Pregação preparada pelo Pr. Abram de Graaf

Leitura: Êxodo 18

Texto: Êxodo 18:17-23

Queridos irmãos em Jesus Cristo,

O nosso texto nos mostra como UMA VISITA pode ser uma benção para o povo de Deus. É muito bom quando outras pessoas qualificadas visitam o trabalho e observam o que está acontecendo e dão a sua opinião sobre isso; de vez em quando isso acontece aqui na escola: um inspetor ou outro diretor visita a escola, observa o trabalho e depois disso ele dá as suas observações. Quem vem de fora, vê melhor.

Por isso é bom quando a igreja recebe uma visita eclesiástica; dois pastores visitam a igreja para ver como tudo está andando. Eles se reúnem com o grupo do treinamento e podem fazer várias perguntas assim tem uma idéia de como a igreja está funcionando. E depois disso, eles podem dar as suas observações para melhorar a vida eclesiástica. Como já disse: quem vem de fora, vê melhor.

Um bom exemplo disso é o nosso texto, que fala no primeiro lugar sobre a visita familiar de Jetro, o sacerdote de Mídia, o sogro de Moisés. Jetro visitou Moisés para trazer-lhe a sua mulher e os seus filhos. Mas enquanto ele estava na casa de Moisés, ele observou o trabalho de Moisés. E observando isso, ele fez certas observações para ajudar Moisés e propôs uma reforma na justiça.

Moisés reforma a justiça em Israel

  1. A necessidade desta reforma: o desgaste de Moisés e do povo;
  2. O resultado desta reforma: homens capazes no meio de todo o povo;

O Êxodo 18 poderia ser um relatório de uma visita eclesiástica, pois neste capítulo encontramos as observações de um visitador. O sogro de Moisés, Jetro, viu como Moisés ficou sobrecarregado com o trabalho na congregação. Desde o início do dia até a noite, Moisés está ocupado com o governo da igreja. Havia muitos problemas e conflitos, então ele se assentou para fazer justiça: ele se assentou na sua tenda para ouvir os problemas, analisar os conflitos, para julgar as pessoas e para ensinar os mandamentos e os estatutos de Deus. E fora da tenda havia uma fila enorme: as pessoas estavam esperando por horas e horas para falar com Moisés. E isso não aconteceu só um dia por semana, ou um dia por mês, mas TODOS OS DIAS! TODOS OS DIAS de seis de manhã até – vamos dizer – seis horas da noite.

Por isso, Jetro, observando isso, disse: “Que é isto que fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até o pôr do sol?”. E Moisés reage como a maioria dos líderes: ele começa a se defender e ele acha que ele é a única pessoa que pode fazer isso. Ele disse: “É porque o povo vem A MIM para consultar a Deus; quando tem alguma questão, vem A MIM, para que EU julgue entre um e outro e lhes declare os estatutos de Deus e as suas leis”. Presta atenção, quantas vezes ele fala sobre si mesmo! Isso acontece muito com várias pessoas, muitas vezes sem saber: uma pessoa começa com um trabalho. Ela gosta e no início ela consegue controlar tudo. Mas o trabalho cresce devagar e fica cada vez mais pesado. O desgaste é cada vez mais. Mas a pessoa continua, pois ela foi chamada para fazer este trabalho e não há nenhuma outra pessoa que pode substituí-la. Uma pessoa continua com a idéia que é insubstituível; ela continua, continua, continua, até que não pode mais.

É isto o que o sogro estava observando. Ele disse a Moisés: “Não é bom o que fazes. Sem dúvida desfalecerás, tanto tu como este povo que está contigo; pois isto é pesado demais para ti. Tu só não o podes fazer”. Já disse, irmãos, “Quem vem de fora, vê melhor”. É interessante para observar que o homem que trabalha, tem uma tendência para ficar profissionalmente CEGO a respeito do seu trabalho. Ele observa somente o seu trabalho, que está acumulando e se dedica cada vez mais para resolver os problemas; ele se concentra tanto nisso, que não observa mais as demais conseqüências: o desgaste físico; o desgaste na sua família; o desgaste nas suas amizades.

Por causa disso é bom quando uma pessoa, que vem de fora, observará o seu trabalho e dá a sua opinião. Uma tal pessoa pode ser a sua esposa, mas muitas vezes, quando o homem já está estressado, ela recebe um “cala boca”, pois parece que ela dá a sua opinião com certo interesse, querendo mais atenção, enquanto ela age só com amor, observando o desgaste do seu marido. Uma esposa sempre vê muitas coisas e é bom parar e pensar, se ela dá sinais! Mas o melhor é quando uma pessoa profissional observará o trabalho e dará a opinião dela. O sogro de Moisés era tal pessoa. Ele era sacerdote e com certeza ele tinha certa experiência, liderando o povo de Mídia. Não sabemos, se o sogro deu o conselho dele com certo interesse, pensando no desgaste da vida familiar da sua filha, que era a esposa de Moisés. Em todo caso, Moisés não foi tal teimoso, que negou a critica do seu sogro. E Moisés não foi tal orgulhoso, que não quis mudar o sistema da justiça.

Moisés podia facilmente ter dito: Não posso mudar o sistema! Deus ME ordenou e EU devo cumprir a MINHA tarefa. EU não posso compartilhar o meu trabalho com outras pessoas, pois EU sou ordenado e não o resto da congregação. EU sou o único oficial aqui, então não posso distribuir tarefas. Prestem atenção, irmãos, que Moisés não disse isso. Ele observou a sabedoria nas palavras do seu sogro e começou a reforma da justiça em Israel. Ele reorganizou o sistema da justiça para que funcionasse melhor. Pois o desgaste não foi só para ele, mas também para o povo. Se continuasse assim, ele não serviria ao povo, mas a si mesmo. E no final das contas devemos dizer que uma pessoa teimosa, que quer fazer tudo e que não pode delegar, não serve bem, pois ela pensa só em si mesmo; ela não pensa no futuro do trabalho: o que acontecerá se esta pessoa enfraquecerá por causa do peso do trabalho, ou até falecerá? Naquele momento não haverá ninguém que pode substituí-la. O trabalho sofrerá muito por causa disso. Os servos do Senhor devem pensar nisso. Não só pensar em se mesmo, mas pensar NO TRABALHO DO SENHOR E NO BEM ESTAR DO POVO DE DEUS. Moisés pensou nisso. Ele adaptou o sistema da justiça à situação do povo. Uma reforma pratica. O princípio fundamental não mudou: a justiça será feita pela Palavra de Deus. Moisés foi o único mediador entre Deus e o povo. Ele recebia a Palavra de Deus. Deus lhe aconselhou no seu trabalho. E isso continuará, mas a aplicação desta justiça será diferente. Não mais por uma pessoa só, mas agora por um grupo de pessoas, que estão ligadas com Moisés num sistema hierárquica. A sabedoria e o conhecimento de Moisés se derramarão do centro aos laterais pelos chefes de mil, de cem, de cinqüenta e de dez. Então todo povo terá acesso à justiça. Todo sistema servirá o bem estar do povo. E todo sistema servirá a Justiça de Deus no meio do povo.

Moisés viu isso. Ele não pensou em si mesmo, mas no bem estar do povo de Deus. Ele é um servo de Deus, que procura a honra de Deus e que proclama a justiça de Deus, que estabelece uma boa ordem e paz no povo de Deus. Por isso não houve muito receio do lado de Moisés. A história da igreja nem sempre mostrou esta sabedoria. Muitos líderes têm uma tendência de manter a estrutura e organização da igreja, até quando a situação da igreja muda tanto, que a estrutura não mais funciona bem. A história do povo de Deus nos mostra que houve vários tipos de governo; e que há varias maneiras de exercer este governo.

O Princípio principal na igreja deve ser que DEUS governa o seu povo. Podemos observar isso nesta historia também. DEUS governa o seu povo e Ele usa Moisés para revelar a sua vontade. Deus deu os seus mandamentos a Moisés, e Deus encontrou e aconselhou Moisés. E Moisés passou o ensino do Senhor ao povo. E isso fica assim. Este princípio não muda. O que muda é o caminho. Não mais diretamente por Moisés, mas agora via Moisés e os juízes, que são dependentes de Moisés.

As coisas pequenas e simples serão tratadas pelos chefes de dez e os casos mais complicados serão levados para os chefes de cinqüenta, de cem ou de mil. E se eles não podem resolver o caso, eles buscarão Moisés, que aconselhará a Deus, que é o supremo Juiz. Assim Moisés criou uma escala de conhecimento e experiência. Talvez uma pessoa pensará: mas ele criou um sistema de HIERARQUIA!!!

A história nos mostrou que tal sistema tem o seu lado forte, mas tem também muitas fraquezas. Como devemos avaliar este sistema que Moisés criou? Talvez seja melhor dizer: como Deus avaliou este sistema? E como o povo avaliou este sistema? Sabemos que o povo aprovou este sistema. Moisés deu uma avaliação desta reforma em Deut. 1,9-18. E ali ele disse (vs. 14) que o povo aprovou o projeto, dizendo: “É bom cumprir a palavra que tens falado”. E com certeza Deus mesmo aprovou o projeto. Pois , se não, Ele com certeza teria dito isso a Moisés.

O problema, irmãos, não está no sistema, que é hierárquico, mas o problema está nos homens, que ocupam o escalão hierárquico. A corrupção não vem do sistema, mas dos homens. Assim podemos dizer: o sistema jurídico aqui no Brasil é bom. Este sistema parece com o sistema que Moisés criou. Temos os tribunais de justiça em várias cidades, temos os tribunais estaduais nas capitais dos estados, e temos os tribunais federais, temos também o supremo tribunal. Esse sistema parece com o sistema da Bíblia e talvez seja baseado neste sistema. Agora, aqui no Brasil podemos observar muitas fraquezas nesse sistema. Problemas, que são causados por pessoas. Pessoas corruptas. O sistema não é mal, mas as pessoas são más. E qualquer sistema sofre por causa disso.

Por isso é bom prestar atenção às exigências, que a Palavra de Deus nos ensina para escolher as pessoas adequadas para estas tarefas. Moisés deve procurar entre o povo homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza; Esses homens devem ser capazes. A bíblia usa aqui a palavra ‘VIRTUOSO’. A mesma palavra que é usada em Provérbios 31 onde se fala da mulher virtuosa. Ela é uma mulher enérgica, honesta, justa, misericordiosa e temente a Deus. E seu marido é estimado entre os juízes, quando se assenta com os anciãos da terra. Os Provérbios em capitulo 31 falam sobre a MULHER VIRTUOSA. Aqui se trata do homem VIRTUOSO. Ele é um homem enérgico, honesto, justo, misericordioso e temente a Deus. Este último aspecto é fundamental, pois este foi dito explicitamente: ele deve ser TEMENTE A DEUS. Um homem como Jô.

E ele deve ser um homem da verdade. Quer dizer: ele deve amar a verdade e falar a verdade. Ele deve ser transparente e integro. Um homem digno de confiança; Não uma pessoa que fala com duas línguas. Um momento dizendo ‘sim’ e o outro momento dizendo ‘não’. Ele deve falar a verdade e esta verdade é uma verdade para todos. Ele não diz isso para o pobre e aquilo para o rico. Ele não faz uma justiça de classes e ele não deixa se impressionar por amizade ou por ameaças.

E finalmente, ele não deve ser cobiçoso, sensível para presentes, dinheiro, ou suborno. Pois o suborno cego os olhos dos sábios e subverte a causa dos justos, diz Moisés em Deut. 16,19. Quando as pessoas pensam em si mesmo e quando o objetivo delas é ganhar mais dinheiro, a corrupção é inevitável. Em redor delas encontra-se uma rede de suborno e assassinos, mas quem odeia o suborno, esse viverá, diz Prov. 15, 27. Estes são os pontos principais para proteger o caminho da justiça. E vendo isso e comparando isso com a nossa realidade queríamos que todos os juízes fossem assim. E não somente os juízes, mas também todos os políticos. Pois não somente o poder jurídico deve ser assim, mas também o poder legislativo. Mas pensando nisso e observando a prática no nosso país, nós pensamos na preocupação do rei Lemuel, que disse (Prov. 31, 10): Mulher virtuosa, quem a achará? É difícil achar uma mulher virtuosa. Mas é também difícil achar um homem virtuoso. Então, imagine?! Como encontrar mil homens virtuosos???? Isso é só possível quando Deus mesmo providenciará estes homens. Quando Deus capacitará tais homens pelo seu Espírito Santo. Moisés era um tal homem. E Cristo também era um tal homem. Ele foi superior a Moisés. Até os adversários admitiram isso e disseram: “Mestre, sabemos que falas e ensinas retamente e não te deixas levar de respeitos humanos, porém ensinas o caminho de Deus segundo a verdade”. Devemos seguir o exemplo dele, irmãos.

Hebreus 3 deixa claro que Jesus substituiu Moisés. Moisés era fiel em toda casa de Deus. Moisés era um fiel servo na casa de Deus, mas Jesus Cristo é superior, pois ele é o Filho de Deus. Ele –mais uma vez – reformou a vida do povo de Deus. Ele fez também uma reforma e deu apóstolos e evangelistas, pastores, mestres e presbíteros para o desempenho do seu serviço e para a edificação da sua igreja (Ef. 4). Estes homens também devem ser VIRTUOSOS, TEMENTES A DEUS, HOMENS DE VERDADE, NÃO AVARENTOS! Devemos orar para isso:
QUE DEUS FORTALEÇA ESSAS QUALIDADES NOS HOMENS QUE TEMOS NA NOSSA IGREJA E QUE DEUS NOS DÊ AINDA MAIS HOMENS QUE SÃO ASSIM!NÃO SOMENTE PARA GOVERNAR A NOSSA IGREJA, MAS TAMBÉM PARA GOVERNAR ESTE PAÍS. SEJA DEUS MISERICORIOSO! Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

*** Encontre mais sermões do Pr. Abram de Graaf em: bramdegraaf.com

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Pr. Abram de Graaf

O pastor Abram de Graaf é “Doctorandus” (Drs) em Teologia e um dos professores do Instituto João Calvino (Aldeia, Camaragibe-PE). Ele é pastor da Igreja Reformada de Hamilton, Canadá, enviado como missionário às Igrejas Reformadas do Brasil, desde o ano 2000. É Diretor do Projeto Dordt-Brasil. Ele mora em Maceió e também desenvolve projetos nessa cidade.

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