Sermão preparado pelo pastor Jim Witteveen
Leitura: Hebreus 11.01-06; Lucas 11.37-54
Texto: Gênesis 04.01-16

Amada Congregação do Nosso Senhor Jesus Cristo:

A história de Caim e Abel é uma daquelas histórias da Bíblia que se tornou proeminente na cultura popular – sejam livros, filmes, canções ou apenas referências no discurso diário. Mesmo com a profunda falta de conhecimento da Bíblia em nossa sociedade a história de Caim e Abel é bem conhecida. Um estudioso literário afirmou que a Bíblia constitui o material de origem de toda a literatura ocidental. Se não fosse pela Bíblia, o romance como o conhecemos nunca teria sido inventado. E isso é especialmente verdade para histórias como a história do primeiro assassinato na história – a história de rivalidade entre irmãos, ciúme, ódio, levando ao assassinato, tem sido um tema comum na literatura. E uma das citações bíblicas mais conhecidas ainda em uso hoje, embora muitas pessoas que a usam provavelmente não tenham a menor idéia de onde vem, é a famosa pergunta de Caim: “Acaso, sou eu tutor de meu irmão?”

Gênesis está nos levando numa jornada até aqui- e é uma espiral descendente após a queda de nossos primeiros pais. Enquanto a situação vai de mal a pior, há muita informação que não recebemos. Adão e Eva devem ter tido muitos outros filhos, mas os únicos mencionados neste capítulo são esses dois irmãos, que podem até ter sido gêmeos, julgando pela maneira em que eles são introduzidos nos primeiros versículos de Gênesis 4. Adão deve ter ensinado seus filhos sobre Deus, sobre como ele e sua mãe haviam caído em pecado, e sobre adoração – o que Deus queria do homem, o tipo de adoração que Ele merecia. Caim e Abel sabiam sacrificar – os dois sabiam a forma de adoração que Deus desejava. Mas todos esses detalhes não são escritos. O foco de Gênesis fica em dois indivíduos.

Primeiro, há Caim, nascido antes de Abel. Seu nome reflete o agradecimento de Eva por ter recebido um homem do Senhor – baseado no nome que ele recebeu, ela pode até ter acreditado que esse filho seria a semente que Deus prometeu em Gênesis 3.15, aquele que esmagaria a cabeça da serpente. Então vem Abel, e seu nome fala sobre a vaidade da vida humana após a queda – sua natureza fugaz, sua transitoriedade. Caim era fazendeiro, um homem que trabalhava no solo. Abel era pastor, um homem que criava gado.

Externamente, pelo menos, esses dois homens estavam cumprindo o chamado de Deus, o mandato que o Criador dera à humanidade – subjugar a terra, exercer domínio sobre toda criatura viva. Mas todos nós sabemos que as aparências enganam e as expectativas humanas são frequentemente derrubadas. Acontece que o homem que Eva se regozijou ao receber do Senhor revelou-se ser semente da serpente; e o homem cujo nome significa “vaidade” seria sua vítima, mas também seria lembrado ao longo da história como um homem de fé, como profeta, como alguém que, apesar de sua vida muito breve, uma vida que teve um final tão horrível, ainda fala conosco hoje.

Então, agora vamos falar sobre o primeiro homicídio na história. Primeiro, vamos olhar para os dois sacrifícios que levaram ao primeiro assassinato, e em segundo lugar vamos olhar para o resultado da aceitação de Deus do sacrifício de Abel, e sua rejeição de Caim.

O que levou Caim a matar Abel? O relato começa com sacrifícios, oferecidos “no fim de uns tempos,” conforme versículo 3 – que provavelmente significa a época da colheita. A palavra hebraica para sacrifícios nesta passagem é simplesmente a palavra “presente,” ou “oferta” – mais tarde na lei haveria diferentes tipos de ofertas – holocaustos, ofertas de expiação, ofertas de ação de graças, ofertas de comunhão, ofertas diferentes com propósitos diferentes. Mas a natureza desses sacrifícios, sejam eles destinados à expiação, oferecidos para efetuar a reconciliação com Deus, ou feitos como ofertas de gratidão, não é especificado aqui. Estas foram ofertas, presentes ao Senhor.

Caim era fazendeiro, então era natural para ele trazer ao Senhor o fruto do seu trabalho como sua oferta. E quando chegou a hora, foi exatamente o que ele fez. Ele trouxe ao Senhor uma oferta do fruto da terra, o produto do seu trabalho. Abel era o pastor. Então, ele trouxe ao Senho uma oferta tirada do seu rebanho – as primícias e a gordura – a parte melhor.

Os irmão apresentam suas ofertas. Mas de alguma forma, Caim, e presumivelmente Abel, são informados pelo Senhor que a oferta de Caim não foi aceitável, mas que o Senhor aceitou a oferta feita por Abel. Não aprendemos como Deus deixou isso claro para os irmãos. Algumas pessoas teorizam que o Senhor poder ter enviado fogo do céu para consumir a oferta que ele aceitou. Mas não lemos nada sobre isso. De qualquer maneira, o Senhor deixou claro a Caim que nem ele nem sua oferta eram aceitáveis a Deus, enquanto seu irmão e sua oferta eram.

A questão é: havia algo sobre a oferta em si que não era aceitável a Deus? Os comentaristas judeus, os rabinos, que eram muito propensos à especulação, acreditavam que Caim não oferecia o melhor de seus produtos – que ele oferecia espigas de milho estéreis ou meio cheias em vez das melhores, as primícias de sua colheita. Mas o texto não diz isso. Diz que Abel deu as melhore porções das primícias de seu rebanho e não descreve a oferta de Caim – então, pode haver uma sugestão disso, mas não é totalmente claro.

Outros argumentaram que a oferta de Caim não foi aceita porque não foi o tipo de sacrifício que Deus exigia – a oferta de Abel foi aceita porque foi sacrifício animal, e era necessário que o sangue fosse derramando para que a expiação fosse efetuada – para que a relação entre Deus e o homem seja restaurado. Mas essa é uma inferência extraída do texto que simplesmente não existe. Como mencionei anteriormente, a palavra usada para o sacrifício nesta passagem é a palavra “presente,” e isso poderia ser sacrifício de um animal ou de um produto. Não nos dizem que isso deveria ser sacrifício de expiação. Mais uma vez, há muito que não é dito no texto.

Mas uma coisa que lemos no texto faz com que a razão do Senhor para rejeitar o sacrifício de Caim seja muito mais fácil de entender. É na segunda parte do versículo quatro e na primeira parte do versículo cinco. “Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou.” Literalmente, o Senhor não olhou para Caim nem para sua oferta com benevolência, ao passo que contemplou Abel e sua oferta favoravelmente.

Por que o Senhor não aceitou a oferta de Caim? Não por causa do que Caim fez ou não sacrificou – mas porque o Senhor não aceito Caim! Por que ele aceitou a oferta de Abel? Novamente, não em primeiro lugar porque Abel ofereceu as porções da gordura dos primogênitos do seu rebanho, mas em primeiro lugar ele aceitou a oferta de Abel porque ele aceito Abel! João Calvino diz isso no seu comentário sobre esta passagem: “O forte cheiro de queima de gordura não poderia conciliar o favor divino aos sacrifícios de Abel; mas sendo impregnadas pelo bom odor da fé, eles têm sabor doce… Deus não considerará obras com favor exceto aqueles feitos por alguém que já é precisamente aceito e aprovado por ele.”

Nós julgamos pelas aparências; é a única maneira que podemos julgar. Não sabemos se as aparências de uma pessoa são apenas isso – aparências. Algumas pessoas são espertas em encobrir o mal que habita nelas, construindo uma máscara piedosa. Precisamos ter cuidado quando avaliamos os outros. Não devemos sempre presumir o pior, mas sabemos, como eu disse anteriormente, que as aparências enganam. Mas as aparências não enganam o Senhor. Salmo 44.21 diz que ele conhece os segredos do coração. Em Lucas 16.15, o Senhor Jesus disse aos fariseus:

“Mas Jesus lhes disse: Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração.”

E em Jeremias 17.10, o Senhor faz esta proclamação sobre si mesmo:

“Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações.”

O ponto é este: não foi o sacrifício de Caim que foi o problema – foi a pessoa que ofereceu o sacrifício. Claro, externamente Caim estava fazendo as coisas certas. Ele ofereceu o fruto de sua colheita ao Senhor. Em suas ações, ele estava se conformando com o que Deus queria e com o que seus pais e seus irmãos esperavam que ele fizesse. Seus irmão e irmãs, inclusive sua esposa, a propósito, e Adão e Eva, podem ter pensando que estava tudo bem com Caim. Mas o Senhor sabia melhor. Ele sabia que Caim era hipócrita e, por isso, rejeitou a oferta de Caim. E ao rejeitar o sacrifício de Caim, o Senhor estava expondo essa hipocrisia – e logo se tornaria muito claro para todos.

O sacrifício de Caim foi o primeiro a ser rejeitado pelo Senhor, mas certamente não seria o último. Ao longo da história do povo de Deus, haveria muitos exemplos de sacrifícios rejeitados. Os profetas falaram repetidas vezes sobre esses sacrifícios e por que o Senhor os odiava. Apenas alguns exemplos:

Isaías 1.11-17: “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? – diz o SENHOR. Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cavados e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniquidade associada ao ajuntamento solene. As vossas Festas da Lua Nova e as vossas solenidades, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer. Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas.”

Miquéias 6.6-8: “Com que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei ante o Deus excelso? Virei perante ele com holocaustos, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o SENHOR de milhares de carneiros, de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo, pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratique a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus.”

Jeremias 6.19-20: “Ouve tu, ó terra! Eis que eu trarei mal sobre este povo, o próprio fruto dos seus pensamentos; porque não estão atentos às minhas palavras e rejeitam a minha lei. Para que, pois, me vem o incenso de Sabá e a melhor cana aromática de terras longínquas? Os vossos holocaustos não me são aprazíveis, e os vossos sacrifícios não me agradam.”

Jeremias 7.21-24: “Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Ajuntai os vossos holocaustos aos vossos sacrifícios e comei carne. Porque nada falei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios. Mas isto lhes ordenei, dizendo: Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; andai em todo o caminho que eu vos ordeno, para que vos vá bem. Mas não deram ouvidos, nem atenderam, porém andaram nos seus próprios conselhos e na dureza do seu coração maligno; andaram para trás e não para diante.”

E finalmente, Oséias 6.6: “Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.”

Nenhuma obediência externa ao sistem de sacrifício, não importa quão meticulosa a obediência à letra da lei, poderia fazer com que Deus ignorasse o que realmente vivia em seu coração. Nenhuma quantidade de piedade superficial, nenhuma quantidade de obediência exterior, nenhuma religiao meramente externa, pode ser suficiente para Deus. O que importava para Caim e Abel, o que importava para Israel, o que importa para nós, é a fé. Hebreus 11.4 deixa isso muito claro:

“Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala.”

Suas ofertas foram aceitas, não porque foram apenas as ofertas certas, oferecidas da maneira certa – suas ofertas foram aceitas porque ele era justo – justo pela fé. Ele confiou em Deus. Ele acreditava em Deus. E sua obediência exterior, seu sacrifício, foi aceitável porque foi oferecido por um homem que realmente amou a Deus.

O Senhor Jesus chama Abel de profeta. Os fariseus, que trabalharam arduamente para se conformar com o menor ponto da lei, foram informados pelo Senhor que sua geração seria carregada com o sangue de todos os profetas, incluindo o sangue de Abel. Eles eram como Caim; exteriormente, faziam as coisas certas, mas no interior, no fundo, estavam podres – estavam longe do Deus cujo nome confessavam.

Irmãos, há um aviso importante aqui para nós. Nossa fé, nossa religião, não é apenas uma questão externa. Nossas ações externas são importantes, mas são importantes porque devem refletir o que vive dentro de nosso coração. A religião cristã não se baseia num conjunto de ações ou comportamentos esperados. Se nossas obras pudessem nos salvar, o sacrifício de Caim deveria salvá-lo. Os sacrifícios dos israelitas hipócritas nos dias dos profetas deveriam tê-los salvado; o dízimo das ervas deveria ter salvado os fariseus.

Mostramos nossa fé pela obediência aos mandamentos de Deus. Mas a obediência deve ser o fruto da fé, não substituto para ela. O obediência flui da fé, não é um fim em si mesmo. O sacrifício final da expiação foi oferecido, o sacrifício do Senhor Jesus Cristo, que deu Seu corpo, que deu a vida, como o cordeiro imaculado de Deus, em cumprimento de todo sacrifício de sangue que já havia sido oferecido pelo povo de Deus. Mas ainda nos sacrificamos hoje – não sacrifícios de sangue, mas ofertas de graças, dadas em gratidão ao Deus que nos salvou. Somos chamados a oferecer nossos corpos como sacrifícios vivos ao Senhor, para oferecer o sacrifício de louvor. O dinheiro que damos, o tempo que damos, a parte da nossa vida que damos para servir os outros e para servir ao nosso Deus – todos esses são os sacrifícios do cristão.

Mas nenhuma quantia de dinheiro, nenhuma quantidade de canto, nenhuma quantidade de vida externamente vivida em conformidade aos mandamentos de Deus enganará a Deus. Podemos enganar algumas pessoas durante algum tempo. Podemos enganar todas as pessoas durante algum tempo. Mas nunca vamos enganar a Deus a qualquer hora. Ele conhece nosso coração melhor do que nós mesmos. Ele conhece nosso ser mais íntimo. Fazer a coisa certa externamente pode evitar que você seja excomungado da igreja, mas não o levará para o céu.

Somente o sacrifício de Cristo, esse último sacrifício, tornará isso possível – reconciliação com Deus, perdão dos pecados, a vida eterna. E a única maneira que o sacrifício será eficaz para você é se você confiar nele, e somente nele. Abel foi considerado justo por causa de sua fé. E mesmo que ele tenha vivido milênios antes daquele último sacrifício, foi o sangue de Cristo que seria derramado que cobria seus pecados. Caim não teve parte nesse sacrifício, porque ele não teve fé. E isso foi demonstrado por Sua resposta à rejeição de Deus ao seu sacrifício.

Porque foi lá que a hipocrisia de Caim foi revelada para todo mundo ver. O Senhor havia procurado os pais de Caim quando eles se esconderam dele após a rebelião, e ele fez o mesmo por Caim. Caim ficou com raiva porque sua oferta não havia sido aceita, mas Deus não o deixou ignorante sobre o que ele deveria fazer para corrigir a situação. Ele questiona a raiva de Caim e então dá a Caim uma mensagem que é na verdade uma palavra de encorajamento, uma exortação para levá-lo a mudar sua vida. Ele seria aceito, seu sacrifício seria aceito, Deus diz, se ele fizesse o bem. Mas então vem o aviso. “Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (4.7). Caim teve que lutar contra o pecado que vivia em seu coração. Deus o estava chamando para combater o bom combate, o combate da fé, contra o pecado e o maligno, contra a serpente. Mas se ele recusasse, se deixasse o pecado entrar por aquela porta, esse pecado logo se tornaria seu mestre.

Caim teve a oportunidade de se arrepender. O mesmo vale para nós hoje – Pedro disse isto em 2 Pedro 3.9:

“Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pedro 3.9).

Se Caim se humilhar diante de Deus, se ele não tinha apenas se ressentido da rejeição de Deus ao seu sacrifício, se ele não tivesse atacado seu irmão por causa da inveja sobre o sacrifício que foi aceito, se ele tivesse se arrependido, seu próximo sacrifício teria sido aceito, e tudo estaria certo entre ele e seu Criador.

Mas a resposta de Caim a Deus deixa muito claro que seu coração não estava certo com Deus. Em vez de se arrepender de sua raiva, de sua hipocrisia, ele permite o pecado entrar pela porta, permitindo o pecado tome conta dele. No campo, longe de qualquer outra pessoas, e talvez Caim tenha pensado, longe dos olhos de Deus, Caim atacou seu irmão e o matou. Ele não é mais hipócrita; ele deixou bem claro por suas ações que ele se ressente de Deus, que ele não quer nada a ver com Ele, ou seus mandamentos, ou suas promessas. Por sua rejeição do sacrifício de Caim, o Senhor está, na verdade, forçando Caim a se revelar. E em vez de olhar para dentro, em vez de se examinar e responder à palavra graciosa de Deus com fé obediente e arrependida, ele tira sua raiva e frustração de seu irmão justo e inocente.

E novamente, o Senhor procura Caim, mais uma vez com uma pergunta, assim como as perguntas que havia feito a Adão e Eva depois de terem comido o fruto proibido. E Caim responde com uma mentira e com uma pergunta que revelam a profundidade de sua maldade. Eu não sei onde ele está, diz Caim a Deus, como se ele pudesse de alguma forma enganá-lo. Sou eu tutor do meu irmão?

De fato, sim, ele era o guardião de seu irmão. Mesmo sem pegar um porrete e esmagar a cabeça de Abel, ou pegar algum objeto afiado e esfaquear até a morte, Caim já havia cometido assassinato em seu coração, recusando-se a reconhecer que ele era o guardião de seu irmão, que ele deveria ter, como nosso catecismo diz em sua explicação do sexto mandamento, procurado o bem de seu irmão onde quer que pudesse, da maneira que fosse possível.

Então o pecado é piorado pela negação e a expressão da atitude perversa que levou ao assassinato em primeiro lugar. E agora a paciência de Deus chegara ao fim. Caim deixara bem claro qual lado ele escolhera. O pecado desejava controlá-lo, e agora aconteceu; Caim não queria governar o pecado, então agora o pecado governou ele. Ele abraçõu a escuridão e abandonou completamente a luz de Deus. Ele teve sua oportunidade, mas agora o tempo para uma segunda chance passou. Tudo o que restou para Caim foi a maldição. Ele seria amaldiçoado da terra que engoliu o sangue que ele havia derramado. O solo já havia sido amaldiçoado por causa do pecado de seu pai, mas agora a maldição se multiplicava para o filho. O solo não mais renderia sua força a Caim. Ele seria fugitivo, errante, na terra.

Caim se arrepende agora, tendo percebido sua maldade? Não. Em vez de cair de rosto em arrependimento diante do Senhor, ele se queixa da extensão de sua punição. Ele teme que a mesma coisa que ele fez a seu irmão possa ser feita a ele. Ele teme que um de seus muitos irmãos o encontre e o mate em retribuição pelo que ele fez a Abel.

Mas o Senhor pôs uma marca em Caim. Qualquer que fosse a marca, deixaria claro que Caim não deveria ser tocado. Isso não foi ato de misericórdia da parte de Deus; não era Deus derrubando uma sentença de morte, como se uma sentença de morte fosse o pior castigo possível para Caim. Este foi outro ato de julgamento, condenação adicional, sentença adicional. Caim foi amaldiçoado a viver o resto de sua vida natural como errante, longe da presença do Senhor, a leste da terra prometida, na terra de Node, a terra dos errantes. Ele não seria capaz de escapar de sua culpa. Ele não teria descanso das acusações de sua consciência. Ele fora excluído da comunhão com Deus, e o resto de sua vida e a vida de sua família seriam vividos a partir dessa horrível realidade.

Não sabemos quantos anos Abel tinha quando morreu; mas este fiel homem de Deus, este profeta, não foi abençoado com uma vida que durou tanto quanto a vida de seu irmão perverso. Mas sua curta vida foi vivida em paz. Ele era peregrino na terra, mas vivia em fé, ansioso, como Abraão esperaria muitos anos depois, para uma cidade duradoura. Caim foi amaldiçoado a viver uma vida longa, longe da presença de Deus, uma vida como andarilho que não teria paz. Esse foi o resultado do seu pecado. Esse foi o resultado de sua rejeição da graça de Deus. Esse é o resultado para qualquer um, até hoje, que rejeita o chamado de Deus, que se recusa a humilhar-se diante deste Deus, que se recusa a obedecer-lhe em gratidão por essa graça.

E assim também nos advertem, meus irmãos. Esta manhã fomos encorajados pela mensagem da graça de Deus. Se nos examinarmos, e se nos lembrarmos de nossas deficiências, ou mesmo se tivermos revelado nossa hipocrisia, receberemos o mesmo chamado de graça que o Senhor deu a Caim – se você se sair bem, se confie no Senhor, se você o ama, será aceito, por causa de Seu Filho, por Sua graça. Mas para aqueles que se recusam a arrepender-se, para aqueles que ficam de costas quando são chamados ao arrependimento, para aqueles que rejeitam Deus e se rebelam contra o o Todo-Poderoso Criador dos céus e da terra, a única coisa que podem esperar é o julgamento.

E esse julgamento é terrível, julgamento a ser temido. É uma sentença que consiste não apenas numa vida vivida como fugitivo e errante nesta terra, mas uma sentença perfeita, justa e certa – a eternidade de existência fora da presença amorosa e protetora de Deus, a eternidade de existência na presença da sua santa e perfeita ira.

É isso que todos nós merecemos. Mas Deus é paciente conosco, e ele chama todos nós, todo ser humano na terra, a se arrependerem. Ele nos chama para deixamos nosso pecado e nos voltarmos para o Senhor Jesus Cristo, que possibilitou a salvação – para Abel e para nós. Volte-se para ele; você viverá esta vida como peregrino e estrangeiro, no mundo pecador. Você nunca se sentirá verdadeiramente em casa no mundo manchado pelo pecado desde antes do primeiro homicídio. Você pode ser marginalizado e oprimido e perseguido pelos Cains deste mundo, mas você sempre viverá em paz – paz definitiva, a paz de Jesus Cristo, para sempre.

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Jim Witteveen

Pastor missionário das igrejas reformadas do Brasil e diretor do Instituo João Calvino.