Sermão preparado pelo pastor Jim Witteveen
Leitura: Eclesiastes 08.01-17
Texto: Eclesiastes 08.01-17

Amada Congregação de Nosso Senhor Jesus Cristo,

Quando somos parados pela polícia por uma infração de trânsito, há pelo menos duas maneiras possíveis de responder. A primeira opção é provavelmente muito tentadora para alguns de nós – quando o policial se aproxima de seu carro e diz qual é o problema, você começa a reclamar, como o que o policial está fazendo é crime, como ele está somente coletando dinheiro para o governo, roubando do povo, etc. Eu poderia continuar. Essa é uma maneira de responder.

Então há outra maneira de responder ao policial – em humildade. Se você foi parado porque quebrou a lei, você quebrou a lei. Não há como evitar esse fato. Você estava infringindo a lei. Pode ser que a lei seja injusta. A polícia poderia estar mais preocupada em coletar dinheiro de multas do que com a segurança pública, mas as regras são as regras. Você infringiu a lei e merece pagar o preço.

Então você responde com humildade. Sim, senhor, entendo que quebrei a lei. Sim, senhor, foi meu erro. Sim, senhor, farei o meu melhor para obedecer as regras. Sim, senhor, eu mereço essa multa.

Agora, qual destes infratores você acha que sairá dessa situação, o melhor dos dois?

Claramente, a resposta é respondedor #2, que responde ao oficial com humildade, reconhecendo seus erros. Ele ainda pode questionar o quão legítima é a tática da polícia, ou a legitimidade da lei, mas ele entende que não vai ganhar nada sendo beligerante, porque o policial representa as autoridades do governo e, portanto, tem a palavra final sobre se ele será multado ou não, e porque atacar o policial com certeza não vai trazer benefícios ao infrator, seja no presente, seja no longo prazo. Quem sabe, se você é gentil com o policial, se você honestamente reconhecer sua violação da lei, você pode simplesmente sair com um aviso! E, quer você tenha recebido ou não a multa, tratou as autoridades ordenadas por Deus com o respeito que elas merecem, em virtude do ofício que receberam de Deus.

Eclesiastes 8 tem muito para nos ensinar a esse respeito – como lidamos com pessoas e instituições que têm autoridade sobre nós? Como reagimos quando as autoridades parecem estar abusando de sua autoridade? Qual o caminho da sabedoria para lidar com pessoas que têm poder, com pessoas em posições de autoridade.

Salomão está nos dando um caso exemplar, por assim dizer, sobre o valor temporal da sabedoria. No capítulo anterior, Salomão forneceu alguns dos benefícios da sabedoria. Nós versículos onze a doze, ele escreveu: “Boa é a sabedoria, havendo herança, e de proveito, para os que vêem o sol. A sabedoria protege como protege o dinheiro; mas o proveito da sabedoria é que ela dá vida ao seu possuidor.” E então, em versículo 19, acrescenta: “A sabedoria fortalece ao sábio, mais do que dez poderosos que haja na cidade.” Claramente, a sabedoria tem suas vantagens, seu valor em simplesmente lidar com os desafios que enfrentamos nessa vida. A sabedoria não é tudo, mas é como dinheiro – com certeza ajuda!

Então, neste mundo, distorcido e bagunçado como é, cheio de pessoas que são distorcidas e confundidas pelo pecado, como devemos viver com sabedoria? E, particularmente, como devemos viver sabiamente em relação às pessoas que têm autoridade sobre nós? Este é o assunto que Salomão examina neste capítulo.

Regra #1 é, e tudo o resto surge dessa regra, “Observa o mandamento do rei.” Faça o que ele diz. Não se revolte contra ele, não tente fazer do seu próprio jeito – simplesmente obedeça.

Por quê? Nossa tradução diz, “Por causa do teu juramento feito a Deus.” Mas há tantas maneiras diferentes de entender a segunda parte do versículo 2 quanto há traduções diferentes. É ambíguo – pode ser o juramento de Deus, pode ser o juramento do rei, pode ser seu juramento ao rei, ou seu juramento a Deus. Na verdade, simplesmente não sabemos.

E então, em versículo 3, nossa tradução diz, “Não te apresses em deixar a presença dele, nem te obstines em coisa má, porque ele faz o que bem entende.” Pode ser que Salomão está dizendo: “Sai rapidamente a fim de obedecer rapidamente,” ou ele pode estar dizendo: “Saia quando o rei rejeitar seu conselho, para que ele não veja sua raiva.”

Então, para nós, existem ambiguidades nesses versículos – podem não ser intencionais, mas elas constituem um ponto importante, à luz do que já aprendemos sobre as limitações da sabedoria em Eclesiastes. Elas deixam claro que a sabedoria em lidar com o rei, e com nossos superiores em geral, não é apenas uma questão simples sobre como podemos suceder nessa vida. A sabedoria nos ajuda, mas não apresenta uma resposta exata para todas as situações. Você responde ao tolo de acordo com sua loucura, ou você não responde ao tolo de acordo com sua loucura? A sabedoria mostra qual abordagem adotar em determinada situação, mas não nos fornece detalhes exatos sobre como devemos aplicar esse conselho.

Depois de nos dizer para obedecer ao rei, porque a palavra do rei é lei, Salomão dá uma razão para este conselho, em versículo cinco: “Quem guarda o mandamento não experimenta nenhum mal; e o coração do sábio conhece o tempo e o modo.”  E mais uma vez há uma ambiguidade aqui. Se você guardar o mandamento do rei, você não experimentará nenhum mal. Mas isso significa que você mesmo evitará suas próprias más ações? Ou que você evitará as consequências do mal que vêm da desobediência? De novo, poderia ser os dois. De qualquer forma, o mal será evitado se você reconhecer a autoridade instituída por Deus, respeitar essa autoridade e reconhecer seu próprio status. Pense no exemplo da multa que você recebeu do policial. Respondendo ao policial com respeito, você evitará o mal – tanto o mal que está sendo feito para você quanto você fazendo o mal contra as autoridades ordenadas por Deus.

Ficamos irritados com restrições e leis e regras, especialmente quando essas regras parecem não fazer sentido. Quer estejamos falando de um professor, um pastor, um prefeito, ou de um presidente, há pouco respeito pela autoridade hoje em dia – há pouco respeito pelo ofício de uma pessoa. Respeito, muitas vezes é dito, deve ser ganho. Mas a Bíblia não ensina isso para aqueles que estão em posições de submissão. Há instruções dadas aos que governam, mas essas instruções são destinadas àqueles que estão sendo governados. E muito simplesmente, independente das qualificações pessoais da pessoa em autoridade, ou a falta delas, essa pessoa é digna do nosso respeito e obediência, simplesmente em virtude do fato de que ela tem essa posição de autoridade. Nenhuma outra razão é necessária.

Um policial tem autoridade porque lhe foi entregue. Um pai tem autoridade porque lhe foi dada. Um presbítero na igreja tem autoridade porque lhe foi dada. Um rei tem autoridade porque lhe foi dada. E em todos os casos, o doador dessa autoridade é aquele que tem a autoridade máxima, Deus. Então, basta dizer, “Obedeça o rei.” Você pode ficar chateado com essa autoridade, mas é autoridade divina. Então, obedeça. Porque “quem guarda o mandamento não experimenta nenhum mal; e o coração do sábio conhece o tempo e o modo.”

Mas, ao mesmo tempo, toda a autoridade humana tem seus limites, e toda autoridade humana pode ser abusada – e isso é o ponto de Salomão em versículos 8 a 10. “Não há nenhum homem que tenha domínio sobre o vento [ou sobre o espírito] para o reter; nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte.” E, “Tudo isto vi quando me aplique a toda obra que se faz debaixo do sol; há tempo em que um homem tem domínio sobre outro homem, para arruiná-lo.” Como pessoas sob autoridade, isso coloca a autoridade na sua própria perspectiva. Nossos governantes podem ser ímpios, eles podem não considerar a vontade de Deus quando eles tomam decisões, mas eles não têm o poder suprema – o poder sobre a alma humana. A única coisa que eles podem fazer é restringir as ações externas – e não o coração.

E isso nos diz algo importante sobre as limitações do governo. Quando gente olha para o governo como o Messias, como o libertador, eles estão olhando no lugar errado. Os governantes seriam estúpidos ao pensar que seus poderes são ilimitados. Se muitas vezes os pais não podem governar os seus filhos, quanto mais homens são incapazes de gerenciar os grandes problemas da sociedade e das nações? As pessoas em autoridade são tentadas com visões da divindade, mas elas devem lembrar que elas são apenas humanas.

O salmista nos lembra em Salmo 146.3,4: “Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação. Sai-lhes o espírito, e eles tornam ao pó; nesse mesmo dia, perecem todos os seus desígnios.”

Então, por um lado, somos lembrados que o governo não é o nosso Salvador, porque o poder do governo é limitado. Muita gente esperam que o governo vai solucionar todos os seus problemas. So precisa pensar no nosso governo atual, as políticas dos últimos anos, e a atitude de muita gente quanto o papel do governo para entender a realidade desta declaração. Apesar de falhas constantes e repetidas, apesar da evidência que mostra que mais iniciativas do governo não fornecem soluções a nada, muitas pessoas acreditam que a solução é mais programas, mais dinheiro. Mas o rei não pode mudar o coração do povo. Somente Deus pode. Como Salmo 118.8,9 nos diz, “Melhor é buscar refúgio no SENHOR do que confiar no homem. Melhor é buscar refúgio no SENHOR do que confiar em príncipes.”

Mas ao mesmo tempo, por outro lado, há aqueles cuja desconfiança do governo leva eles a paranóia e teorias de conspiração, a revolução prática contra as autoridades. É a mesma questão, mas com a resposta contrária. Precisamos deste lembrete também – não há nenhum homem que tenha domínio sobre o vento para o reter, nem poder sobre o dia da morte. O governo não é a autoridade máxima – é Deus. Ele tem controle, os Seus própositos estão sendo realizados. Quando vemos autoridades ímpias e tribunais implementando leis ímpias, como vemos em países onde o aborto é legal e casamento gay é algo normal, estas autoridades podem imaginar que eles têm o poder de Deus – mais eles não têm. Como Salomão diz em versículo 10, como o Salmista diz em Salmo 146.4, os ímpios vão morrer, vão ser sepultados. Talvez eles participaram nos cultos no lugar santo, talvez eles foram louvados na cidade durante a vida, mas no fim, eles vão morrer como todos.

Então, vemos injustiça debaixo do sol. Vemos a justiça atrasada – e, como o ditado diz, a justiça atrasada é a justiça negada. Quando a justiça não é executada rapidamente, como deveria ser, o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto a praticar o mal. Há injustiça – pessoas justas recebem o que os ímpios merecem, e os ímpios recebem os frutos que eles não merecem. E isso também, Salomão diz, é vaidade.

Então, o que é que podemos fazer? Que é o caminho de sabedoria, num mundo em que as pessoas com poder, em todas as esferas da vida, não sempre providenciam o tipo de liderança que eles deveriam? Como podemos responder? Como é que a sabedoria pode nos beneficiar nesta esfera importante da vida? Isso é a conclusão de Salomão, de versículo 12 ate a conclusão do capítulo.

A primeira coisa que precisamos é a perspectiva da eternidade. A justiça terrena não é tudo que existe. Quando você crer que é tudo, que nada existe que pode ser mais importante, lutar por seus direitos se torna a preocupação maior na sua vida. Quando viver como se a justiça terrena é o bem absoluto, acaba com justiça do vigilante, operando fora da lei para corrigir os erros do sistema – tomando autoridade que realmente não pertence ao indivíduo.

Precisamos lembrar que a justiça de Deus é perfeita, e que a justiça de Deus será implementada perfeitamente – senão nesta vida, então certamente na vida que vem. “Ainda que o pecador faça o mal cem vezes, e os dias se lhe prolonguem,” ele não pode adicionar um ano aos anos lhe dados por Deus – mas nós sabemos, “com certeza, que bem sucede aos que temem a Deus.”

Quando vemos a injustiça, podemos ser tentados a cair em desespero. Podemos nos perguntar onde é a mão de Deus em tudo isso. Mas quando confiamos em Deus, quando tememos a Deus, teremos a habilidade de viver em sujeição às autoridades humanas que são muito menos que perfeitas. Porque sabemos, com certeza, por fé, que Deus está em controle, apesar das aparências desta vida. Andamos e vivemos por fé, não por vista. Cristo rege. Ele está sentado no trono. Ele é o rei, e Ele está realizando o Seu propósito na Sua maneira inescrutável. Nossa tarefa não é entender aquele plano, mas sim entender como viver na luz do plano que é desconhecido, e incognoscível, a nós. Isso é a sabedoria.

E enquanto fazemos isso, somos lembrados mais uma vez, na conclusão deste trecho de Eclesiastes, sobre o que Salomão já disse no fim das duas últimas seções deste livro. Nesta vida, que é tão misteriosa, podemos ver a operação de Deus, e podemos não entender o que está acontecendo. Mas podemos abraçar esta natureza misteriosa da vida. Podemos dizer, “Sim, é mistério, na verdade.” Mas é mistério de Deus, e Deus sabe exatamente o que Ele está fazendo, até quando nós não sabemos.

Podemos aceitar a vida como dom de Deus, até no estado caído. Vivendo em temor do SENHOR, podemos comer e beber e nos alegrar. Podemos continuar desfrutando  as bênçãos da vida, como pessoas que sabem que todas estas coisas são dons de Deus, dons não destinados a providenciar a satisfação perfeita, mas contundo, dons. Isso não significa que precisamos ser pessoas que nos separamos da sociedade, que não trabalhamos para aplicar a Palavra de Deus, a vontade de Deus, e a lei de Deus em todas as esferas da vida, incluindo a esfera política. Não focamos na eternidade no custo do presente, desistindo na batalha para implementar justiça aqui e agora, enquanto focando completamente no céu.

Como o Apóstolo Paulo escreve em 1 Timóteo 2.1,2:

“Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.”

Precisamos continuar vivendo como embaixadores do Deus que cuida dos oprimidos, da viúva, do órfão, do forasteiro. Mas enquanto nós fazemos estas coisas, precisamos reconhecer que até estas atividades não são nosso propósito maior.

Em fim, mais uma vez, o chamado a ação é isso, nas palavras de 1 Pedro 2.15-17:

“Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei.”

Pelo menos esta instrução é simples, direta, e fácil de entender. Isso é o caminho de sabedoria – o caminho de seguir Jesus Cristo – que, diferente dos reis humanos, rege perfeitamente, justamente, e sem manchado do pecado. Nossos reis terrenos, qualquer seja o seu título ou ofício, tem poder lhes delegado por Deus, e eles merecem o nosso respeito. Mas Ele tem o derradeiro poder, e merece a nossa lealdade completa. Ele é digno de fidelidade e submissão absolutas, como Ele já provou. Podemos desfrutar uma vida simples no mundo pecaminoso, sabendo que Ele reina. O mistério pode abundar nesta vida. Mas o evangelho, o chamado a ajoelhar diante do Rei Jesus, é absolutamente claro.

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Jim Witteveen

Pastor missionário das igrejas reformadas do Brasil e diretor do Instituo João Calvino.