo exaltado e entronizado nos lugares celestiais os governa com sua palavra e Espírito e cuida deles, protegendo-os e guardando-os dos inimigos e concedendo-lhes tudo o que precisam para seu corpo e alma. Pertencer ao reino de Cristo, ser participante de sua salvação, desfrutar dos seus cuidados é a grande riqueza e felicidade que Deus dá aos humildes de espírito já agora.

Podemos encontrar uma felicidade maior do que essa neste mundo? O dinheiro, a fama ou qualquer outra coisa que este mundo oferece pode dar ao homem a verdadeira felicidade? Não. Por mais que os homens depositem sua confiança nas coisas materiais e por mais que desfrutem ao máximo de suas riquezas, eles continuam sendo infelizes e miseráveis estando fora de Cristo. Somente em Cristo se pode encontrar e possuir a verdadeira felicidade. A verdadeira felicidade consiste em possuir a verdadeira vida e esta só pode ser encontrada em Cristo. Ele veio para conceder vida, e vida em abundância, e vida eterna a todo aquele que nele crê, pois ele próprio é a vida. Ele está chamando pecadores para desfrutarem da verdadeira vida que só pode ser encontrada nele. Os que estão fora de Cristo precisam se arrepender dos seus pecados e crer no Senhor Jesus para serem salvos; necessitam de um novo nascimento para entrar no reino de Deus e se tornar seus herdeiros, pois “se alguém não nascer de novo não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3.5).

Reconheça seus pecados e clame pela misericórdia de Deus. Arrependa-se dos seus pecados e creia em Cristo! Pois somente ele pode restaurar a sua comunhão com Deus e fazer de você um herdeiro e habitante do reino dos céus. É nisto que consiste a verdadeira felicidade. Por outro lado, os que não se arrependem de seus pecados e não se refugiam em Cristo não herdarão o reino dos céus, pois a palavra de Deus nos diz claramente que aqueles que praticam as obras da carne não herdarão o reino de Deus (1Co 6.9-10; Gl 5.21).

Os crentes, que já são herdeiros do reino e desfrutam de suas bênçãos e privilégios em Cristo expressam sua gratidão pelos benefícios imerecidamente recebidos. Sob a direção do Espírito Santo, eles passam a viver de acordo com a ética do reino de Cristo. Eles não se entregam ao pecado, mas vivem para Deus; não se orgulham de si mesmos, mas em humildade de espírito reconhecem sua necessidade da graça de Deus para serem salvos e viver a vida que agrada a Deus.

A vida no reino dos céus já pode ser desfrutada aqui nesta terra, mas ela terá seu total cumprimento na vida porvir. Aqui ainda encontramos oposição ao reino de Cristo. Lutamos contra o pecado (nossa carne), o mundo e também o diabo que tenta nos destruir. Mas, para nosso consolo, Cristo nos libertou do domínio do pecado e do diabo. Satanás não obterá êxito em suas investidas contra a igreja de Cristo. Ele já foi derrotado pela vitória de Cristo em sua morte e ressurreição e aguarda a condenação final e eterna. Cristo protege o seu rebanho e ele mesmo prometeu que as portas do inferno não prevalecerão contra a sua igreja. No dia em que Nosso Rei e Salvador voltar, a oposição de Satanás chegará ao fim. Ele será definitivamente lançado no lago de fogo com seus anjos. O pecado, a morte e o sofrimento não mais existirão. Então, viveremos no reino dos céus em toda a sua plenitude. Seremos glorificados e reinaremos para sempre com nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, vivendo com ele em eterna felicidade.

Conclusão

Nas promessas de cada uma das bem-aventuranças, o Senhor Jesus nos deu uma descrição maravilhosa do que será a vida na plenitude do Reino. Lá os crentes serão eternamente consolados, pois Deus lhes enxugará dos olhos toda a lágrima; os crentes herdarão a terra, reinarão com Cristo no novo céu e na nova terra sobre toda criação; os crentes serão plenamente satisfeitos com a justiça de Deus; encontrarão a misericórdia; verão a Deus, isto é, habitarão para sempre com o seu Deus e Pai e viverão em eterna paz com ele como seus verdadeiros filhos em Cristo.

Esta é a vida no reino dos céus, a verdadeira felicidade que não pode ser encontrada no mundo, mas que vem de Deus para nós por meio de seu Filho, Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Esta verdadeira felicidade não é para os orgulhosos e incrédulos que não reconhecem seus pecados e sua total necessidade e dependência da graça de Deus em Cristo para serem salvos. Eles se acham ricos, mas na verdade são pobres se não têm Cristo. Mas quem desfruta dessa verdadeira felicidade são os humildes de espírito, que reconhecem seus pecados e buscam a salvação, não em si mesmos, mas em Cristo. Os que chegam de mãos vazias diante de Deus recebem tudo que precisam para a salvação. Eles não têm nada, mas Cristo tem tudo. Em Cristo, eles são de fato, mendigos ricos e felizes. Pois, pela graça de Deus em Cristo e não por seus próprios méritos, recebem a herança do reino dos céus: “deles é reino dos céus”, já agora aqui na terra e mais plenamente na vida eterna porvir.

Amém.

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Pr. Elissandro Rabêlo

Pastor na Igreja Reformada em Cabo Frio - RJ.

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