Sermão preparado por Lúcio Manoel
Leituras: Gênesis 03.1-19; Dia do Senhor 06
Texto: Gênesis 03.15

Amada Igreja do Senhor Jesus Cristo

Essa pregação vai falar sobre as duas naturezas do Salvador e sobre os benefícios que obtemos por meio do Salvador Deus-homem.

O assunto das duas naturezas do Salvador aparece nos Domingos 5 e 6 do Catecismo de Heidelberg. O Domingo 5 termina falando sobre a necessidade de um Mediador que seja Deus e homem ao mesmo tempo e o Domingo 6 segue explicando como as duas naturezas do Mediador trabalham juntas para o benefício da igreja.

E o que está no centro da obra do Mediador Salvador? A morte. Isso explica por que o Salvador tinha de ser homem e Deus ao mesmo tempo.

Quando lemos Gênesis 2.16,17 ficamos sabendo sobre o mandamento que Deus deu a Adão e sobre o castigo que Adão receberia se desobedecesse o mandamento: “de toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia que dela comeres, certamente morrerás” – Outra leitura possível para a última expressão deste versículo é “começando a morrer, morrerás”

Gênesis 3 registra que Adão e Eva não obedeceram a voz de Deus, comeram do fruto da árvore proibida e começaram a morrer. Em Gênesis 5.5, a Palavra de Deus confirma a morte consumada de Adão. E desde então, toda a raça humana prova a morte por causa do pecado (Rm 5.12).

Mas em Gênesis 3.15 Deus faz uma promessa de redenção ao casal e aos seus descendentes. Essa promessa surge no contexto da maldição de Deus à serpente e aos seguidores dela ao longo de toda história:

“Porei inimizade entre ti (serpente) e a mulher; entre a tua semente e a semente dela (da mulher). Ele te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”.

O texto hebraico usa a palavra feminina semente, tanto para falar da descendência da serpente como da descendência da mulher. No entanto, o texto hebraico sugere que um descendente da mulher, específico, ferirá a cabeça da serpente. O pronome masculino “ele” é acrescentado para restringir a semente da mulher a um homem específico, entre todos os seus descendentes.

Esse detalhe da promessa é confirmado pela antiga tradução do Hebraico para o Grego, conhecida como Septuaginta, que usou especificamente o pronome masculino singular “ele”, para se referir a um homem”.

Rastreando a Promessa Mãe de Gênesis 3.15 no restante da Bíblia, confirmamos que um descendente homem feriria a cabeça da serpente (CB 18). Um homem nascido de uma virgem (Is 7.14; Mt 1.21-23); da descendência de Abraão (Gl 4.4; Hb 2.16); da tribo de Judá (Mt 2.5; Hb 7.14) da casa de Davi (Is 11.1; Jr 33.15; Rm 1.3).

Em Gálatas 3.16, Paulo identifica precisamente o descendente prometido com Jesus, o descendente de Abraão. Seria Jesus, o homem verdadeiro e justo quem feriria a cabeça da serpente.

Ainda observando Gênesis 3.15, percebemos um contraste: ele te ferirá a cabeça versus tu lhe ferirás o calcanhar. Algumas versões da Bíblia em Português, como a Bíblia de Jerusalém, traduziram as sentenças diferentemente: ele te esmagará a cabeça versus tu lhe ferirás o calcanhar.

Mas a mesma palavra ferirás é usada nas duas sentenças. O que muda é a região onde o golpe será dado. O golpe que o descendente da mulher dará na cabeça da serpente será mortal, permanente e irrecuperável.

A Bíblia continua usando a linguagem de contraste entre o homem e a serpente. A Escritura mostra a superioridade do homem sobre a serpente. Efésios 1.22 e 5.23 apresentam Cristo como a Cabeça da igreja. Mas quando a Bíblia fala sobre a cabeça da serpente, mostra ela esmagada debaixo dos pés dos crentes (Romanos 16.20 ).

Em Mateus 16.18 e Lucas 10.19 Jesus promete que se os crentes pegarem em serpentes ou se forem picados por elas nada vai lhes acontecer. E em Apocalipse 20.2 o diabo, antiga serpente, é subjugado (Ap 20.2).

Ao longo das eras, a serpente continua infringindo danos à raça humana. Seu veneno continua matando e arrastando multidões de pecadores para o inferno. A serpente também feriu o calcanhar do Salvador.

O Salvador teve de suportar a dor do castigo infernal por causa dos pecados da raça humana. Ele esvaziou o cálice da ira de Deus até a última gota. Ele provou o abandono e o silêncio das trevas na solidão da cruz. O Salvador morreu.

Parecia que satanás é que tinha ferido a cabeça de Jesus. A esperança de redenção parecia ter morrido junto com o Salvador. Até os discípulos que deixaram Jerusalém e voltaram para a sua cidade, agiram como se a serpente tivesse vencido o Salvador (LER Lucas 24.17-21).

Mas não foi isso que aconteceu. A morte de Jesus não significou a vitória da serpente, mas precisamente o golpe mortal do Salvador na cabeça da serpente.

Na cruz, o Salvador matou a inimizade (Ef 2.16). Na cruz, Ele reconciliou o que estava em guerra com Deus (Cl 1.20). Na cruz, Ele anulou a nossa dívida e venceu os principados e potestades (Cl 2.13,14). Na cruz, Ele venceu o diabo e seus seguidores (Hb 2.14; Ap 17.14). Na cruz, o Salvador deu o golpe que deixou a serpente agonizando.

E aqui entendemos porque o Salvador deveria ser um homem verdadeiro e justo. Ele precisava ser homem para provar a morte; Ele precisava ser homem para salvar outros homens; Ele precisava sofrer no corpo e na alma para redimir corpo e alma de pecadores como eu e você.

A morte não foi sinal da derrota do Salvador. A morte Dele foi planejada na eternidade (Ap 13.8); sua morte foi profetizada na Escritura (Salmo 16.9,10,11; 49.7,8); ela aconteceu do modo previsto, por crucificação (Gl 3.13); a morte do Salvador não foi um desastre, mas ela cumpre cabalmente o plano de Deus (1Co 15.3,4).

Mas a Promessa Mãe de Gênesis 3.15 prometia mais que um homem verdadeiro e justo, que provasse a morte em favor de pecadores. Ela também prometia um Salvador que fosse ao mesmo tempo Deus verdadeiro para que vencesse a morte em favor de pecadores.

A missão do Salvador era difícil. Ele teria de enfrentar adversários poderosos. Ele teria de vencer o Diabo e a morte. Qual mortal teria poder para isso? Nem mesmo um homem justo, sem pecado, poderia vencer a morte. Somente Deus pode vencer a morte.

Jesus é o Salvador mais poderoso do que qualquer criatura. Ele é homem justo, mas também é Deus verdadeiro. Pelo poder da sua divindade Ele “rompeu os grilhões da morte, porque não era possível que fosse ele por ela retido” (At 2.24).

O Salvador se deixou ser ferido pela serpente, por amor a vocês, irmãos. Mas o veneno da serpente fez efeito por apenas três dias. Depois de três dias, pelo poder da sua divindade, Cristo ressuscitou. Ele rompeu as cadeias da morte, levantou-se da sepultura e triunfou sobre o diabo, tomando-lhe as chaves da morte e do inferno (Ap 1.18).

A serpente ainda não foi totalmente destruída, mas está agonizando. Sua cabeça já foi golpeada mortalmente, mas seu veneno ainda mata muita gente.

Mesmo vocês ainda tem de sentir o efeito do veneno. Vocês podem até morrer por causa desse veneno. O pecado é um mal que vai incomodar os crentes até a morte. Mas não se desespere, porque o Salvador venceu a morte por vocês (1Jo 5.18). Em breve, Ele vai arrancar completamente o veneno que ainda causa mal a vocês. Ele vai transformar o corpo mortal de vocês para ser semelhante ao corpo Dele.

Quando o Senhor vier na glória celestial, não vai ter mais serpente para morder você. Porque o Senhor lançará no lago de fogo eterno, satanás, a antiga serpente, e todos os que escolheram espalhar o seu veneno (Ap 20.10,14,15).

Mas a igreja, redimida do cativeiro da morte, em corpo e alma, pela obra do Salvador que é Deus-homem, viverá com Ele para todo sempre (Ap 11.5). Amém.

_____________________________________________________________________________________________________

* Exceto onde o contrário esteja explícito, todos os conteúdos deste site estão licenciados sob uma Licença Creative Commons “Atribuição – Não Comercial – Sem Derivados 3.0 Não Adaptada“.

** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

Compartilhe!

Pr. Lucio Manoel

Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil.