Sermão preparado pelo pastor Jim Witteveen
Leitura: Hebreus 10.01-39
Texto: Hebreus 10.39

Amada Congregação do Nosso Senhor Jesus Cristo:

O capítulo que nós lemos esta noite inclui um dos avisos mais fortes em toda a Escritura. Se há uma passagem na Bíblia que foi destinada a assustar todos que a lêem, é Hebreus 10.26-31:

“Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários. Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça? Ora, nós conhecemos aquele que disse: A mim pertence a vinganca; eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.”

Há um número de frases difíceis aqui, e quando lemos todas essas frases, elas criam uma imagem poderosa do destino daqueles que rejeitam a graça de Deus:

“Certa expectação horrível de juízo”

“Fogo vingador prestes a consumir os adversários”

“Morrendo sem misericórdia”

Aqueles que rejeitam a verdade e abraçam a mentira são descritos como calcando aos pés o filho de Deus, profanando o sangue da aliança, ultrajando o Espírito da graça.

E o que é que o SENHOR diz? A mim pertence a vinganca. Eu retribuirei.

E finalmente, uma das frases mais conhecidas em toda a Escritura: “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.”

Não há dúvida sobre isso, irmãos, estas palavras são destinadas a colocar o medo em nosso coração. Mas estas palavras não são destinadas a inspirar um medo sem esperança. Elas não são destinadas a incutir em nós o tipo de terror que nos faria fugir daquele que inspiraria tal medo. Mas um medo saudável – o respeito, o temor do Senhor que é o início de sabedoria, da verdadeira compreensão sobre o modo como o nosso Deus opera, e exatamente quem é o nosso Deus.

Deus não é um brinquedo. Deus não deve ser menosprezado. Deus não será escarnecido. Devemos levar a sério a Ele e a Suas demandas, e devemos pensar em Deus em termos de todos os Seus atributos. Em Hebreus 6.4-9, vemos a mesma mensagem. Então, nestes versículos em Hebreus 10, o autor não está dizendo algo novo – ele simplesmente está reiterando o que já havia dito quando estava apresentando uma série de argumentos para a supremacia do Senhor Jesus Cristo. Ele havia dito isso:

“É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivado recebe benção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada” (Hebreus 6.4-8).

Pode ver os paralelos entre essas passagens claramente se você ler elas juntas. São avisos para o povo da aliança de Deus, para o povo da promessa. Estes são avisos para nós. Estas são advertências que Deus nos dá, em Seu esmagador amor por nós, advertências que visam nos manter no caminho certo, avisos que pretendem nos desencorajar a deixar o caminho da fé no Senhor Jesus Cristo. Esses avisos são como um par de suportes de livros que cercam a glorificação de nosso Salvador e Sua obra nos capítulos 7 a 9. A forma é assim:

Primeiro, temos uma séria advertência contra afastamento de Deus. Depois recebemos a razão pela qual precisamos perseverar na fé – porque não há outro caminho para a salvação, porque não há ninguém e nada além do Senhor Jesus Cristo que possa nos dar a vida e a esperança. E finalmente temos um aviso final – um aviso que se baseia no primeiro aviso, e o torna ainda mais forte. Mas veja só: o aviso leva a algo. O autor não termina com um aviso; ele não nos impressiona com terror e nos deixa lá. Ele não faz isso em Hebreus 6, e ele não faz isso aqui em Hebreus 10. Em Hebreus 6, seguindo este aviso contra o perigo de ser terra inútil que produz apenas espinhos e cardos, e depois ser amaldiçoado e queimado, o autor diz isto (em 6.9): “Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta maneira.”

E mais uma vez, aqui em Hebreus 10, a mensagem de Hebreus 6 é reiterada e fortalecida. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. É verdade, e como vimos em Hebreus 6, não é apenas algo que apenas podemos admitir, ou algo que reconhecemos mas evitamos falar, mas é algo que deve nos levar a louvar a Deus ainda mais.

Deus é juiz justo. Ele punirá aqueles que não O servem, e essa punição será uma punição perfeita dada pelo Deus perfeito que não é apenas definido por Seu amor, mas o Deus perfeito que também é definido por Sua ira. Este mundo está cheio de injustiça. Nesta vida, os ímpios muitas vezes prosperam, os justos frequentemente sofrem nas mãos dos ímpios, os rebeldes lutam contra Deus e zombam de Seus filhos, mas podemos nos regozijar na ira de Deus, porque significa que o que é certo prevalecerá.

É uma coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo. Essas palavras devem nos deixar de joelhos e devem nos conduzir, não para longe de Deus, mas para nos aproximar a Ele.

Mas você pode perguntar: como pode dizer que essas palavras devem nos levar a Ele? Quando somos ameaçados de julgamento, quando somos informados da ira de Deus, quando somos levados a temer e a tremer, como poderíamos e por que deveríamos ser guiados para Aquele que tememos? Qual é o sentido disso?

A fim de entender essa verdade, precisamos olhar para o exemplo de Davi em 2 Samuel 24.14, porque estas palavras, “É uma coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo,” são um reflexo direto de um evento muito importante na vida do rei Davi. No final do seu reinado, Davi decidiu fazer um recenseamento do povo. Ele queria saber o quão bom ele era. Ele queria saber quão grande e vasto era o seu reino. E por esse ato de orgulho, Davi enfrentaria a ira de Deus. Deus enviou seu profeta Gade a Davi e disse a Gade que dissesse isto:

“Assim diz o Senhor: Três coisas te ofereço; escolhe uma delas, para que tá faça. Veio, pois, Gade a Davi e lho fez saber, dizendo: Queres que sete anos de fome te venham à tua terra? Ou que, por três meses, fujas diante de teus inimigos, e eles te persigam? Ou que, por três dias, haja peste na tua terra? Delibera, agora, e vê que resposta hei de dar ao que me enviou. Então, disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do Senhor, porque muitas são as suas misericórdias; mas, nas mãos dos homens, não caia eu.”

É uma coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo. Mas Davi escolheu isso como sua única alternativa real. Por quê? Porque a sua misericórdia é grande. Pode ser que tenha medo de cair nas mãos do Deus vivo quando esse Deus está com raiva contigo, mas não há lugar de segurança, não há refúgio, não há esperança, fora dos braços do Bom Pastor:

“Como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos e os levará no seio; as que amamentam ele guiará mansamente” (Isaías 40.11).

Irmãos, tudo o que temos lido até agora na carta aos Hebreus serve para nos inspirar. É destinado a mostrar a glória de Cristo, revelar a Sua majestade, proclamar a Sua absoluta superioridade. É para nos levar a Ele, para nos encorajar a segui-Lo, para nos inspirar à obediência e fidelidade maiores, para nos impedir de seguir nosso próprio caminho, ao invés de seguir Aquele que disse que Ele é o Caminho.

E por isso não terminamos com as palavras, “Se a terra produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição.” Por isso não terminamos com as palavras: “É uma coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo.”

Porque o autor da Escritura inspirado pelo Espírito não parou por aí, e nem nós devemos. Precisamos continuar, e pegar não apenas as ameaças assustadoras e inspiradoras, mas também as gloriosas e inspiradoras promessas:

“Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta maneira.”

“Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores, em que, depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos… Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ele tem grande galardão. Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa… Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma.”

Esta é a mensagem do Espírito Santo para nós nesta passagem. Nas lutas, nas tentações, nos ataques de nossa própria carne pecaminosa, na pressão constante que enfrentamos do mundo incrédulo em torno de nós, na guerra espiritual ao longo da vida em que estamos engajados contra o maligno e seus exércitos, somos chamados a não abandonar nosso primeiro amor. Somos chamados a olhar para as nossas próprias vidas como exemplo para nós. Somos chamados a nos imitar!

Lembre-se dos primeiros dias. Lembre-se de quando o Senhor lhe deu a disposição e a capacidade de segui-Lo. Lembre-se da resistência que enfrentou das pessoas ao seu redor e de como você ficou forte diante disso. Lembre-se da alegria que você teve quando defendeu o que era certo diante da oposição. Mantenha essas coisas em mente – não porque elas fornecem evidências da sua própria força, não porque elas mostram o quanto você pode fazer com sua força de vontade e um pouco de trabalho duro, mas porque elas mostram a você o que Deus pode fazer e o que Deus fez em sua vida.

Esses leitores originais da carta aos hebreus enfrentaram problemas. Eles podem ter sido cristãos judeus em Roma, que haviam sido expulsos da cidade pelo imperador. Eles ainda não tinham sido forçados a resistir a ponto de morrer por causa do evangelho, mas enfrentaram problemas de todos os lados – rejeição de dentro da sua nação, rejeição de suas próprias famílias, rejeição de seus amigos e conhecidos…

Eles podem ter perdido o emprego por causa de sua fé. Eles podem ter enfrentado desastre econômico e sofrimento por causa de sua fé. Certamente eles tinham visto seus irmãos serem presos por causa do Senhor Jesus Cristo, e eles mostraram seu amor por esses irmãos aprisionados, e eles se identificaram com sua causa, apoiando aqueles que haviam sido presos em vez de negar seu Senhor e Salvador. Eles tiveram suas propriedades tiradas deles, e ainda assim eles permaneceram firmes, apesar do ridículo, apesar do abuso, apesar dos maus-tratos.

E agora eles precisavam construir nessa base. Eles tiveram que suportar. Eles não podiam desistir. Eles haviam começado bem. O Senhor havia começado um belo trabalho neles. Agora eles precisavam desse chamado, esse encorajamento, para perseverar, permanecer forte. Eles receberam a exortação: fique firme, não recue, não desista. Continue pressionando em direção ao objetivo. A vida trará suas lutas, provações e tentações a todo o povo de Deus, mas no meio das tempestades, somos chamados a permanecer firmes, na força que só pode vir do Espírito Santo.

Isso é viver pela fé. O meu justo viverá pela fé; se retroceder, nele não se compraz a minha alma. Somos informados aqui que “viver pela fé” é o oposto de “retroceder.” Toda a linguagem, todo o encorajamento, desses últimos versículos de capítulo dez, é a linguagem tirada do campo da batalha ou da arena. No campo da batalha, mesmo em momentos em que as coisas parecem piores, os soldados precisam confiar em seu general para liderá-los, continuar avançando, trazendo a luta ao inimigo. Os soldados precisam confiar em seu general; eles precisam confiar que ele os conduzirá à vitória, e eles precisam lutar com essa confiança guiando-os. Isso é viver pela fé.

Somos soldados e o Senhor é nosso general. Viver pela fé significa segui-lo no meio da batalha e lutar com confiança, sabendo que a vitória é certa se perseverarmos. Como soldados, somos chamados a lembrar o tempo em que éramos recrutas inexperientes, recém chegados no campo de batalha. Como os jovens soldados recém chegados à frente, podemos ter enfrentado o pior que o inimigo teve que nos atirar. Mas nós fomos equipados para a batalha. Nós ficamos firmes contra o inimigo. Agora recebemos esse incentivo: “Veja o que você fez naquela época! Você pode fazer isso de novo!”

“Meu justo viverá pela fé” – seguir a Cristo significa viver na esperança da vitória futura. Significa aguardar o momento em que a batalha terminará e a vitória final será vencida. É sobre avançar, não recuar. É sobre ousadia – vimos a ousadia que podemos ter ao nos aproximarmos do Pai, ousadia que podemos ter por meio da fé em Jesus Cristo. Mas Ele também nos dá ousadia nesta vida – ousadia para permanecer em confiança diante das flechas inflamadas do maligno.

Irmãos, em todos os desafios que nos confrontam, precisamos nos lembrar desse chamado à perseverança. Precisamos nos lembrar da confiança que podemos ter, da confiança que devemos ter. Se estamos vacilando, se nossa fé parece estar fracassando, se vemos áreas em nossa vida em que estamos lutando, se somos tentados a deixar tudo, ou, ainda pior, se nos encontramos contentes em permanecer nos bastidores enquanto a batalha continua ao nosso redor, precisamos nos lembrar desse chamado, desse aviso, desse encorajamento, para perseverar. Nós precisamos acreditar; nós só podemos viver pela fé. E pela fé, podemos acreditar, podemos confiar, podemos ser encorajados, pela última declaração de Hebreus 10:

“Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma.”

Como podemos fazer isso? Hebreus 10 nos mostra como podemos perseverar:

10.22-24: “Aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura. Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel. Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras.

Se você vir seu irmão ou irmã vacilando, não fale sobre ele ou ela – fale com ele ou ela. Encoraje um ao outro. Exorte um ao outro. Não se contente em apenas falar sobre a chuva, ou esporte, ou política ou qualquer outra conversa que nos ocupe no maior parte do tempo – use suas palavras para estimular seu irmão. Nós precisamos sair do vagão do mundo, e começar a viver contra-culturalmente. O mundo conversa sobre coisas sem sentido, as conversas do mundo são inúteis e não fazem nada além de encher o ar. Como seguidores de Cristo, nossas palavras são importantes, e precisamos lembrar isso toda vez que abrimos nossas bocas.

Estamos todos juntos nisso, e precisamos uns dos outros. E isso é uma parte da exortação do versículo 25:

“Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.”

“Não deixemos de congregar-nos” – é a linguagem da adoração. Devoções pessoais são uma coisa boa – mas o culto corporativo fica no centro de nossa vida. Você quer ficar firme? Quer perseverar? Continue congregando-se. Aqui, agora, estamos reunidos como o exército do Senhor. Estamos recebendo nossas ordens de marcha. Estamos recebendo o encorajamento que só pode vir do Espírito Santo.

Nós vemos o Dia se aproximando. Cada dia que passa é um dia mais perto de conhecer o rei, para todos e cada um de nós. Isso é importante. É disso que a vida cristã é. Irmãos, acreditem nas palavras que o Espírito Santo nos dá em Hebreus 10.39. Confie nelas. Viva elas. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo, sim. Mas Isaías 62 na dá uma imagem gloriosa do plano que Deus tem em mente para aqueles que perseveram:

“As nações verão a tua justiça, e todos os reis, a tua glória; e serás chamada por um nome novo, que a boca do SENHOR designará. Serás uma coroa de glória na mão do SENHOR, um diadema real na mão do teu Deus.”

Persevere. Fique firme. Confie no SENHOR e avance com ousadia. E para você, as mãos de Deus não serão uma coisa assustadora, porque elas não serão mãos esticadas para punir – elas serão mãos de proteção, mãos de compaixão, mãos de afeição. Elas serão as mãos amorosas do Pai amoroso. Ele vai te abraçar como uma coroa de beleza. Ele o embalará nas palmas das mãos como diadema real, como emblema precioso e valioso do que o seu Deus criou. Ele te levará em seu seio. Ele gentilmente se guiará. Poderia haver algo melhor do que isso?

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Jim Witteveen

Pastor missionário das igrejas reformadas do Brasil e diretor do Instituo João Calvino.