Sermão preparado pelo Pr. Elissandro Rabêlo

Leitura: Salmo 02; Dia do Senhor 15

Texto: Marcos 12:01-12

Está próxima a festa da páscoa e os judeus de todos os lugares estão se dirigindo para Jerusalém a fim de celebrar essa festa. O Senhor Jesus e seus discípulos também estão em Jerusalém. Como judeus eles também vão celebrar a páscoa. Mas o Senhor Jesus está bem consciente de que aquela é a última páscoa que ele vai celebrar com os seus discípulos. Ele sabe que em poucos dias ele será entregue às autoridades para ser morto na cruz. Ele sabe que está chegando a sua hora de ser sacrificado em favor do seu povo. Por isso ele se dirige a Jerusalém, pois ele é o Cordeiro de Deus que veio para tirar o pecado do mundo através de seu sacrifício e morte na cruz.

O Senhor Jesus não só tinha consciência da proximidade da sua morte, mas também profetizou sobre ela. Ele falou da sua morte em diversas situações. Ele falou claramente para os seus discípulos o que estava para acontecer com ele em Jerusalém (Mc. 9.30,32; 10.32,34). Mas o Senhor também falou da sua morte para as outras pessoas que vinham ouvi-lo. Vemos isso aqui no nosso texto. Jesus ensina a parábola dos lavradores maus. Nesta parábola o Senhor vai falar sobre si mesmo, particularmente sobre a sua morte que está para acontecer em Jerusalém.

Agora observe um detalhe: para quem o Senhor dirigiu esta parábola? Ele dirige esta parábola especialmente aos principais sacerdotes, escribas e anciãos dos judeus (Mc. 11.27; 12.1). Estes líderes religiosos dos judeus junto com muitos outros judeus vinham alimentando sentimentos de ódio e revolta contra a pessoa e a obra de Jesus. Eles questionaram a autoridade com que Jesus estava realizando suas obras e se opuseram à pessoa e a obra de Jesus. É neste contexto, que o Senhor profere esta parábola dos lavradores maus contra aqueles judeus incrédulos. Mas esta parábola não se limita a uma repreensão de Jesus aos judeus incrédulos de sua época. Nesta parábola o Senhor proclama a boa notícia da salvação que o Pai providenciou para o pecador através da sua obra redentora que ele está para realizar a poucos dias ali mesmo em Jerusalém.

Vejamos, portanto, o que Jesus quer nos ensinar com a parábola dos lavradores maus. Atentemos para o conteúdo dessa parábola. O Senhor começa falando de um homem que plantou uma vinha. Plantar uma vinha era uma atividade agrícola muito comum naqueles dias. O homem que plantou a vinha era um fazendeiro, um dono de uma propriedade. Este fazendeiro providenciou tudo para que sua vinha viesse produzir lucro para ele. Ele cercou a sua vinha com um muro para protegê-la dos animais, construiu um lagar para esmagar as uvas e produzir o vinho e ainda edificou uma torre para vigiar sua vinha. Ele fez tudo muito bem. Nada faltava. Certamente aquela vinha, se bem cuidada, daria muitos frutos. Aquele fazendeiro, após construir sua vinha, fez ainda outra coisa. Ele teve de fazer uma longa viagem e por isso, alugou a sua vinha a alguns lavradores. Estes lavradores tinham o dever de cuidar da vinha e prestar contas ao dono, isto é, enviar-lhe a parte dos frutos que lhe era devida. Eles tinham direito a uma parte dos lucros, mas também deviam enviar parte do lucro para o dono da vinha. Certamente, eles combinaram com o dono a forma de pagamento e estavam cientes da sua obrigação.

O dono da vinha, então, no tempo da colheita, no tempo propício para receber a sua parte das mãos dos fazendeiros, enviou-lhes um de seus servos (vs. 2). Até aqui tudo bem. Mas agora nos é revelada a primeira surpresa da parábola: (ler v.3). É estranha e surpreendente a atitude perversa dos lavradores em relação ao primeiro servo enviado (3). Eles não recebem bem o servo do dono da vinha, mas batem nele e o mandam de volta com mãos vazias. O que eles estão dizendo com isso? Que rejeitam o contrato feito com o dono da vinha e que querem obter o lucro total da vinha. Eles querem se tornar independentes do dono da vinha e se apossar ilegalmente da vinha. Aqueles lavradores reagiram como se eles próprios fossem os donos da vinha. Eles espancaram um dos servos do dono. Isso já poderia ser um motivo para que o dono da vinha voltasse e pessoalmente prestasse contas com aqueles lavradores. Mas isto não aconteceu. O dono da vinha se mostra paciente e envia outro servo (vs.4). Novamente, a mesma coisa acontece. Aqueles lavradores agridem violentamente o outro servo. Este foi tratado pior que o primeiro. Ele levou pancadas até na cabeça. Vejam só, irmãos, quão maus e perversos eram aqueles fazendeiros. O dono enviou-lhes ainda outro servo e o que eles fizeram? Desta vez o mataram. (ler Vs. 5 a). Muitos outros foram ainda enviados, sendo que uns foram espancados e outros assassinados. (ler Vs. 5 b). Isso não parece uma coisa normal. É estranha a atitude perversa daqueles lavradores com relação aos servos do dono da vinha. Porém, mais estranho e surpreendente é a paciência do dono da vinha. Ele enviou muitos servos, dos quais uns foram espancados e outros mortos.

Mas isso não é ainda o ponto central da parábola. O Senhor não disse tudo ainda. A história ainda não havia terminado. Existe uma surpresa ainda maior na parábola (ler vs. 6). O pai, cheio de paciência e pela última vez envia mais uma pessoa àqueles lavradores. Mas ele não envia uma pessoa qualquer, ele envia seu próprio filho, a quem ele tanto amava (ler v.6). Mas por que ele faz isso? Não seria uma loucura? Muitos dos seus servos não já tinham sido mortos? Seu filho também não poderia morrer nas mãos daqueles maus lavradores? Por que então ele envia o seu filho amado? Será que ele não sabia de nada? O pai não era ignorante. Ele sabia muito bem da atitude violenta dos lavradores. Ele conhecia o ódio deles. Mas ele queria saber se eles tinham limites, se havia alguma gota de humanidade. Ele queria ver se eles tratariam bem e se respeitariam o seu filho amado que o representava na presença deles.

Mas qual foi a atitude dos maus lavradores em relação ao filho do senhor da vinha? (ler Vs. 7). Observe a frieza e a ganância daqueles maus lavradores. Eles tramaram a morte do filho e executaram seu plano, sem nenhum pingo de misericórdia. Ao verem o filho, eles pensaram e planejaram: “Certamente o pai dele morreu e ele vem tomar a sua herança; vamos então mata-lo e a vinha definitivamente será nossa”. Eles mataram o filho e lançaram seu corpo fora da vinha. De forma perversa, injusta e desonesta, eles queriam se apossar da vinha que não era deles, ou seja, tomar posse da herança que não lhes pertencia. Isso mostra claramente a atitude maligna e perversa daqueles lavradores. Eram homens brutais e violentos, sem nenhum coração. Além de espancar uns e matar outros servos do senhor da vinha, eles também rejeitaram o seu filho, chegando até o ponto de tirar-lhe a vida. Mas em que resultaram os atos de perversidade daqueles lavradores maus? Por conseqüência, eles colheram o fruto dos seus atos perversos: foram exterminados pelo dono da vinha, pois sua paciência chegou ao fim, e a vinha foi arrendada a outros lavradores (9).

Essa parábola contada por Jesus não é uma simples história, mas é parte da revelação que ele faz de si mesmo e de sua obra redentora. O Senhor quer ensinar verdades importantes com suas parábolas aos seus ouvintes. Aqui na parábola dos lavradores maus, o Senhor Jesus nos ensina algumas verdades importantes acerca do seu evangelho para a sua igreja:

1) Os servos enviados pelo dono da vinha e que foram espancados e mortos pelos lavradores maus apontam para os profetas do Senhor que foram rejeitados e até mortos pelos membros rebeldes do povo de Deus. Quando lemos a história do povo de Israel no A.T., vemos a bondade e a paciência do SENHOR em enviar seus servos, os profetas, com a sua palavra, para ensinar, consolar e repreender o seu povo para a salvação deles. Acontece, porém, que várias vezes estes profetas, que falaram em nome do SENHOR e para o bem do povo, encontraram muita resistência por parte de um povo rebelde e de coração duro. Jeremias, por exemplo, foi um profeta do SENHOR que sofreu muito por causa da perversidade e rebeldia do povo (Jr. 7.26-28). Alguns até planejaram matá-lo (Jr. 18.18,23 a). Outros profetas do Senhor foram perseguidos e até mortos por pregarem a palavra do Senhor. Um deles, Zacarias, foi assassinado no pátio do templo, entre o santuário e o altar (II Cr. 24.20,21). Jesus condenou a atitude rebelde dos líderes religiosos dos seus dias por serem cúmplices na morte dos profetas fiéis do SENHOR (ler Mt. 23.29-36).
Vemos então que esta parábola lança luz à história anterior de rebeldia do povo de Israel em relação aos profetas do Senhor. Com esta palavra de repreensão aos judeus incrédulos de seus dias, o Senhor traz também uma mensagem de advertência para a sua igreja: os erros dos nossos irmãos do passado são exemplos de advertência para nós hoje, a fim de não cometermos os mesmos pecados que cometeram. Pode ser que não matemos os profetas do Senhor hoje, mas podemos cometer o pecado de rebeldia endurecendo nossos corações às palavras do Senhor que os seus servos nos trazem. Não devemos ser rebeldes e fechar os nossos corações para a palavra do Senhor que ele nos dá por meio dos seus servos, os oficiais da igreja. Devemos receber com humildade e alegria a palavra de Deus, pois esta palavra é útil para nossa correção, repreensão, educação na justiça e também para nosso consolo e esperança (II Tm. 3.16; Rm. 15.4).

2) O filho amado do dono da vinha que foi morto pelos maus lavradores aponta para o próprio Jesus que vai ser morto na cruz por mãos de homens perversos. Alguns detalhes que Jesus nos revela na parábola indicam que ele próprio se identifica com o filho amado do dono da vinha. Jesus está falando sobre si mesmo nesta parábola e ele nos revela três coisas sobre sua pessoa e obra:

2.1) Jesus foi enviado por último. Em primeiro lugar o dono da vinha enviou os seus servos. E por fim, enviou o seu único filho. Quer dizer: Deus enviou os seus profetas para o seu povo. Estes chamaram o povo ao arrependimento e anunciaram as promessas do Messias. João Batista foi o último destes profetas do Senhor. Ele também foi morto por causa da palavra de Deus. Depois de João, o SENHOR enviou por último o seu único Filho que era em si mesmo o Messias. Ele mostrou com seus atos e palavras que ele era o Cristo. Por meio dele, Deus falou ao seu povo: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (ler Hb. 1.1,2).

2.1) Jesus, aquele que foi enviado por último, é o filho amado de Deus. Jesus diz que o dono da vinha enviou a única pessoa que ele tinha, a saber, o seu filho amado. Esse filho amado é identificado como o próprio Jesus. Podemos dizer isso, pois a Bíblia nos revela que Jesus é o Filho amado de DEUS (Mc 1.11; 9.7). O que isto significa para Jesus? Que ele, como Filho Amado do DEUS Altíssimo, é digno de honra e respeito; que ele é o herdeiro de todas as riquezas do Seu Pai; e também que ele recebeu total autoridade para efetuar a obra da salvação para a qual fora enviado. Com essa autoridade, Ele pregou o evangelho, operou vários milagres, expeliu demônios, perdoou pecados, expulsou os comerciantes da casa de Seu Pai, em fim, fez muitas coisas. Mas a sua principal obra como Filho de Deus ainda estava para acontecer. Ele veio para morrer numa cruz em resgate por muitos e assim, trazer salvação para nós pecadores.

Jesus é o filho amado de Deus que foi rejeitado e morto. Jesus fala na parábola da morte do filho do dono da vinha. O filho amado do dono da vinha foi rejeitado, desonrado e assassinado por aqueles maus lavradores. É claro que Jesus está se referindo à sua morte que está para acontecer em Jerusalém. Em poucos dias, ele vai ser preso, açoitado, cuspido, zombado e pendurado numa cruz maldita e vergonhosa. Jesus sabe disso. Ele sabe que sua morte em Jerusalém está bem próxima. Por isso, ele fala de sua morte na parábola dos lavradores maus. O que Jesus nos ensina acerca da sua própria morte?

A morte de Jesus é resultado da iniqüidade de homens perversos. Jesus foi morto por mãos de iníquos. Aqueles judeus incrédulos de sua época, especialmente os líderes religiosos, não o reconheceram como o Messias, mas o desrespeitaram, o desprezaram e por fim, o mataram. Aqueles judeus incrédulos não viram em JESUS o CRISTO de DEUS, o cumprimento da promessa, a redenção de Israel. Eles se rebelaram contra o Senhor por causa da dureza e rebeldia de seus próprios corações. Eles crucificaram a CRISTO e foram responsáveis, diante de Deus, por seus atos terríveis e perversos (Atos 2. 22-23).

Ao mesmo tempo, a morte de Jesus por mãos de iníquos é a manifestação do grande amor de Deus para salvar pecadores. De fato, homens perversos tramaram e executaram a morte de Jesus, mas esta morte aconteceu de acordo com o propósito salvador de Deus. Já na eternidade, o Senhor Deus, por sua determinação e graça e por causa do seu grande amor, decretou a morte do seu filho para nos salvar. O Pai deu o seu filho único e amado para nos salvar (João 3.16). A morte do Filho amado de Deus na cruz tinha de acontecer para a nossa salvação. Jesus veio ao mundo para morrer. O Pai o enviou com esta missão. Por isso, o Senhor vai para Jerusalém na época da páscoa. Ele vai ser o cordeiro pascoal que será sacrificado na cruz para tirar os pecados do seu povo.

Irmãos. Observem que o Senhor Jesus conclui a parábola dos lavradores maus, citando uma outra parábola: a parábola da pedra que os construtores rejeitaram (10,11). Jesus cita um trecho do Salmo 118 que era um salmo que falava do Messias e era cantado na festa da páscoa pelos judeus. Os líderes religiosos conheciam bem estas palavras. E Jesus falou estas palavras contra eles. O Senhor está dizendo a eles: “Vocês rejeitaram aquele que o Pai escolheu para ser o Salvador”. Por causa da incredulidade deles, Jesus foi para eles pedra de tropeço e não a pedra angular em quem eles estariam seguros e salvos.

Como aqueles líderes judeus reagiram às palavras de Jesus? Eles até entenderam a mensagem de JESUS, mas isto não os levou ao arrependimento; eles continuaram com seus corações endurecidos e rebeldes contra o filho de DEUS. Isso os leva a querer prender JESUS para matá-lo; mas eles não fazem naquele momento, por temerem o povo. No entanto, eles deixam o Senhor e se retiram para tramarem a Sua morte. Isso nos faz lembrar da profecia do Salmo 2 que é também um Salmo messiânico. A atitude dos principais líderes contra JESUS é evidente neste Salmo (ler Sl 2.1-2). Eles conspiraram contra o Ungido de DEUS, quando deveriam reverenciá-lo, amá-lo e submeter-se à Sua autoridade que fora dada pelo Pai (ler Sl 2.6-8). Eles não beijaram o Filho, por isso pereceram no caminho (foram responsáveis por seus atos cruéis), pois a ira do Senhor se acendeu contra eles (Sl 2.12). Assim também, a ira de DEUS se acenderá contra aqueles que permanecem rebeldes contra Seu Filho; que O desprezam, que O rejeitam, O desrespeitam, que não demonstram amor por Ele, por Sua palavra e por Sua igreja. “O que se mantém rebelde contra o Filho, sobre eles permanece a ira de DEUS (João 3.36)”.

E quanto a nós, irmãos? Também entendemos a mensagem de Cristo no nosso texto? Ele nos ensina que é o filho amado de Deus que foi morto para nos salvar. Qual deve ser a nossa atitude diante daquele que tanto nos amou e deu a sua vida por nós? Devemos confiar no Senhor Jesus, respeitá-Lo e reconhecê-lo como o único Filho de DEUS, isto é, amá-lo de todo o coração. “Beijem o filho” (Sl 2.12), ou seja, amem sinceramente o Senhor; não como Judas que o beijou hipocritamente como sinal de traição. Ao contrário dele, amemos verdadeiramente o Filho, pois Ele próprio diz: “Quem me ama será amado por meu Pai” (João 14.21); “Eu amo os que me amam e todos os que me procuram me acham” (Pv 8.17). Essa é a promessa do Senhor para nós: “Bem aventurados todos os que nele se refugiam” (Salmo 2.12). Em Cristo, o Filho amado de Deus, temos refúgio, esperança, consolo, paz e salvação, pois Ele é o nosso único fundamento na vida e na morte. Firmados Nele, que é nossa Rocha e Pedra angular, jamais seremos abalados. Amém.

 

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Elissandro Rabêlo

Pastor na Igreja Reformada em Cabo Frio - RJ.

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