Pr. Abram de Graaf

Leitura: Mateus 01:01-17

Texto: Mateus 01:01-17

Queridos irmãos em Cristo,

Talvez você esteja pensando: que texto esquisito hoje de manhã! UMA GENEALOGIA! Cheio de nomes estranhos! Nomes das pessoas que não conhecemos. Isso é interessante? Talvez não, talvez sim, irmãos. Isso depende de vocês. Pois, para quem conhece essas pessoas nesta genealogia, para ele este texto é bastante interessante. Tudo depende de nosso conhecimento; de nosso interesse.

Vou dar um exemplo. Há pessoas que não se interessem para uma tal genealogia. Uma coisa aborrecida! E por que? Por que eles não conhecem os nomes. Mas se você encontrar as mesmas pessoas em frente da televisão antes dum jogo de futebol, eles reagirão diferente. Pois antes do jogo, a televisão mostra uma lista com os nomes dos jogadores; Quem não se interesse para futebol, ele achará esta apresentação da lista com os nomes dos jogadores um momento aborrecido; MAS quem conhece os jogadores do Brasil, ele olha para esta lista e logo dará os seus comentários. Rapaz, como eles podem colocar este jogador no campo. Ele é tal ruim! Mas o outro, o número 13, é um bom jogador, sabe! Excelente! Dez! Fez bastante gols. Quem conhece o mundo de futebol, olhará com interesse a lista dos jogadores. Para os fãs cada nome tem a sua história. Pelé, Ronaldinho e Kaká são nomes famosos.

Então, irmãos, a nossa atitude deve ser igual a respeito dessa genealogia. Quem não conhece a bíblia, ele achará esta genealogia uma coisa chata; MAS quem CONHECE a Bíblia, ele vai observar essa genealogia com interesse. Ele vai se perguntar: Por que Mateus começa com uma genealogia? O que Mateus quer dizer com isso? E por que essa genealogia começa com ABRAÃO e não com Adão – como no evangelho de Lucas? Por que Mateus colocou os nomes de 4 mulheres nessa genealogia? E mais uma pergunta: é uma coincidência que houve 3 épocas com 14 gerações? Será possível que Mateus omitiu alguns gerações? São algumas perguntas, para mostrar que esta genealogia de jeito nenhum é forçada. Quem conhece a Bíblia achará essa genealogia cativante, intrigante. Essa genealogia evoca perguntas. E hoje quero dar algumas respostas. Vamos olhar para essa genealogia. Primeiramente para o titulo dessa genealogia. “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”.

Irmãos, o autor deste livro, Mateus, escreveu o seu livro especialmente para o povo dos judeus. Anos depois da rejeição de Jesus pelos Judeus, Mateus, quer convencer os seus irmãos que este Jesus de Nazaré é o Cristo. Para conseguir isso Mateus muitas vezes usa textos do Antigo Testamento para mostrar que as promessas antigas são cumpridas em Jesus. Regularmente Mateus cita as palavras dos profetas do Velho Testamento e depois disso Mateus diz: “o que foi dito naquela época, agora é cumprido. Vocês podem ler isso no meu evangelho, irmãos”. Dessa maneira Mateus traz à memória a vida de Jesus para convence-los que Jesus é realmente o Cristo.

Este é o alvo desse evangelho e isso se mostra logo no início do livro. Quer dizer: nesta genealogia de Jesus. Mateus quer usá-la para mostrar que Jesus é o Cristo. Isso fica logo claro no versículo 1: Pois não se fala sobre a genealogia de JESUS, mas sobre a genealogia de Jesus CRISTO. Esta Segunda palavra “Cristo” não é o segundo nome de Jesus, assim como muitas pessoas têm dois ou três nomes; também não é o sobrenome de Jesus, como todos nós temos um sobrenome; Não, nada disso. Esse nome ‘CRISTO’ caracteriza o trabalho dele. Encontramos mais pessoas com um tal nome na Bíblia. Por exemplo. João BATISTA, pois ele batizava o povo; Levi, O PUBLICANO, pois ele foi um publicano. Da mesma maneira funciona o segundo nome ‘CRISTO’, pois Jesus é O CRISTO. Quer dizer: O UNGIDO. No versículo 17 isso fica ainda mais claro, pois lá o nome é repetido, mas com o artigo: “O CRISTO”. Então, esta é a genealogia de Jesus, O Cristo, quer dizer: o ungido, O messias.

Pregar o Cristo, este é o alvo dessa genealogia. E isso também se mostra no resto deste versículo 1: Ele é o filho de Davi. Ele é O filho de Davi. O filho prometido. O Senhor tinha prometido à Davi, que na casa dele nasceria o Cristo. E esse filho prometido é Jesus. O FILHO de Davi.

Sabendo isso, podemos entender por que Mateus também disse que Jesus é o filho de ABRAÃO. Pois Abraão foi o patriarca do povo Israel. Foi dito a Abraão: “em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gen. 12,3). Essa promessa será realizada em Jesus, o Cristo. Este Jesus será uma benção para todas as famílias da terra; ele é o salvador; o povo de Israel estava esperando por este salvador. E agora ele nasceu. O seu nome é Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.

Então, irmãos, de várias maneiras Mateus mostra no título dessa genealogia de Jesus, que o Cristo nasceu. Isso não é uma enumeração seca dos ascendentes de Jesus, mas esta genealogia quer provar que o Cristo nasceu. Esta genealogia prega o Cristo! E isso se mostra também na ESTRUTURA DESTA GENEALOGIA DE JESUS.

Mateus mesmo declara que essa genealogia contém uma certa estrutura. Em vs 17 ele diz: “todas as gerações, desde Abraão até Davi são catorze; desde Davi até ao exílio na Babilônia, catorze; e desde o exílio na Babilônia até Cristo, catorze”.

Uma coisa notável, não é? De Abraão até Jesus se contam EXATAMENTE 3 vezes 14 gerações. Isso é uma coincidência ou isso é de propósito? Bom, irmãos, posso dizer: isso é de propósito. Para conseguir 3 grupos de 14 gerações, Mateus tinha que omitir alguns nomes.

Isso já acontece na primeira parte da genealogia. De Abraão até Davi. Conforme esta genealogia Boaz é o filho de Raabe. Mas se controlar o Antigo Testamento, vamos encontrar Raabe no livro de Josué; e Boaz encontramos no Livro de Rute. E entre esses dois livros está o livro dos Juízes. Raabe vivia no início da época dos Juízes e Boaz no fim daquela época. Se Boaz fosse o filho de Raabe, isso queria dizer que a época dos Juízes durou no máximo uma geração, ou menos do que uma geração. Isso é improvável. É mais provável que Mateus omitiu uma ou duas gerações. Pode ser que Mateus pulou uma ou duas gerações e fez uma conexão entre Raabe e o seu neto ou bisneto Boaz.

Também na segunda parte dessa genealogia encontramos omissões. Quem analisa a linha real de Davi até Jeconias, vai sentir falta dos reis Acazias, Joás e Amazias (2 Crônicas. 22 e 23). Eles deveriam estar no versículo 8 entre Jeaorão e Uzias. Mas Mateus não os colocou!!!

E também a última parte da genealogia contêm alguns omissões. Lucas (3) tem na sua genealogia 22 nomes, Mateus só 14.

Então, é claro que Mateus omitiu alguns nomes. De propósito. Quem trabalha num cartório, pode se estranhar sobre isso, mas devemos pensar nisso: Mateus não quer dar um relatório do livro de nascimentos dum cartório; não é o seu alvo para nos dar a árvore genealógica completa de Jesus.

Quer dizer que Mateus inventou este ordem? Não! Pois há outras genealogias na Bíblia e quem vai comparar estas genealogias vai descobrir que a genealogia de Mateus está certa de maneira geral. Mateus omitiu de propósito alguns nomes. E devemos nos perguntar: por que? Por que ele fez isso? Eu acho que devemos procurar a resposta na direção que Mateus nos mostrou no título: ele quer mostrar que Jesus é o Cristo para Israel.

E para mostrar isso, ele usa um certo estilo, que foi muito usado pelos Judeus: um jogo com números. Mateus explicitamente nos diz que há três grupos de 14 gerações. Ele diz isso explicitamente, e isso quer dizer que ele acha que isso é muito importante. Provavelmente por causa do sentido simbólico. Encontramos isso mais vezes na Bíblia. Pensem no Apocalipse de João! Lá, às vezes, a história é divida em três divisões (Apocalipse. 12,14): “um tempo, tempos e metade de um tempo”. Isso não foi anormal para os judeus e isso também não foi ilegítimo. Se fosse feito, tivesse um certo sentido. Quem fez isso, quis enfatizar alguma coisa duma maneira bonita. Nos salmos, por exemplo, encontramos também certas construções estilísticas para embelezar o salmo, ou para enfatizar alguma coisa. Duma maneira totalmente diferente, mas também artificialmente, Mateus fez isso com essa genealogia, dividindo-a em três grupos de 14 gerações. Como já disse: ele declara isso explicitamente no versiculo 17. Isso já mostra que ele achou esta ordem muito importante. Pois esta ordem tem um sentido simbólico: 3 vezes 14 é igual à 6 vezes 7. 6 septetos precediam Jesus. Com Jesus começa o sétimo septeto. Sete é o numero que simboliza a plenitude. Com Jesus a história de Israel entra na sua plenitude. A época messiânica começou. O messias chegou.

E ele chegou para salvar o seu povo. Este aspecto, encontramos também nesta genealogia: O PECADO nas gerações. Mateus colocou os pecados sutilmente nessa genealogia para mostrar POR QUE o Cristo devia chegar. Vamos ver isso, se prestarmos atenção AS PESSOAS NESTA GENEALOGIA DE JESUS CRISTO

Prestamos atenção ao TÍTULO e a ESTRUTURA dessa genealogia de Jesus. E agora vamos olhar AS PESSOAS INDIVIDUALMENTE, que constroem essa genealogia. E todo mundo entende, que não podemos comentar cada nome. Devemos nos limitar, e por isso vamos somente dizer alguma coisa sobre AS QUATRO MULHERES nessa genealogia. Esta é uma coisa estranha. Isso quase nunca aconteceu nas genealogias dos judeus. Cada judeu que lesse esta genealogia se estranharia; ou pior: se irritaria por causa da presença dessas 4 mulheres na genealogia do CRISTO. Pois QUE mulheres! Se pudermos escolher quatro mulheres para colocá-las nessa genealogia, QUE mulheres iríamos escolher? Eu acho que a maioria escolheria Sarai…., Rebeca, Lea e Raquel. As 4 matriarcas de Israel. Mas isso não acontece aqui! No lugar delas Mateus colocou 4 mulheres que desenfeitou a árvore genealógica do Cristo.

Por exemplo: Judá gerou de TAMAR a Perez. Assim está escrito no versículo 3. E quem conhece a Bíblia, logo pensa na história repugnante, que encontramos em Gênesis 38, onde Judá se mostra injusto e safado. Primeiramente ele se distanciou dos seus irmãos e se afiliou com o povo de Canaã; os seus filhos se casaram com as filhas dos Cananeus; os seus filhos recusaram procriar filhos e finalmente a sua nora, estando mascarada como prostituta, o seduz e consegue ter filhos. Essa história mostra que Judá foi um cafajeste. Uma mancha na genealogia de Jesus Cristo.

E depois lemos no versículo 5: “Salmon gerou de Raabe a Boaz”. Essa RAABE deve ser Raabe, a prostituta de Jericó. Lemos sobre ela em Josué 6. Essa mulher foi um canaanita; por causa disso a posição dela, aqui na genealogia do Cristo, já é estranha. Pois o povo de Israel não podia se misturar com os cananeus. Por isso Raabe devia morar fora do acampamento dos Judeus. Mas aqui descobrimos que essa canaanita é uma das matriarcas do Cristo!

E podemos dizer a mesma coisa sobre RUTE. Ela foi de Moab. E a lei de Deus disse que as Moabitas não podiam entrar na assembléia de Israel (Deut. 23,3). Para os Judeus, ler isso, deveria ser uma coisa horrível e completamente incompreensível. Eles guardam as suas genealogias para mostrar a pureza de seus antecedentes. As genealogias servem para os sacerdotes que deviam servir no serviço do templo: somente esses homens que tiveram uma antecedência sem manchas. O Sanhedrin tinha que controlar todas as genealogias. Quando um sacerdote queria se casar ele devia mandar a sua árvore genealógica e a árvore genealógica da sua mulher.

Pensando nisso, fica claro que esta genealogia mostra algumas deficiências e manchas. Pensa por exemplo em Davi que foi casado com a mulher de Urias. Não está escrito: Davi, que foi casado com Bate-Seba; nada disso. Ele foi casado com a mulher de Urias. Isso nos lembra o pecado repugnante na vida de Davi. Ela foi a mulher de Urias. Ela ficou a mulher de Davi, depois adultério, falsos testemunhos e um assassinato. Assim é Davi.

Judá e Davi. Homens grandes; mas também: grandes pecadores. E assim podemos caracterizar todos os antecedentes de Jesus. Homens e mulheres pecaminosos. Cada um precisava do Cristo. O Salvador que viria para salvar o seu povo dos seus pecados. Não somente a sua família, mas todo o povo. Esses nomes, essas pessoas, não foram excepcionais. Todo o povo precisava do Cristo. Isso se mostra também na última parte da genealogia. Lá se fala sobre o Exílio do povo de Israel. Bom, este exílio não foi uma viagem agradável. Não foram as férias, mas foi um castigo de Deus. O povo foi levado por causa dos seus pecados…

Dessa maneira a história mostra claramente que o povo de Israel se definhou por causa dos seus pecados. Eles não podiam se salvar. Quem segue a linha de Abraão até José, só pode tirar a conclusão que a linha não tem saída. Isso somente muda por causa da ajuda de Deus. O fim mostra que a salvação não vem dos homens, mas de Deus. Pois preste atenção: Não está escrito: JOSÉ gerou JESUS!!!! NADA!!! José não gerou Jesus. Ele RECEBE Jesus pela sua mulher Maria. Dessa maneira Deus mostra a sua graça surpreendente. Israel (e nós também) deve saber: NÃO PELO PROPRIA FORÇA FOI GERADO O SALVADOR , MAS PELA PODER DE DEUS O CRISTO VEIO AQUI NA TERRA.

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Abram de Graaf

O pastor Abram de Graaf é “Doctorandus” (Drs) em Teologia e um dos professores do Instituto João Calvino (Aldeia, Camaragibe-PE). Ele é pastor da Igreja Reformada de Hamilton, Canadá, enviado como missionário às Igrejas Reformadas do Brasil, desde o ano 2000. É Diretor do Projeto Dordt-Brasil. Ele mora em Maceió e também desenvolve projetos nessa cidade.

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