Sermão preparado pelo pastor Iraldo Luna
Leitura: Hebreus 12.05-11
Texto: Isaías 01.01-09

Meus irmãos,

Neste mês de agosto, na cidade de Campo Grande – MS, foi veiculada uma notícia de que um homem de 55 anos agrediu brutalmente o seu próprio pai, um agricultor de 72 anos, com vários socos e chutes e por fim com um golpe de foice. Toda essa brutalidade aconteceu porque o seu pai lhe negou dinheiro para que ele pudesse comprar bebida.

Ouvindo isso, certamente, todos nós nos perguntamos: como pôde acontecer esse crueldade de um filho contra o próprio pai? O que pode levar um filho a desconhecer o seu próprio pai simplesmente por causa de uma garrafa de bebida? Os tantos pratos de comida vindos de mãos encaliçadas pelo trabalho na roça não foram suficientes para superar o desejo de tomar bebida alcoólica? Meus irmãos, não temos como dar outra explicação para tanta revolta a não ser a de que o mal que reside em nós é suficientemente capaz de fazer coisas tão cruéis que nós nem imaginamos o que ele pode fazer por meio dos nossos corpos, até mesmo levar um filho a voltar-se contra o seu pai.

O texto diante de nós é um pequeno retrato disso; só que não de um filho para com um pai mas da igreja contra o seu Senhor. O livro de Isaías é um registro de profecias que foram anunciadas em dias nos quais o povo de Deus precisa ouvir mensagens que chamassem a atenção do povo para que voltasse ao seu Deus.

E o capítulo 1 funciona como uma introdução ao livro. Não foi o primeiro sermão do profeta, mas possivelmente foi proferido já no final do seu ministério. E, sem dúvida, não é sem propósito que foi colocado aqui. Ele começa por tocar num ponto que, na história desse relacionamento entre Deus e o seu povo, sempre minou as bases dessa união: a apostasia.

Esta porção que lemos mostra como o perigo da apostasia é real na vida da igreja. Não é difícil de ver pessoas que abandonam a sua fé em Deus e viram as costas para ele; seja por causa de dinheiro, seja por causa de fama, seja por causa de poder. A verdade é que o nosso pecado é um inimigo que tenta nos separar de Deus a todo custo. O servo de Deus é sempre tentado a deixar a sua fé para se entregar aos seus pecados.

Neste texto, veremos como Deus age em favor do seu para que a apostasia não tome conta de nós. Veremos aqui que é do desejo de Deus ter o seu povo como seus filhos da aliança da promessa, e, por isso, ele acusa o seu pecado, disciplina-o como um pai e permanece fiel à sua palavra.

1. o Senhor acusa o pecado do seu povo
Deus não permite que seu povo continue em pecado sem o exortar e revelar o seu pecado. Por isso, Deus faz uma acusação séria. Nós não sabemos exatamente em que momento esses pecados estavam sendo cometidos, nem sabemos que pecados exatamente eram esses, mas só sabemos que isso era grave aos olhos de Deus.

Como sabemos do verso 1, acusação é contra o povo de Deus, contra a igreja do Antigo Testamento. Jerusalém era o centro religioso e para onde os verdadeiros israelitas iam para cultuar a Deus no seu santo templo no monte Sião. Então, a acusação atacou o centro, o coração, do relacionamento pactual entre Deus e a sua igreja. Assim, não era contra qualquer nação que Deus estava se levantando, mas contra o seu povo.

Por isso, ele chama os céus e terra como testemunhas (v.2), para demonstrar a gravidade da situação. No livro de Deuteronômio, os céus e a terra são pronunciados como testemunhas das sanções da aliança, e normalmente, apareciam quando o povo estava demonstrando rebeldia. Moisés diz (Dt. 4:26): “Tomo por testemunhas contra vós outros o céu e a terra”, e, em Dt. 32:1, encerra o livro, antes de sua morte, com um cântico que inicia com “Inclinai os ouvidos, ó céus, e falarei; e ouça a terra as palavras da minha boca.” E neste cântico, lembrar os israelitas quem é o seu Deus.

É o que Isaías está fazendo aqui. A acusação vem como lembrança do relacionamento pactual. E a primeira coisa que o Senhor destaca na acusação é que o seu povo estava vivendo como filhos revoltados. A imagem aqui é de uma pai que fez tudo para criar o seu filho, que o alimentou, o protegeu, e fez dele gente, dando tudo que ele precisava, mas o que recebe em troca é revolta, como aquele filho que espancou o seu pai por dinheiro. Não foi uma simples desobediência, mas um ato de rebelião contra o seu progenitor, seu pai.

A palavra que o Senhor usa aqui é a mesma palavra para rebelião, ou uma transgressão intencional contra Deus. É desobedecer deliberadamente como uma rebelião, ou seja, uma ofensa. E perceba aqui o contraste. O tratamento que o Senhor deu ao seu povo foi de filhos. Ele os chama de filhos, os quais criou e exaltou. Ele, o Senhor, adotou esse povo como seus filhos. Não tinham nada de bom, viveram como escravos, sem qualquer perspectiva de vida. Mas o Senhor os tirou dessa condição e os fez crescer como um povo, como uma nação; os exaltou diante dos seus inimigos e os chamou de filhos.

Mas o que recebeu de seus filhos? Revolta contra o seu pai de um modo que nem os animais fariam. É que nos diz o verso 3. O Senhor diz que este ato de rebelião não vemos nem mesmo entre os animais. Um animal sabe quem o alimenta. Por mais feroz e agressivo que seja, ele reconhece o seu criador. Ele sabe distinguir entre quem leva a sua comida todos os dias e quem é o visitante. Quem tem animais em casa sabe o que é isso. Mas nem mesmo os filhos de Deus estavam sabendo fazer essa distinção. O boi e o jumento eram mais sábios do que eles. Que contraste! irmãos: um pai, que chama o seu povo de filhos, tratado pior que um jumento trata o seu dono. Na verdade, que tristeza!

Por isso, o Senhor qualifica o seu povo do modo como faz no verso 4. Primeiro, chama de nação pecaminosa. Esta palavra para “nação” era um termo normalmente usado para os pagãos, para os povos que nem conheciam ao Senhor. E podemos entender assim principalmente por causa da palavra que vem depois “pecaminosa”. Ela descreve a situação como se Deus não tivesse reconhecendo o seu povo, pelo que ele estava fazendo.

E acrescenta que estavam carregados de iniquidade (v.4). A iniquidade deles era tanta que chegava a estar pesada, eles estavam sobrecarregados. Viviam como uma raça de malignos e filhos de corruptores. É uma acusação séria porque as expressões “raça de malignos” e “filhos de corruptores” descrevem como se eles tivessem sua origem em homens malignos e corruptos. Literalmente é “descendentes dos que fazem o mal” e “filhos dos que agem corruptamente”.

É uma acusação forte porque o Senhor os tinha chamado de filhos criados por ele, mas agora os chama de descendentes e filhos de maus e corruptos, que blasfemaram, rejeitaram com desprezo e escárnio o Santo de Israel. Era um nome de Deus usado para expressar a santidade de Deus em meio ao seu povo. Enquanto o povo de Deus vivia como o lixo das nações, Deus era o seu santo Deus, o Santo de Israel, a quem eles tinham abandonado e virado as costas. Era um pecado de abandono, era uma apostasia.

O verso 4, então, termina a acusação de Deus como uma expressão de Deus de completa insatisfação em relação ao comportamento do seu povo. Deus reprova o seu povo com essas sérias acusações.

Mas, podemos nos perguntar, por que o Senhor faz acusações tão sérias ao seu povo? Por que tanta acusação? A verdade que não parece que o Senhor estava apenas envergonhar o seu povo com todos esses nomes e adjetivos. Nem parece que o Senhor apenas queria demonstrar a sua insatisfação, a sua indignação por causa dos pecados. A forma como o Senhor fala ao seu povo aqui é para demonstrar que Ele quer que apenas o reconhecimento de quem ele é para eles.

Deus chama os céus e a terra como testemunhas de tudo o que ele havia feito por Israel, a quem Deus criou como filhos, ao mesmo tempo se chama Senhor, o Deus da aliança, o Santo de Israel, o Deus que é santo para o seu povo, seu Deus. Tudo isso para mostrar que ele quer que os seus filhos parem de agir como estavam agindo e o reconheça como pai, e por isso ele acusa a sua apostasia.

2. Deus disciplina o seu povo por causa dos seus pecados

Ele também o disciplina. Os versos 5-8 mostram que Israel estava recebendo castigo. O verso 5 mostra claramente que eles estavam sofrendo açoites por causa de sua rebeldia.

A primeira imagem aqui é a de alguém ferido e doente, mas não por uma causa natural. A expressão “haveis de ser ferido” se refere a alguém que estava sendo ferido por outro, ou seja, castigado. A enfermidade na cabeça e no coração representa a inteireza da enfermidade. Todo o corpo estava afetado, sofrendo; com chagas e feridas inflamadas; ferimentos abertos, como se não estivessem recebendo os devidos cuidados (ler verso 6). É a imagem de alguém que sofrendo açoites, com feridas abertas e não tratadas. São as punições de Deus.

Deus está disciplinando o seu povo por causa da sua apostasia. Israel se esqueceu de Deus, virou as costas para ele e, por isso, está apanhando de Deus. Está com o corpo mole de tanto receber chicotadas, com feridas sem qualquer tratamento.

O texto revela que o povo tinha recentemente passado por alguma invasão de outro, pois, no verso 7-8, vemos o profeta descrevendo as cidades como devastadas, como ele, diz: “consumidas pelo fogo, estranhos devorando a lavoura e devastando a terra”. Isso é um sinal de invasão estrangeira. Durante o ministério de Isaías, Judá havia sofrido várias invasões. Então, o Senhor toma uma dessas invasões como uma amostra de que ele estava chicoteando o seu próprio povo.

Deus agora vai um passo além. Ele não apenas revela os pecados do seu povo e o acusa de apostasia e rebelião, mas toma a vara e bate. Lembre-se que ele quer o reconhecimento de que ele é pai. O povo não estava reconhecendo isso. Mas o Senhor os chama a atenção e disciplina-os. É isso que um pai faz com um filho rebelde, disciplina-o.

O castigo de Deus não era apenas uma punição pela desobediência aos termos da aliança, mas a ação de um pai que ama o seu filho e quer a restauração dele. O bastão de Deus aqui sobre o seu povo é o bastão de amor. Ele quer que o seu povo veja o seu pecado e se arrependa. Ele não quer bater por bater. O próprio Deus pergunta (v.5): “Por que haveis ainda de ser feridos?”. Não era necessário ficar apanhando. Ele não queria bater, mas fazia isso por amor, porque queria restaurar os seus filhos.

É o que a carta aos Hebreus nos ensina no capítulo 12:5-11. É assim que devemos enxergar o peso da mão de Deus. Deus pesa a mão sobre seus filhos não para machucá-los, mas para sará-los. As feridas das chicotadas de Deus em nós nos causam tristeza mas são para o fruto da justiça. Deus não abandona os seus filhos em seus pecados, mas os disciplina para trazê-los de volta.

É assim como devemos enxergar a disciplina de Deus, e é assim que devemos usá-la. Porque amamos os nossos filhos, nós os disciplinamos, ainda que cause sofrimento. Porque amamos nossos irmãos na fé, nós também os disciplinamos, ainda que traga desconforto entre nós. Assim também, porque Deus nos ama como seus filhos, ele pesa a sua mão sobre nós.

Por isso, veja os dias de sofrimento e angústia como dias em que você deve ouvir a vós de Deus, porque talvez seja Deus querendo alertar você por causa de seus pecados. É assim também que os que estão sob disciplina devem enxergar a disciplina, como um ato de amor pela sua alma, para que você se arrependa, deixe o seu pecado e volte-se para Deus.

3. Deus acusa o pecado e disciplina o seu povo porque é fiel à aliança

Veja o verso 9. Meus irmãos, o que o povo merecia era a punição eterna, a punição mais severa para quem sabe o que é a verdade e mesmo assim age contra ela. Um filho que conhece o pai, sabe quem o criou e faz o que faz, desconhece-o e vira as costas para ele, merece o castigo reservado para os mais perversos. Mas Deus não fez isso. E ele não fez isso não porque tinham algum crédito ou mérito com ele, mas porque ele é fiel à sua palavra da aliança que diz que Ele seria o nosso Deus.

Ele quer o seu povo. Ele o envergonha e o disciplina porque tem misericórdia dos seus filhos, e essa é a base da sua aliança, a misericórdia de Deus. Vejam como são os filhos de Deus, tão fracos que não conseguem ficar de pé; prostrado e curvado diante do pecado, mais irracionais que os próprios animais; mas Deus retém a sua mão para não exterminá-lo porque se compadece do seu povo.

Sodoma e Gomorra foram destruídos. Se perderam no espaço e no tempo. Foram exterminados pelo fogo. Ficaram em pó e cinza, mas o povo de Deus não é Sodoma e Gomorra, é o povo que recebeu misericórdia do Senhor e a promessa de que Deus seria o seu Deus para todo o sempre. E Deus é fiel à sua palavra. Veja que as palavras “não nos tivesse deixado” revelam essa misericórdia do Senhor em não dar ao povo o que ele merecia e suster a sua mão para não exterminar.

Deus não abandona os seus filhos por amor do seu nome. Se ele prometeu, ele fará, e fará com misericórdia. Essa é a promessa de Deus. Em Ez. 20:43-44, o Senhor disse ao povo quando estava para restaurar a casa de Israel na terra: “Ali vos lembrareis dos vossos caminhos e de todos os vossos feitos com que vos contaminastes e tereis nojo de vós mesmos, por todas as vossas iniquidades que tendes cometido. Sabereis que eu sou o Senhor, quando eu proceder para convosco por amor do meu nome, não segundo os vossos maus caminhos, nem segundo os vossos feitos corruptos, ó casa de Israel, diz o Senhor Deus. Quem é Deus assim como o nosso Deus, que cumpre a sua palavra por amor ao seu nome; e por amor do seu nome, não porque Deus ama apenas assim mesmo, mas porque ele prometeu misericórdia e amor incondicional para os seus filhos e não voltarás mais atrás.

Paulo expressa isso em Rm. 9:27-29, quando cita essa profecia de Isaías para dizer que o Senhor trouxe os gentios mas salvaria também entre os filhos de Israel por causa da sua promessa (ler o texto). Mas como ele faria isso? Não por meio dos nossos próprios esforços, mas pela fé em Cristo, o cumprimento da promessa.

Ele livra, ainda que seja, uma pequena parte, mas ele livra o seu povo de uma destruição completa. Por isso, ele salva o seu povo dos seus pecados. Ele apaga as suas transgressões de diante dele. Foi isso o que o anjo anunciou a José (Mt. 1:21): “Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles.

Esse foi o cumprimento da promessa de Deus de exercer misericórdia e perdoar os pecados dos seus filhos em Cristo. Veja o que mostra a genealogia acima (Mt. 1:1-16). Cada reinado, cada geração, recebeu as promessas de Deus e o seu cumprimento. Recebeu a misericórdia e o perdão. Deus não permitiu que o seu povo se acabasse. A promessa feita a Abraão foi cumprida, mas em Cristo; e não poderia ser diferente, pois é em Cristo que o Senhor revela a sua misericórdia e garante perdão.

Meus irmãos, esse é o nosso Deus, que nos trata como filhos mesmo quando nos comportamos como filhos da desobediência, corruptores e malvado, quando damos as costas para ele por causa dos nossos pecados. Ele acusa os nosso pecados, nos disciplina, mas faz isso por amor, porque prometeu por amor que seria o nosso Deus e não permitira que isso se acabasse.

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Iraldo Luna

Pastor na Igreja Reformada em Brasília.