Sermão preparado pelo pastor Jim Witteveen
Leitura: Lucas 03:21-38
Texto: Lucas 03:21-38

Amada Congregação de Nosso Senhor Jesus Cristo,

Na vida humana, existem constantes – realidades sempre presentes que afetam todos. Essas realidades são coisas que ninguém pode escapar. Eu não sei se existe essa expressão em Português, mas em Inglês temos uma expressão que diz que não há nada certo aparte da morte e os impostos. E há uma música popular de quarenta anos atras, que diz que há três coisas certas – os impostos, a morte, e problemas. Mas existe mais um constante – ou talvez pode pensar nisso como subgrupo de “problemas” – e isso é a tentação.

Cada ser humano ao longo da história tem sido tentado a pecar. A tentação é uma realidade viva nas vidas de todos nós. É nossa luta maior. É uma luta que pode levar pessoas a duvidar a sua fé. Pode levar pessoas a desespero. É um dos aspetos mais negativos dessa vida mortal, vida no mundo caído. Nos leva a ansiar pelo dia quando pecado não vai nos tentar não mais. Mas entretanto, temos a luta – para ficar forte na face de tentação.

Então, como podemos fazer isso? Como podemos ficar fortes? Como podemos lutar contra tentação? Como podemos evitar as armadilhas do diabo?

A história da tentação do Senhor Jesus no deserto, depois de seu batismo, imediatamente antes do começo do ministério público, nos mostra que Ele também foi tentado. E a tentação de Jesus, e o que aquela tentação significou, e a maneira em que Ele enfrentou aquela tentação, é muito importante para nós, enquanto nós estamos lutando contra tentação. Lemos em Hebreus 2:18, “Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados.” E em Hebreus 4:15, aprendemos que, “não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado.”

E quando lemos essa passagem no contexto do evangelho de Lucas, podemos aprender muito sobre o significado desta tentação para Jesus, e para Seu povo. Podemos começar com a história breve do batismo de Jesus no rio Jordão, por João. Jesus não precisou ser batizado com o batismo de arrependimento pelo perdão dos pecados, porque Ele não tinha nada de arrepender. Ele nunca cometeu pecados que precisaram ser perdoados. Podemos ler a resposta de João a Jesus quando Jesus veio para ser batizado em Mateus 3:14 – “Ele, porém, o dissuadia, dizendo: Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”

Mas havia mais uma razão por que Jesus mesmo veio para ser batizado. Em primeiro lugar, o batismo de Jesus foi o comissionamento, pode dizer, no seu ministério público. Quando Ele foi batizado, Deus Pai atestou que Jesus era Seu Filho, dizendo: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo.” João viu o Espírito Santo descendendo na forma de uma pomba. Isso foi confirmação por João, o precursor, que estava preparando o caminho para o Messias, que Jesus realmente foi aquele para quem ele estava preparando o caminho.

Mas se Jesus não foi batizado por causa de pecado, porque Ele não tinha pecado, por que Ele foi batizado? João queria prevenir o batismo, mas a resposta de Jesus foi clara: “Deixa por enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça” (Mateus 3:15). Lembre-se o batismo de João – o povo de Israel saiu de Israel, viajou no deserto, e passou pelas águas do rio Jordão. Em seguida, eles reentraram a terra prometida como o povo de Deus purificado, e arrependido. Eles estavam sendo reformados como o povo de Deus, em preparação para a vinda do Messias.

Agora o próprio Messias foi batizado, em união com aquele povo. Ele é a única pessoa que não precisou ser purificada do pecado. Mas Ele mostrou solidariedade, uma ligação, com aqueles que foram batizados. Ele era unido com eles. Ele se tornou participante com eles. A vida, o ministério, tudo que aconteceria nos últimos três anos da Sua encarnação, tudo foi feito para o bem daqueles com quem Ele era unido. E agora, todos que crêem nEle são unidos com Ele, em tudo o que Ele fez.

Paulo escreveu, em Romanos 6:4:

“Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.”

E em Colossenses 2:12, Paulo escreveu sobre o batismo na mesma maneira:

“Tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos.”

Então, isso tem significado para a tentação de Jesus no deserto. Ele foi batizado. Ele se identificou com o Seu povo. E imediatamente Ele saiu no deserto, onde Ele ficou por 40 dias – como representante desse povo. Ele enfrentou aquelas tentações em união com seus irmãos. Quando Paulo escreveu em 1 Coríntios 10:13, “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana,” ele incluiu o Senhor Jesus nisso. Ele resistiu as mentiras do Diabo, como nosso representante, como nosso cabeça.

Mas há mais uma coisa sobre o batismo de Jesus que tem importância para as tentações que se seguiriam. Isso é a descida do Espírito Santo nEle. Os falsos mestres na igreja antiga argumentavam, e algumas hereges ainda argumentam hoje em dia, que naquele momento, Jesus se tornou o filho de Deus. Essa idéia é completamente errada. Ele era o Filho de Deus eternamente, Ele nunca se tornou o Filho de Deus em nenhum ponto no tempo. Mas esse foi o momento quando Ele foi ungido pelo Pai, com o Espírito Santo, ungido e preparado por seu ministério público. Os profetas, os sacerdotes e os reis foram ungidos com óleo, que simboliza a obra capacitando do Espírito nos seus ministérios. O batismo de Jesus foi acompanhado por aquela unção com o Espírito – e foi no poder do Espirito que o Senhor Jesus realizaria sua própria obra.

Em capítulo 4:1, lemos, “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e foi guiado pelo mesmo Espírito, no deserto.” No fim dessa passagem, lemos uma frase paralela, em versículo 14: “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança.” Esses versículos nos mostram a importância da presença do Espírito na tentação de Jesus. No evangelho de Marcos, lemos que o Espírito impeliu Jesus para o deserto. Mas Lucas nos diz que o Espírito não somente impeliu Jesus para o deserto, Ele também guiou Jesus ao longo dos quarenta dias.

O Espírito acompanhou Jesus antes, durante, e depois da sua tentação. Foi no poder do Espírito que Jesus poderia suportar aquela tentação. Isso diz algo muito importante sobre como nós devemos enfrentar a tentação na nossa própria vida. É somente no poder do Espirito que podemos evitar cair, que podemos ficar firmes contra as flechas do diabo. Não podemos fazer isso sozinhos. Precisamos do Espírito, completamente, absolutamente, desesperadamente. Sem o Espírito, somos presa fácil na nossa batalha pessoal contra o Maligno, e o mal que nos tenta.

Mas o batismo de Jesus não é o único aspecto importante quando pensamos na sua tentação – é também a genealogia que segue – a árvore genealógica. Essa genealogia é diferente da outra no começo do evangelho de Mateus. Primeiramente, é a genealogia de José, não de Maria. Jesus era, “como se cuidava,” filho de José (3:23), e temos aqui o outro lado da árvore genealógica de Jesus.

A segunda diferença nesta genealogia é que essa genealogia vem para trás ao longo da história. Não termina com Abraão, como a genealogia de Mateus – vem atrás a Adão, o filho de Deus. Jesus era o filho de Davi – o rei do tribo de Judá. Ele era descendente de Abraão, Isaque, e Jacó, através de quem todas as nações do mundo seriam abençoadas. E Ele é o filho de Adão, o filho de Deus.

Não é somente a história de Israel que Ele realizou. Ele é o representante de Israel, o Israel fiel e verdadeiro. Mas Ele é também o representante da humanidade – o segundo Adão. As bênçãos que Ele levaria nunca seriam limitadas aos descendentes de Abraão. Todos unidos com o primeiro Adão morrem. Mas todos unidos com o segundo Adão são feitos vivos.

Então, a genealogia em Lucas 3 é importante para nós quando pensamos na tentação de Jesus também. Jesus estava tentado com fome – os desejos do corpo, da carne. Ele estava tentando com os desejos dos olhos, quando o diabo lhe mostrou todos os reinos do mundo, e os prometeu a Jesus, se Jesus só adoraria ele. E Jesus estava tentado pela manipulação das palavras de Deus, quando Satanás citou as Escrituras para tentar Jesus a se atirar do pináculo do templo abaixo para demonstrar que Ele realmente era o Filho de Deus.

Adão e Eva caíram por essas decepções. Eles viram que o fruto da árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento. Então, eles ouviram às mentiras de satanás e sua torção da palavra de Deus, e comeram, e caíram. Adão ouviu a palavra de Deus. Mas ele não protegeu Eva da tentação do serpente, e em vez disso ele mesmo comeu do fruto proibido.

Mas Jesus, o segundo Adão, o Filho de Deus, não caiu na mesma armadilha.

Ao invés disso, Ele ficou firme, no poder do Espírito, como já vimos, ficando no fundamento da Palavra de Deus. Em resposta a cada tentação, o Senhor Jesus utilizou as Escrituras – especificamente citações do livro de Deuteronômio. O enganador torceu a Escritura. Ele abusou a Palavra de Deus para os seus próprios propósitos. Mas o Salvador, no poder do Espírito, mostrou verdadeiro discernimento, verdadeiro entendimento. Ele descansou na Palavra de Deus, a inabalável, inatacável palavra da verdade, e no Espírito, trabalhando com aquela Palavra. Ele venceu o maligno. Ele não estava abalado.

É verdade, Ele foi tentado, mesmo como nós somos tentados – e as tentações que Ele enfrentou foram as mesmas tentações que nós enfrentamos cada dia. Existem tentações que atraem nossa carne, nosso desejo para satisfazer nossos desejos físicos. Nós caímos nessa área quando não lembramos que existe algo muito mais importante do que nossas ‘necessidades’ físicas, e que não é só de pão em que vivamos, mas por cada palavra que procede da boca do SENHOR.

Existem tentações que atraem nosso desejo de poder e controle – quando o diabo mente a nós, e nos diz que os reinos desse mundo podem ser nossos, como se ele tivesse controle sobre eles. Essas são as tentações que nos levar a tentar assentar no trono, esquecendo que o Senhor nosso Deus, e somente Ele, é Ele que devemos servir. E também existem tentações que vêm através de falta de compreensão da Palavra de Deus – e podemos ver aquelas tentações nos ensinamentos falsos que se tornam tão populares, porque muitas pessoas faltam entendimento do significado verdadeiro das Escrituras.

Isso é o segundo aspecto vital em nossa própria batalha contra tentação. Nós já vimos que precisamos do poder do Espírito Santo para ficar firmes contra a tentação. Agora entendemos que também precisamos da Palavra de Deus para ficar firmes contra aquela tentação. A Palavra é a espada do Espírito (Efésios 6:17), e para vencer essa batalha, precisamos dessa arma indispensável. Aquela arma deve ser usada!

Não vai no campo de batalha sem conhecimento da sua arma, sem treinamento no uso da arma, como deve usar aquela arma. E também, não vai a batalha sem arma. Não toma uma faca para um tiroteio – isso seria absurdo. Na mesma maneira, na batalha contra Satanás, não luta com sua sabedoria pessoal, seus pensamentos pessoais, seu discernimento pessoal. O Senhor Jesus corretamente usou as Escrituras para vencer o maligno; se você não imita Jesus, uma coisa é certo: você vai falhar.

A Palavra de Deus é a fonte de sabedoria verdadeira. A Palavra de Deus revela e remova a máscara do mundo. A Palavra de Deus nos mostra a verdade – a verdade difícil, a verdade dolorosa, a verdade que o maligno quer que nós esquecermos.

É o Espírito Santo e a Palavra que nos impedem de errar. Devemos ser pessoas que não abusam a Palavra ou pessoas que neglicenciam a Palavra. Sem a Palavra de Deus, somos perdidos.

Mas finalmente, a vitória de Jesus sobre as tentações de satanás no deserto não é somente um exemplo para nós. A vitória dEle é a única coisa que faz a nossa vitória possível. Como o Filho de Deus obediente, Ele enfrentou as flechas do Maligno como nosso representante – como aquele que se identificou com o Seu povo no Seu batismo, como o último Adão. Adão era desobediente, Israel era desobediente, mas o Filho de Deus, o verdadeiro Israel, O Servo de Deus, o Segundo Adão, fez para nós o que Adão e Israel não faziam, e não poderiam fazer.

Somente porque Ele aguentou aquelas tentações Ele poderia ir à cruz como o cordeiro de Deus sem mancha e tirar o pecado do mundo. Somente em união com Ele, na sua obediência, nós podemos ser obedientes. A vitória de Jesus na luta contra satanás é nossa vitória. Ele venceu o maligno, naquelas tentações, e ao longo do seu ministério. E agora, unidos com Ele, podemos combater o bom combate da fé. Podemos saber que as palavras do apóstolo Paulo em Romanos 16 são verdades, e são verdades para nós:

“E o Deus da paz, em breve, esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás.”

Não em nossa força. Não em nosso poder. Mas em união com Cristo, o nosso Salvador, no poder do Espírito Santo, ficando no fundamento firme da Palavra de Deus.

Todos nós lutamos contra tentação. A vida Cristã não é simples, porque essa vida exige que nós participarmos com todo o coração nessa batalha ao longo da nossa vida. A tentação é a realidade para todos nós. Mas a diferença entre nós cristãos e o mundo descrente é que nós sabemos que precisamos lutar, e nós sabemos a arma que precisamos usar para vencer a batalha.

Se sua tentação é desistir, lembre-se: Cristo já venceu! Satanás vai nos tentar. Ele vai dizer a nós que não podemos vencer, que já perdemos, que não há sentido lutar. Ele é mentiroso e enganador. Podemos ver isso claramente no nosso texto. Ele vai dizer a você que não pode fazer nada. Mas em Cristo, podemos, e devemos: a Palavra de Deus nos diz isso, e como Jesus, precisamos ficar firmes no fundamento dessa verdade contra essas mentiras horríveis.

Naquela batalha, quando Satanás o acusa, lembre-se Colossenses 3:1-3:

“Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus.”

Lembre-se Romanos 6:1,2:

“Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?”

Lembre-se 1 Pedro 2:24,25:

“Ele mesmo carregou em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados. Porque estáveis desgarrados como ovelhas; agora, porém, vos convertestes ao Pastor e Bispo da vossa alma.”

E finalmente, lembre-se Romanos 8:38,39:

“Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.”

Lembre-se que o Senhor Jesus venceu. Em união com Ele, através de fé, nós também somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Jim Witteveen

Pastor missionário das igrejas reformadas do Brasil e diretor do Instituo João Calvino.