Pregação preparada pelo Pr. Alexandrino Moura

Leitura: Gênesis 38; Atos 07.09-18

Texto: Gênesis 45.04-08

Amados irmãos no Senhor Jesus Cristo,

Há alguns anos atrás aconteceu um fato real no nosso Brasil. Um jovem com a idade de mais ou menos 17 anos descobriu que aqueles a quem sempre chamou de “pais” na verdade não eram seus pais. Imagine como ficou a cabeça daquele jovem. As pessoas com quem ele viveu até então não eram seus pais verdadeiros. E o pior, ele descobriu que quem o criou o havia roubado do hospital quando ele era uma criança. Ele ficou chateado querendo saber quais eram realmente seus pais biológicos, descobriu quais os seus pais verdadeiros, e foi morar com eles.

Na Bíblia encontramos uma história parecida com essa. É a história de José. Só que ele já tinha dezessete anos. Ele foi levado de sua terra. Sabia quem era seu pai, mas não podia voltar para junto dele. Por mais que tentasse, não podia voltar. Porque ele era escravo em um país estranho. Não podia correr para junto de seu pai. Mas como isso aconteceu? E por que Deus não interferiu para que José não sofresse? Qual a explicação para Deus não interferir? Será que podemos encontrar a resposta na Bíblia?

Eu vos proclamo a palavra de Deus no seguinte tema:

Tema: JOSÉ: ROUBADO, PORÉM ENVIADO.

  1. ROUBADO DE SUA TERRA.
  2. PORÉM, ENVIADO POR DEUS.

1. ROUBADO DE SUA TERRA.

Irmãos, José era o filho que Jacó mais amava. Ele amava mais a José por ser filho de sua velhice. Jacó já era idoso e Deus já tinha mudado o nome dele. Ele agora se chamava Israel. José era filho de sua mulher Raquel, a qual Jacó trabalhou quatorze anos para se casar com ela. Ele amava muito a José. Ele deu um presente muito bonito a José. José era mais favorecido do que os seus irmãos. Porque era filho da velhice de Israel.

Os irmãos de José estavam com ciúme dele. Eles não gostavam de José, que era o mais amado, o mais privilegiado. Isso não significa que Israel não amava os outros filhos. Mas simplesmente que ele tinha um afeto maior por José. Eles ficaram com ainda mais ódio por causa dos sonhos de José. Nos sonhos seus irmãos se prostravam perante ele, como se ele fosse um rei. Eles já não conseguiam falar pacificamente com José. O ódio estava tomando conta. Eles tinham muita inveja por José ser tratado daquele modo por seu pai. Eles odiavam José, e já o tinha matado nos seus corações. A prova disso é que quando estão apascentando ovelhas e José vai até lá, eles tramam a morte do próprio irmão. Eles deixaram o ódio tomar conta do seu coração. O pecado já estava alojado no coração de cada um deles.

Quando deixamos o pecado tomar conta de nossa vida, não só pecaremos no pensamento, mas também por ato. Porque por natureza somos todos corruptos. Não existe bem algum em nós. Somos todos muito maus. Todos nós por natureza somos inclinados a odiar a Deus e ao nosso próximo.

Eles pegaram José, mas, graças a seu irmão mais velho, não o mataram, porém lançaram-no numa cisterna para morrer. Depois de um tempo vem uma caravana de ismaelitas. Eles o vendem para aqueles ismaelitas. Pobre José! Ele é vendido como escravo pelos seus próprios irmãos. Ele é roubado de sua própria terra. Ele é arrancado à força de sua terra. Ele é roubado. Porque ele não sai por vontade própria. Mas eles o tiram da terra à força. Ele é roubado de seu pai. Ele tinha apenas dezessete anos de idade. Ele não pode mais ver seu pai nem sua terra, pois foi vendido para o Egito.

Ele deixa os braços amorosos de seu pai. Deixa também o conforto de sua casa e agora é um escravo que não tem direito algum. A vida dele não lhe pertence mais, mas pertence a quem o comprou. Ele sofre por ser roubado de sua terra e de seu pai. Ele é lançado na cadeia. Passa muitos anos lá. Era escravo e agora é prisioneiro no Egito. Seu pai não o pode visitar, porque acha que ele está morto. Ele não tem mais liberdade. Ele não tem ninguém conhecido por perto para visitá-lo.

Mas apesar de ser roubado de sua terra, ele continua com esperança. Mas que esperança é essa? No capítulo 39 encontramos a resposta. Enquanto a situação vai se agravando, ouvimos a Escritura Sagrada ecoando: “E O SENHOR ERA COMO JOSÉ”. José tinha esperança no SENHOR. Ele permaneceu firme no SENHOR. Ele não começa a viver como o mundo. Ele permanece crente no SENHOR. Essa era a esperança e conforto de José. Esperança de que o SENHOR vai libertá-lo. Mesmo que morra, ele sabe que vai estar com o seu SENHOR.  Ele tinha muita esperança nisso. Ele sabe que a sua vida pertence ao SENHOR. Os seus irmãos intentaram o mal contra ele (Gn. 50.20), tentaram se livrar dele para sempre, mas José sabe que o seu Deus está no controle de tudo. Ele foi roubado, passou de mal a pior, sofreu muito mesmo. Um sofrimento solitário porque não tinha nenhum parente ao seu lado para o confortar. Ninguém conhecido. A única coisa que poderia fazer para satisfazer suas necessidades era fazer a vontade de sua carne. Ele teve chance de adulterar, mas não fez isso, porque ele era crente.

Ele tinha um Deus que estava com ele. Ele reconheceu isso no seu sofrimento. Quando lemos o capítulo 37, vemos que O SENHOR ERA COM ELE. Isso era o seu conforto. Ele sabia que tinha alguém para ele falar. Ele buscou durante toda a sua vida o conselho de Deus. Ele, mesmo sofrendo sem a presença do pai, confiou no seu Deus. Ele colocou Deus acima de qualquer coisa. Ele não reclamou com Deus por estar sofrendo. Mas humildemente reconheceu que Deus estava no comando de sua vida. Ele pode ter sido arrancado à força de junto de seu pai, mas aprendeu a confiar no SENHOR.

Isso é uma fé que deve ser seguida. Uma fé que apesar das dificuldades, confia no SENHOR. Uma fé que se conforta no SENHOR até mesmo no sofrimento. Não confia no SENHOR apenas quando está feliz. Quando vai tudo bem. Mas uma fé que age quando está sofrendo. Que busca o SENHOR em meio à tempestade. Em meio às tormentas do mar. Em meio à provação do fogo. Através de todos esses sofrimentos vamos nos fortalecer se buscarmos o SENHOR com todo o nosso coração. Porque o SENHOR SEMPRE ESTÁ AO LADO DOS SEUS FILHOS.

2. PORÉM, ENVIADO POR DEUS.

Irmãos, José foi roubado da sua terra por seus irmãos. Mas ele agora é o governador de todo o Egito. Um homem poderoso. No tempo que ele está como governador, está em meio a uma grandiosa fome em todo mundo então conhecido. É nesse tempo que os irmãos de José descem até o Egito para comprar comida para eles e seu pai. José poderia ter pago na mesma moeda, mas ele não fez isto. Por que não? Por que não lançou seus irmãos na prisão? Ele não tinha poder para isto?

Sim, ele tinha poder para fazer isto e muito mais. Mas ele não fez. No verso 5 José dá a resposta: “Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me haverdes vendido para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós”. José já tinha entendido a sua missão. Ele sabia agora que era o plano de Deus que ele fosse para o Egito, a fim de preservar a vida de seu povo. Ele estava lá porque foi Deus que o enviou. Eles intentaram o mal contra José, mas o próprio José diz que foi Deus quem o enviou. Os seus irmãos pecaram contra José. Fizeram o mal. Mas José diz que foi Deus que o enviou. O que isso quer dizer?

Quer dizer que Deus está no comando de tudo. É a doutrina da providência de Deus. E o que é a providência de Deus? É a força toda-poderosa e presente de Deus com que Ele sustenta e governa todas as coisas. Tudo está na mão de Deus. Ele governa tudo mesmo. Todas as criaturas estão no seu controle de tal maneira que sem a vontade dEle não podem agir nem se mover. Nada do que acontece nesse mundo acontece por acaso. Mas, tudo está debaixo do controle soberano de Deus. Ele reina sobre tudo. Deus dirige e governa todas as coisas conforme sua santa vontade, de tal maneira que neste mundo nada acontece sem sua determinação. Jesus diz que pardais são baratíssimos: “dois por um asse”. Mas tal passarinho não cai em terra sem o consentimento de Deus. “Até os cabelos todos da cabeça estão contados” (Mt. 10.29-30). Quer dizer: a providência de Deus se manifesta até nas coisas pequenas.

Mas, os irmãos de José não fizeram o mal? Por que José diz que foi Deus que o enviou? Não foram seus irmãos que o venderam? Isso aconteceu porque Deus o quis. Deus permitiu que os irmãos de José o vendessem para o Egito. Às vezes Deus deixa algo acontecer, mas não é porque está fora do seu controle. Pelo contrário, Deus está agindo mesmo assim. José mesmo disse que o mal que seus irmãos fizeram, Deus transformou em bem (Gn. 50.20). O mal que acontece nesse mundo é por causa da inimizade contra Deus. Os demônios e os ímpios agem injustamente. Essa inimizade é contra o governo de Deus, mas mesmo eles praticando o mal, Deus está no controle de tudo. Eles só conseguem fazer alguma coisa porque Deus permite.

Por exemplo, o rei Roboão, um mau governador, causou a separação entre as tribos de Israel. A culpa foi mesmo dele, mas aconteceu porque Deus o queria (1 Rs. 12.15). Mais um exemplo: os egípcios começaram a odiar os israelitas que estavam morando no Egito. A maldade foi deles. Mas o Salmo 105.25 diz que Deus “mudou-lhes o coração para que o odiassem o seu povo”. Fica claro que a providência se cristaliza até nos piores crimes. Por isso surge a pergunta: quem, afinal de contas, é responsável por todas as coisas más?

Deus não é o autor do mal. Ele governa tudo conforme sua santa vontade. Deus não é o autor do pecado. Mas o próprio homem é o autor do pecado. Porque o pecado não é uma criação de Deus. Deus criou tudo bom e sem pecado. Mas o homem estragou tudo. Com a sua desobediência, o pecado entrou no mundo. Deus poderia ter impedido o pecado de entrar no mundo. Mas ele não o fez. Por quê? A resposta que a Bíblia dá, Romanos 11.33-35, é a seguinte: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?”. O que o apóstolo Paulo quer dizer é que não devemos nos preocupar com coisas que estão fora do nosso conhecimento. Se Deus não nos revelou, então não devemos fazer especulações. Mas devemos aceitar com muita humildade. Tudo o que Ele queria que nós soubéssemos, Ele já revelou em sua palavra. Por isso não devemos tentar saber o que se passa na mente de Deus para não blasfemarmos contra Ele.

Deus enviou José para o Egito porque Ele tinha um propósito. Deus queria salvar o seu povo por um grande livramento. O povo de Deus estava em perigo. Prestes a desaparecer da face da terra. Mas Deus está no comando de tudo. Ele transforma o mal feito pelos irmãos de José em bem. Ele fez com que José deixasse de ser escravo para ser governador do Egito. Deus colocou seu servo no governo para assim mostrar a seu povo que Ele faz qualquer coisa. E assim o seu povo ficaria sabendo que o SENHOR é soberano e que governa tudo. E nada sai do seu controle.

Deus queria salvar as gerações futuras de Israel, o remanescente. Ele estava pensando nos seus eleitos que viriam da descendência de Israel. Israel é herdeiro da promessa de seus pais Abraão e Isaque. Deus fará com que seu plano se cumpra. O mundo e o diabo fazem de tudo para estragar os plano de Deus. Mas mesmo o que eles fazem Deus está controlando-os e usando para que se cumpra seu plano.

Não era só a fome que estava ameaçando o povo do SENHOR de morte. Existia algo mais atrapalhando o futuro do povo. Os capítulo 37 a 50 falam da vida de José. Com exceção do capítulo 38, que fala de Judá e Tamar. Por que a história de José é interrompida por esse assunto de Judá e Tamar? Naquele capítulo fala que Judá, um dos filhos de Israel, se afastou de junto de seus irmãos. Ele se afastou e se casou com uma cananéia. Um casamento proibido por Deus. Ele teve três filhos. Seu filho mais velho se casou com uma cananéia também. O filho dele fazia o que era mau perante o SENHOR, e o SENHOR o matou. O segundo fez o que era mau e morreu também. Depois da morte de seus dois filhos, Judá não dá seu filho mais novo para se casar com sua nora viúva. Então, ela se veste como uma prostituta. E ele comete adultério com ela e ela fica grávida. Então, o que está acontecendo com o povo do SENHOR? Os filhos de Israel estão começando a se desviar do caminho do SENHOR. Já estão se casando com os descrentes. Estão desobedecendo ao seu Deus.

Entenderam por que este capítulo está no meio do relato da história de José? Deus quer mostrar que Ele está preservando a vida do seu povo. O homem pode fazer o mal, mas Deus transforma o mal em bem. Ele faz com que o mal sirva para seu propósito. O filho que nasceu desse adultério, Deus o usou para o seu propósito. Deus estava preservando o remanescente nos dois relatos. De que filho de Israel Jesus Cristo nasceu? Da casa de Judá. Na genealogia de Jesus, em Mateus capítulo 1, vemos o nome de Judá e de seu filho que nasceu do adultério com Tamar.

Deus salvou o seu povo por um grande livramento. Ele salvou da fome seu povo. Não deixou seu povo perecer. Ele salvou sua igreja da morte. Ele fez Israel se transformar em uma grande nação no Egito. José foi o homem por meio de quem Deus salvou seu povo.

Deus salvou seu povo para o Cristo nascesse da casa de Israel. Ele era o descendente da casa de Israel prometido por Deus. Deus salvou seu povo para que assim seu filho nascesse para salvar seu povo da escravidão do pecado. Do modo como Deus salvou o seu povo por um grande livramento no Egito. Salvando seu povo da fome. Assim Cristo salvou por um grande livramento. Ele verteu seu sangue lá na cruz. Salvando seu povo da morte eterna. Deus age de maneira que nós muitas vezes não vemos. Às vezes vemos apenas catástrofes. E pensamos que Deus não está no comando.

Mas na verdade Deus está governando tudo para o nosso bem. Ele está fazendo o que ele predeterminou desde a fundação do mundo. Isso é nosso consolo. É consolador saber da providência de Deus. Saber que no céu existe um Deus que está guiando nossos passos. Quando muitas vezes nos desviamos, Ele vai lá e nos trás de volta. Ele deixa as cicatrizes da nossa rebeldia na nossa alma para que sempre nos lembremos disso. Para aprendermos a confiar nEle. Que possamos fazer da providência de Deus nossa esperança de que criatura alguma poderá nos separar do amor que está em Cristo Jesus.

Amém.

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Pr. Alexandrino Moura

É formado pelo Centro de Estudos Teológicos das Igrejas Reformadas do Brasil. Serve à Igreja Reformada do Grande Recife (PE) como Ministro da Palavra e dos Sacramentos na Igreja Reformada de São José da Coroa Grande (PE). Casado com Simone Moura com a qual tem dois filhos: Daniel e Davi.

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