Sermão preparado pelo pastor Jim Witteveen
Leitura: Hebreus 03:12-14
Texto: Hebreus 03.01-19

Amada Congregação do Nosso Senhor Jesus Cristo:

Como crentes reformados, uma da doutrinas básicas que prezamos é a doutrina bíblica da perseverança dos santos – o quinto ponto de calvinismo, o “P” em TULIP. Cremos e confessamos que Deus preserve aqueles que pertencem a Ele pela fé; nos Cânones de Dort confessamos que crentes podem ter certeza desta preservação dos eleitos à salvação e a perseverança dos verdadeiros crentes na fé.

Embora sabemos que cristãos podem cair em pecados sérios, também nos alegramos no fato que Deus, “que é rico em misericórdia, segundo o propósito imutável de eleição, não retira completamente o Seu Espírito Santo dos que lhe pertencem, mesmo na sua deplorável queda. Tampouco permite que se afundem tanto a ponto da caírem da graça de adoção e do estado de justificação ou, que cometam o pecado para a morte – isto é, o pecado contra o Espírito Santo – e que, totalmente abandonados por Ele, se lancem na ruína eterna.”

É um grande encorajamento para nós como o povo de Deus. Podemos ter confiança que Deus preserve aqueles que lhe pertencem. Podemos ter certeza da preservação de Deus do seu povo. Podemos viver corajosamente, sabendo o que nosso Deus fiel revelou sobre si mesmo. Mas o que é que isso significa na prática? Alguns pastores populares proclamam o que eles chamam de a teologia da graça livre. Apesar do fato que, superficialmente, parece semelhante a visão Bíblica e Reformada da salvação, existe uma diferença grande. Por exemplo, há um pregador dos Estados Unidos, Charles Stanley, que diz que somos salvos porque nalgum momento em tempo nós expressamos fé no nosso Senhor. Ele disse isso:

“Até se um crente se torna quase incrédulo, a salvação dele não está em perigo. Crentes que abandonam ou perdem a sua fé vão reter a sua salvação.”

No outro lado é a posição arminiana, que diz que crentes podem perder a sua salvação. Os arminianos dizem que qualquer doutrina de segurança eterna só pode encorajar cristãos a desprezar a sua salvação, e só serve para remover a diligência do cristão para permanecer fiel e obediente a Deus.

Devemos entender a diferença entre a doutrina Bíblica da perseverança dos santos e as outras duas posições. Claro, rejeitamos o ensino arminiano que os crentes podem perder a sua salvação. Mas quanto a outra posição? Aceitar a doutrina a perseverança dos santos significa que podemos descansar seguros, porque nalgum momento nós já expressamos fé em nosso Senhor?

Quando se trata da questão da perseverança, a mensagem de Hebreus 3 é de vital importância. Porque este capítulo fala diretamente sobre a questão da perseverança. Se pudermos estar certos de que Deus nos preservará na fé verdadeira, como isso funciona? Como Deus nos preserva? Como podemos perseverar? Como podemos ter certeza da nossa salvação? Como podemos permanecer firmes na fé? A resposta não é encontrada em dizer, “Eu sou reformado e, portanto, acredito na perseverança dos santos.” A resposta é encontrada nas Escrituras.

E mais uma vez, vemos o autor de Hebreus fazendo uma comparação. Nós capítulos um e dois, vemos a comparação entre Jesus e os anjos. O autor nos mostra como ele é superior aos anjos. Aqui em capítulo 3, encontramos o autor comparando Jesus com Moisés, o grande profeta e mediador da Antiga Aliança. Lembre-se do contexto: Hebreus foi escrito para os crentes judeus que estavam em grave perigo de se afastarem de Cristo e voltarem ao judaísmo. Enfrentados por provações e perseguições, a tentação de voltar ao judaísmo foi forte. E assim vemos o autor mais uma vez proclamando a supremacia de Cristo, usando essa proclamação para encorajar seus leitores a perseverar.

Moisés era servo na casa de Deus. Ele era um grande servo, com certeza; ele foi fiel como servo de Deus. Mas Jesus não é apenas um servo; Ele também foi fiel no cumprimento do seu chamado – fiel como filho. Embora Moisés certamente fosse digno de honra, como fiel servo de Deus, Jesus é digno de muito mais, assim como o construtor da casa merece mais honra do que o resultado de seu trabalho. Jesus é o Filho, que tem autoridade sobre a casa de Deus e, além disso, Ele também é o construtor, o que significa que Ele é a autoridade suprema. E o mais surpreendente é o seguinte: “somos a casa de Cristo, se guardarmos firme, até ao fim, a ousadia e a exultação da esperança.”

Então, o chamado é para aqueles que professam fé em Jesus: guarde firme a sua ousadia e a exultação da esperança. Não vacile sob pressão. Mantenha-se firme em sua ousadia – não se orgulhe de si mesmo, não se gabe de sua própria dignidade, não se gabe de sua própria excelência, mas se gabe de Jesus, baseado em pertencer a Ele, baseado em sua posição na casa de Deus. Ele é digno e, em Sua graça, Ele levou você para fazer com que você compartilhe da Sua glória. Então guarde essa esperança.

E o autor de Hebreus refere-se novamente ao Antigo Testamento, ao relato da infidelidade de Israel no deserto, contado nos livros de Moisés e em Salmo 95, que ele cita aqui. Em 1 Coríntios 10, o apóstolo Paulo nos diz que “estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado. Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.”

E aqui em Hebreus 3 somos confrontados com o mesmo exemplo negativo. Somos chamados a não endurecer nossos corações, como fizeram nossos antepassados no deserto, onde puseram Deus à prova. Por causa de sua rebelião pecaminosa contra Deus, por causa de sua recusa em confiar em Deus diante de provações e lutas, porque temiam seus inimigos humanos mais do que temiam a seu Deus, toda a geração do deserto não entrou no descanso de Deus. O Senhor ficou com raiva contra eles. E na Sua ira, jurou que não receberiam a herança que lhes havia prometido.

E agora vem aquela palavra de advertência: “Tendo cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo.” E aqui vemos o quão antibíblico e perigoso é o assim-chamado ensino de “graça livre” de alguns pastores, que torçam a doutrina da perseverança dos santos para dizer que uma vez que aceitamos a Cristo em nossos corações, podemos até mesmo abandonar nossa fé e ainda sermos salvos. Este é um aviso muito real: tome cuidado. Seja cuidadoso. Não caia na armadilha que seus antepassados caíram.

Considere Jesus, o apóstolo e sumo sacerdote de sua confissão. Corrija seus pensamentos sobre ele. Não se afaste dele. Permaneça firme e mantenha-se firme em sua confissão e em seu orgulho nEle. Porque, se não fizer, você pode ter certeza de que no dia do julgamento o Senhor se dirigirá a você com as palavras que ouvimos várias vezes nas parábolas: “Eu nunca te conheci; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais iniquidades.” Porque Jesus disse: “Nem todo aquele que me diz, Senhor, Senhor, entrará no Reino do Céu, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está no céu.”

A idéia de que uma pessoa pode tomar uma suposta “decisão por Cristo” e abandonar completamente a fé, e ainda entrar no Reino dos Céus, não é apenas um absurdo, é completamente anti-bíblica. “Tendo cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo.” Mas como fazemos isso? Como nos cuidamos? Como não deixamos de ser influenciados pelo mundo, pela falsidade do pecado, pelas pressões que o mundo coloca sobre nós que nos tentam de afastar-se da verdade?

É aqui que a idéia da “família da fé” se torna tão importante. Veja a linguagem que este capítulo usa. Primeiro de tudo, somos “santos irmãos.” Somos parte da família de Deus. Nós “compartilhamos” no chamado celestial – compartilhamos com nosso irmão Jesus Cristo, e compartilhamos esse chamado com nossos irmãos na fé. Somos parte da casa, da família, de Deus. Somos a casa de Cristo, se guardarmos firme, até ao fim, a ousadia e a exultação da esperança. Claramente, há preocupações corporativas em jogo aqui neste capítulo. Esta não é uma carta destinada a um grupo de indivíduos isolados, cada um por si próprio, cada um com sua própria agenda pessoal que não tem nada a ver com ninguém. Somos chamados a fixar nossos pensamentos nele, mas somos chamados a fazer isso como parte da sua casa, como membro do seu corpo, como membro da companhia de santos irmãos.

Como nos cuidamos? Como podemos fazer com que não desenvolvamos um coração maligno e incrédulo que nos leve a nos afastar do Deus vivo? A resposta a essa pergunta é encontrada em versículo 13:

“Exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pegado.”

Veja bem: este versículo não me dá, pessoalmente, instruções sobre como permanecer fiel. Certamente inclui essa mensagem, com certeza, mas não é tudo – há muito mais do que isso. Porque esta exortação me leva a pensar no corpo – direciona a minha atenção à responsabilidade que tenho com os outros dentro do corpo. Me lembre que a minha vida cristã existe dentro do contexto da comunidade cristã, a Igreja de Cristo, Seu corpo, Sua noiva.

Como perseveramos? Como Deus nos preserva? Ele usa meios. Não existe algum tipo de gene de “perseverança” implantado em nós, que nos permita seguir nosso próprio caminho e fazer o que quisermos desde que aceitemos a Jesus como nosso Senhor e Salvador, o que quer que isso signifique. Ele usa Seu corpo, Ele quer que vivamos como Seu corpo, encorajamos, exortamos, estimulamos uns aos outros, perseveramos.

Irmãos, em nossa era individualista, quando tantas pessoas não vêem a necessidade de se unir com o corpo de Cristo, a Igreja, para ser cristã, esta mensagem é extremamente, de vital importância. Porque nos mostra a importância do corpo. Mostra-nos a centralidade de se reunir, de viver como o corpo, de nosso culto corporativo, onde nos encorajamos mutuamente em canto, em oração, em conversação, em comunhão, em unidade, na solidariedade que temos como povo de Deus.

Não devemos negligenciar o corpo. Não devemos deixar de nos reunir na adoração, em prol da nossa própria salvação, e não apenas para nós mesmos, mas também para nossos irmãos. Temos responsabiliade para com eles, não apenas para nós mesmos, e precisamos levar essa responsabilidade a sério. Ninguém, e nada, deveria atrapalhar isso. De qualquer maneira, separando-nos da comunhão do povo de Deus, permanecendo alheios à comunhão dos santos, separando-nos da Noiva de Cristo, da qual fazemos parte, significa nos colocar em extremo perigo e, por extensão, significa colocar todo o corpo em risco.

O autor de Hebreus voltará a essa exortação novamente em Hebreus 10.23-25. Mais uma vez, ele aponta para nosso fiel Salvador e encoraja seus leitores a perseverar:

“Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel. Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.”

Irmãos, a exortação, o encorajamento, a admoestação, todas essas coisas, não são apenas a vocação do ministro ou missionário ou dos presbíteros da igreja. Somos todos chamados para fazer essas coisas. E esse chamado é urgente. A mensagem sai: “Hoje, se você ouvir a voz de Deus, não endureça seu coração como na rebelião.” Mas exorta um ao outro todos os dias, contanto que seja chamado de hoje.

Nossa vida é composta de uma série de “hojes.” Versículo 13 enfatiza a urgência da situação. Porque nenhum de nós sabe quantos “hojes” nos foram dados, e quantos “hojes” nos restam. Como o apóstolo Paul escreveu em 2 Coríntios 6.2: Eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação. O chamado é urgente. Isto não é, “Sim, eu farei algo sobre isso no futuro nalgum momento.” Hoje é o dia. Agora é o momento favorável.

A mensagem é a seguinte: a igreja não é composta de um grupo de consumidores religiosos. Você não vem para a igreja para pegar sua dose semanal de coisas de Deus, e depois voltar à casa, para usar o que você conseguiu aqui de maneira que você acha melhor. A igreja é um corpo. A igreja é uma unidade. A igreja é composta de pessoas chamadas a perseverar na fé, e o meio central que Deus usa para nos preservar na fé é a igreja. As Escrituras não poderiam ser mais claras: negligenciar a Igreja, negligenciar o culto corporativo, negligenciar a comunhão, negligenciar a casa, e você está colocando a si mesmo, e aos outros, em perigo.

Ser membro vivo da igreja é opcional, na mesma maneira em que respirar e comer e beber são opcionais também. Se você acha que poderia viver feliz sem respirar, comer e beber, faça o mesmo com a igreja. Porque viver como membro ativo da Igreja é tão importante para sua vida espiritual quanto respirar, comer e beber são para sua vida física.

Desafios virão na vida de todo cristão. Como você vai resistir a eles? Como você conseguirá manter os olhos firmemente focados no fundador e consumador da sua fé? O engano deste mundo pecaminoso é o nosso inimigo mortal. Desconfiança, vacilação da fé, voltar para velhos hábitos pecaminosos e padrões de vida, todas essas coisas, são perigos claros e presentes para todos nós. E cair no engano do pecado significa uma coisa: não entrar no descanso que o Deus de repouso prometeu ao Seu povo.

Um comentarista diz isso sobre o autor de Hebreus: “Ele quer que mostremos solidariedade, em assembléia regular para o culto comum. Ele sabe que precisamos manter forte o vínculo da fraternidade cristã, especialmente nos momentos em que a hostilidade de fora nos aflige ativamente. Precisamos dos recursos internos que podem vir somente através da adoração comum e encorajamento mútuo.”

Devemos, coletivamente, como comunidade, assumir a responsabilidade por cada membro dessa comunidade. Quando desconsideramos a comunidade, estamos, na verdade, desconsiderando Aquele que fez essa comunidade – o construtor, nosso Senhor Jesus Cristo. Quando desconsideramos essa comunidade em favor de outra, qualquer que seja essa comunidade, estamos essencialmente dizendo que essa comunidade não é tão importante quanto a outra.

Então, irmãos, este é o meio pelo qual Deus opera a perseverança. Naqueles que Ele justifica, ele também opera obediência. Ele usa a Sua Palavra para nos dar fé. Ele usa o corpo, a Igreja, para nos manter fortes na fé. E Ele nos ordena a usar esses bons dons que ele nos dá, porque esses são os meios pelos quais podemos perseverar. Como Deus nos preserva? Através do ministério da igreja – todos os aspectos desse ministério. Se quisermos nos apegar à nossa confiança e ter a ousadia em nossa esperança, devemos valorizar a Igreja tanto quanto o nosso Senhor Jesus Cristo, que se Deu por ela.

Os verdadeiros crentes podem se afastar da fé? Os verdadeiros crentes podem perder a sua salvação? Não, absolutamente não. Deus salva aqueles que pertencem a Ele, sem exceção. Pela fé podemos ter confiança nesse fato. Mas isso não significa que podemos negligenciar os meios que Deus providenciou para nos preservar na verdade. Nós devemos usá-los, porque através deles nosso fiel Deus nos preserva!

Então, irmãos, use esse meios. Alegre-se nesses meios. Valorize esses meios. Pois temos a grande benção, a maior benção, de compartilhar em Cristo, se é que mantemos firme nossa confiança original até o fim. Então, exortem-se uns aos outros todos os dias, desde que seja chamado de “hoje,” para que nenhum de vocês seja endurecido pela falsidade do pecado.

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Jim Witteveen

Pastor missionário das igrejas reformadas do Brasil e diretor do Instituo João Calvino.