Sermão preparado pelo pastor Jim Witteveen
Leitura: Hebreus 01.01-14
Texto: Hebreus 01.01-04

Amada Congregação de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em muitas maneiras, a carta aos hebreus é um dos livros mais misteriosos no novo testamento. Não sabemos quem escreveu esta carta. Entre os pais da igreja antiga, Tertulliano disse que foi escrito por Barnabé; Clemente disse que foi escrito por Paulo em hebraico e traduzido em grego por Lucas; Calvino acreditou que ou Lucas ou Clemente de Roma foi o autor; Lutero pensou que talvez Apólo escreveu Hebreus; e alguém argumentou que os autores foram Priscila e Aquila. Mas o livro em si não diz quem o escreveu; então, enquanto podemos ter as nossas próprias opiniões, realmente não sabemos.

O segundo mistério é esse: quem foram os recipientes originais? Mais uma vez, não sabemos mais do que diz no livro. Não têm endereço no início, dizendo que foi escrito a um grupo numa cidade ou região. O título que sabemos, “A carta aos Hebreus,” foi uma adição posterior, e é baseado mais no conteúdo do livro do que em outra evidência. De fato, o livro que conhecemos como “a carta aos hebreus” não tem saudações tradicionais no início, então chamar este livro uma carta ou epístola pode ser um erro. Porque parece que este livro é, na verdade, um sermão, ou uma exortação, mais do que uma carta.

Mas sabemos isso: este livro foi destinado a um grupo de pessoas que foi em verdadeiro perigo de abandonar a fé. Provavelmente eles eram cristãos judeus, e pode ser que eles foram entre um grande número de sacerdotes que se converteram a Cristo nos dias da igreja primitiva em Jerusalém. Quando lemos a mensagem da carta, os avisos e exortações do autor, o uso do Antigo Testamento, as referências ao sistema sacerdotal da fé judaica, fica claro.

Então, enquanto o livro de Hebreus pode não ser uma carta, e enquanto não sabemos quem era o autor humano desta obra, e enquanto não sabemos exatamente quem foram os recipientes originais, sabemos isso com certeza: é a Palavra de Deus, inspirada pelo Espírito Santo, destinada ao povo de Deus ao longo dos séculos, e por isso destinado a nós, aqui neste lugar hoje, mais ou menos 1940 anos depois.

Estamos numa posição bem diferente do que os leitores originais. Eles enfrentaram perseguição e dificuldades por causa da sua fé em Jesus Cristo. Eles ainda não tinham resistido até ao sangue, como diz Hebreus 12.4, mas eles experimentaram desafios sérios a sua fé, e eles foram tentados a voltar às crenças e práticas antigas, a voltar ao judaísmo que rejeitou Jesus como o Messias.

Se você se colocar no lugar deles, pode ver que os desafios foram desafios grandes, sem dúvida. A fé judaica foi protegida no Império Romano – os judeus tinham status especial dentro do Império e as suas práticas religiosas – como o sábado – foram protegidas pela lei Romana. Mas enquanto a história avançou em direção à destruição do templo e da cidade de Jerusalém, a separação entre o judaísmo e o cristianismo cresceu. Os cristãos não foram vistos como uma seita dentro de judaísmo, e a perseguição estava começando – perseguição dos outros judeus, e também perseguição das autoridades do Império.

Seguir a Cristo nunca tem sido fácil. Jesus disse durante o seu ministério, e ficou cada vez mais claro o que ele significou quando ele disse isso, em Mateus 16:

“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á.”

Nosso Senhor Jesus Cristo não era o mestre de propaganda e marketing. No século 21, pode imaginar um especialista em técnicas do crescimento da igreja fazendo propaganda, falando como Jesus Cristo falou? Pode imaginar:

“Bem vindo a nossa igreja! Antes de começar com a mensagem, precisamos ler a etiqueta de aviso no nosso produto. Se você escolher a juntar-se a nós, pode antecipar essas coisas:

“Lançarão mão de vós e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome; e isto vos acontecerá para que deis testemunho.”

E há ainda um pouco mais:

“E sereis entregues até por vossos pais, irmãos, parentes e amigos; e matarão alguns dentre vós. De todos sereis odiado se por causa do nome de Jesus.”

Essa é a mensagem que acompanha o chamado do evangelho, e é exatamente isso que os judeus convertidos ao Senhor Jesus Cristo estavam experimentando. Nesse contexto, essa poderosa obra inspirada pelo Espírito foi escrita, com o chamado repetido muitas vezes para perseverar. Abandone Cristo e você poderá ganhar sua vida terrena, mas tenha certeza disso: perderá sua recompensa eterna. Prossiga, mantenha a fé, não volte para os tipos e as sombras da Antiga Aliança, e você tem tudo para ganhar.

Nós não somos judeus do primeiro século, tentados a voltar ao templo e aos sacrifícios e à lei de Moisés e à adoração dos anjos ou qualquer coisa assim. Somos pessoas diferentes vivendo numa época diferente. Nossos desafios, pelo menos externamente, parecem não ter nada em comum com os desafios que os leitores originais de Hebreus enfrentaram. Mas a mensagem continua sendo relevante, e é uma mensagem que precisamos agarrar com as duas mãos e segurar firme.

É a mensagem da supremacia de Cristo. É a mensagem do cumprimento da realização de todas as coisas em Cristo. É a mensagem da glória absoluta e incomparável de Cristo. É uma mensagem que nos diz tanto quanto ela disse aos judeus na primeira geração da igreja do Novo Testamento – vai enfrentar todo tipo de tentação. Sua fé será provada. Você será tentado a abandonar Cristo por alternativas que parecem ser mais fáceis e mais agradáveis. De muitas maneiras diferentes, você sofrerá por sua fé. Você vai lutar. Mas não desista. Porque não há substituto para seguir a Cristo. Não há outro caminho.

E ouvimos essa mensagem alta e claramente no primeiro versículo deste livro. “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho.” Ao longo da história, o Senhor estava se revelando ao seu povo. Nas visões, nos sonhos, na inspiração interior, nas aparências como o Anjo do Senhor, ele deu a sua mensagem aos seus servos, os profetas, que eram seus mensageiros, o meio pelo qual ele se revelou ao seu povo. Essa revelação nunca mudou. Desenvolveu-se, tornou-se mais completa, a mensagem tornou-se mais clara e completa, mas ao longo da história, foi a única revelação do único Deus.

Nós temos essa revelação hoje em nosso Antigo Testamento. Mas agora, a plenitude do tempo chegou – os últimos dias de que os profetas falaram. Agora essas palavras dos profetas foram realizadas. Agora o profeta final chegou. Aqueles profetas não tiveram uma mensagem diferente – não é como se o que Deus tinha de dizer tivesse mudado. Mas eles falaram das promessas – e do supremo profeta, o próprio Filho de Deus, o herdeiro de todas as coisas, aquele através do qual o Pai criou o mundo. Ele não apenas falou do cumprimento das promessas que foram dadas através dos profetas – Ele é o cumprimento.

Nestes últimos dias, o Senhor falou através do Seu Filho. Nós não precisamos de nada mais. Não precisamos de mais revelação. Não precisamos de mais inspiração pessoal, ou visões, ou sinais e maravilhas, ou palavras de Deus destinadas apenas para nós, como uma revelação mais completa da Sua Palavra e Sua vontade. Ele falou a última palavra. Ele deu a revelação final. Seu Filho, o Senhor Jesus Cristo, é a revelação final do Pai. Nada mais é necessário. Ele é o profeta, enviado pelo pai. E o que é ainda mais surpreendente é que ele não foi enviado apenas pelo Pai – Ele também é a expressão exata do Seu ser. Ele é o resplendor da glória de Deus. Ele sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder.

Então a mensagem para os hebreus era esta: aqueles profetas eram verdadeiros profetas, mas eles não eram os profetas finais. Não abandone o cumprimento e volte a algo menor. E para a igreja hoje? A mensagem é a seguinte: por que se preocupar em buscar algum tipo de revelação fora de Cristo? Não há como qualquer tipo de revelação, qualquer tipo de presença especial de Deus ou uma nova revelação especial que as pessoas estejam buscando, poderiam combinar com a glória incomparável da revelação final que Deus já nos deu! Então olhe para o profeta final, e glorifique-se nele.

E o argumento para a supremacia de Cristo continua – Ele não é apenas o grande profeta, Ele também é o supremo sacerdote. Ele fez purificação pelos pecados. O Seu sacrifício não só apontava para o perdão, como os sacrifícios do Antigo Testamento. Seu sacrifício, na verdade, proporcionava perdão completo e definitivo. Para os hebreus, voltar ao sistem sacrificial do Antigo Testamento era tolice, e veremos essa mensagem repetida várias vezes ao longo deste livro – era impossível que o sangue de touros e bodes tirasse pecados – os sacrifícios nunca poderiam purificar a consciência de um pecador. Os sacrifícios tinham que ser repetidos todo dia, ano após ano, século após século. O tabernáculo e o templo poderiam estar cheios de rios de sangue, mas ainda assim a ira de Deus contra o pecado e os pecadores permaneceria, se não fosse pela obra do Seu Filho.

Sem o derradeiro sacrifício, o sacrifício que foi oferecido pelo Grande Sumo Sacerdote, aquele que foi ao mesmo tempo o sacrificador e o sacrifício. Ele fez purificação pelos pecados. Não há necessidade de nada ou ninguém mais. Ele é o Grande Profeta, através de quem Deus falou Sua palavra final. Mas ele é algo mais – ele também é o maior sacerdote, que ofereceu o sacrifício final e perfeito, o sacrifício que todo sacrifício anterior apontava – o sacrifício do Seu próprio corpo abençoado, pregado na cruz, o sacrifício do Seu sangue, derramado pelo perdão completo de todos os nossos pecados, e seu corpo, quebrado pelo pleno perdão de todos os nossos pecados. Não há necessidade de procurar nada mais em outro lugar, nem dentro de você, nem em qualquer outro lugar – Ele fez tudo, e Ele fez isso perfeitamente.

Mas há ainda mais – Ele é não apenas o Profeta e o Sacerdote – Ele também é o Rei.

Depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas. Ele é o Senhor. Ele senta, entronizado no céu. Seu trono é eterno. Seu governo é completo, e seu governo é eterno. Ele é adorado pelos exércitos do céu. Para Ele, e aqui está um versículo tão claro sobre a divindade de Cristo quanto você vai encontrar, para Ele é dito: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre. Através dele o mundo foi criado. Para ele, o mundo foi criado. Por ele o mundo é sustentado. Sem ele, não só tudo desmoronaria, nada poderia existir. Ele existiu por toda a eternidade com o Pai e o Espírito Santo. Ele lançou as fundações da terra, os céus são obra de Suas mãos.

E chegará o tempo em que o trabalho deste Rei chegará ao seu cumprimento final. Ele se senta à direita do Pai, até que o Pai faz dos seus inimigos a estrada de seus pés. Todo joelho se dobrará, seja de bom grado ou não. O mundo como o conhecemos perecerá, mas ele permanecerá. Este vasto universo que nós só temos um vislumbre de nossos mais poderosos instrumentos, este universo que nós só conhecemos de maneira tão limitada, usando todos os nossos mais avançados conhecimentos científicos, tudo o que vemos e sabemos e muito mais, tudo será enrolado como um manto e mudado como uma roupa. Mas ele permanecerá. Não devemos procurar outro rei. Não devemos colocar ninguém, ou nada, no trono que ele recebeu do seu Pai. Ele é o rei.

Irmãos, aqui nestes primeiros versículos do livro que conhecemos como a carta aos hebreus, o último é revelado. Sua grandeza é exposta para nós em sete declarações:

  1. Deus o designou como herdeiro de todas as coisas.
  2. Por meio dele, Deus criou o universo.
  3. Ele é o esplendor da glória de Deus.
  4. Ele é a própria imagem de Deus.
  5. Ele sustenta todas as coisas pela Sua palavra poderosa.
  6. Ele fez purificação pelos nossos pecados.
  7. E finalmente, ele se senta à direita da majestade, nas alturas.

E essas sete declarações são apoiadas por sete citações da Palavra de Deus que mostram sua superioridade – de salmo 2.7; de 2 Samuel 7.14; de Salmo 97.7; de Salmo 104.4; de Salmo 45.6; de Salmo 102.25-27; e finalmente, dos primeiros versículos de Salmo 110 – todo o Antigo Testamento aponta para Ele, e esses versículos são apenas o início.

Sete declarações e sete citações. O número sete é o número de plenitude, o número de cumprimento, o número completo. Palavras não podem expressar sua glória. Palavras nao podem expressar sua majestade. Palavras nao podem expressar o que ele fez por nós em revelar a glória do Pai, dando a vida por nós, sofrendo a agonia do Inferno em nosso lugar. As palavras não podem expressar a lealdade que devemos a esse Cristo, nosso Senhor Jesus. Mas ainda devemos dizer isso, porque o que mais podemos fazer? Nossas palavras não podem defini-lo ou contê-lo. Nossas mentes não podem compreendê-lo plenamente. Podemos pensar na maior coisa possível, e Ele é maior. Podemos pensar no mais sagrado, o mais sábio, o mais justo, o mais perfeito, o mais glorioso, o mais belo… mas nossos pensamentos só podem ascender em Sua direção, sem nunca chegar a uma aproximação completa da verdade que está nele.

Irmãos, tendo recebido esta mensagem, tudo parece tão claro. Que razão alguém poderia ter para buscar outro profeta? Que razão alguém poderia ter para procurar outro mediador, outro sumo sacerdote? Que razão alguém poderia ter para servir alguém, ou qualquer outra coisa, além deste grande rei?

Mas o fato é que, e sabemos disso pela história, e sabemos disso por nossa própria experiência, que muitas vezes somos tentados a fazer todas essas coisas. Negligenciamos o grande profeta e escolhemos seguir falsos profetas em seu lugar. Negligenciamos o grande Sumo Sacerdote e escolhemos nomear nossos próprios sumos sacerdotes em seu lugar. Negligenciamos o grande Rei, e escolhemos colocar a nós mesmos, ou a nossas posses, ou nossos desejos, ou coisas que pensamos como necessidade, em seu lugar. É verdade.

Nosso adversário, o adversário de Deus, é mentiroso e falsário. Ele não pode criar nada. Ele só pode distorcer o que já está presente. E tudo o que ele arruina pode ser tão atraente para nossos corações pecaminosos. A falsificação de alguma forma parece mais brilhante e mais atraente do que a coisa real. Prazer no momento, por mais fugaz que seja, pode parecer muito mais atraente do que os prazeres de Deus. A miragem do pecado e dos falso deuses parece muito mais atraente do que a realidade sólida da santidade e do único Deus verdadeiro. As escrituras nos dão uma imagem perfeita da verdadeira realidade. Cantamos em Salmo 84:

“Pois um dia nos teus átrios vale mais que mil; prefiro estar à porta da casa do meu Deus, a permanecer nas tendas da perversidade.”

Mas pense nisso: por natureza, preferimos passar mil dias fora dos átrios do Senhor, em vez de um dia dentro deles. Por natureza preferíamos morar nas tendas da perversidade do que servir como porteir da casa de nosso Deus.

E é por causa disso que precisamos desse lembrete, tanto quanto os hebreus. É por isso que precisamos desta carta aos hebreus, porque é uma carta que é para nós. Estas palavras não são apenas palavras que devemos estudar e memorizar e analisar e discutir. Nossos corações devem ser enchidos com esta mensagem. Nossas mentes devem estar focadas nesta mensagem. Nossas línguas devem estar constantemente contando esta mensagem. Nossas mãos e nossos pés devem ser direcionados para viver a verdade desta mensagem.

Porque ele é nosso profeta. Ele é nosso sacerdote. E Ele é nosso rei. Por natureza, podemos preferir impostores e falsificações à coisa real, mas por causa de sua obra profética, sacerdotal e real, não precisamos mais viver nas garras de nossa antiga natureza. Pela fé podemos escapar de ser “em Adão” e podemos ser libertos, para viver “em Cristo.” Sendo “em Adão,” o primeiro Adão, o Adão que caiu, significa a morte – em Adão todos morrem. Mas estar em Cristo, o segundo Adão, significa ser vivificado.

“Como foi o primeiro homem, o terreno, tais são também os demais homens terrenos; e, como é o homem celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial” (1 Coríntios 15.48-49).

E assim, como confessamos em nosso catecismo de Heidelberg, pelo poder do Espírito Santo, como profetas podemos confessar seu nome. Como sacerdotes, podemos oferecer nossos corpos como sacrifícios vivos a ele. E, como reis, recebemos o privilégio e a capacidade de lutar contra o pecado e o diabo nesta vida e, a partir de agora, reinar com ele eternamente.

Não aceite substitutos. Não se contente com menos. Ele é a coisa real.

Amém.

___________________________________

* Exceto onde o contrário esteja explícito, todos os conteúdos deste site estão licenciados sob uma Licença Creative Commons “Atribuição – Não Comercial – Sem Derivados 3.0 Não Adaptada“.

** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

Compartilhe!

Pr. Jim Witteveen

Pastor missionário das igrejas reformadas do Brasil e diretor do Instituo João Calvino.