Sermão preparado pelo pastor Marcel Tavares
Leitura: Romanos 7.7-25; Ef 5.22-6.9
Texto: Dia do Senhor 49

Amada congregação do nosso Senhor Jesus Cristo,

O nosso catecismo nesta seção sobre a oração começa por dizer que a oração é a parte mais importante da gratidão que Deus exige de nós (P/R 116). O catecismo fala em gratidão porque fomos salvos em Cristo Jesus. Fomos resgatados do império das trevas e transportados para o reino de Cristo (cf Cl 1.13). Por isso, os crentes oram! A oração é uma exigencia de gratidão.

Mas também é uma necessidade no processo de santificação. O crente grato a Deus ora ao seu Pai celestial para que seja aperfeiçoado na salvação. Ou seja, oração tem a ver com santificação.

O que está envolvido nesta oração? Na primeira petição Deus nos chamou a orarmos para vivermos vidas santas para a glória de dEle. Santificado seja o teu nome, ou seja,  que seu nome glorioso, majestoso, honrado brilhe nesta terra a partir de nós. Crentes devem pedir para expressar a imagem da glória de Deus neste mundo.

Deus também nos chamou na segunda petição a rogarmos a Deus para que venha o Reino de Cristo. Esta petição está ligada a primeira. Os súditos de um Rei Santo Santo Santo também devem ser santos.

Agora a terceira petição é o climax das duas primeiras. Como? A terceira petição é um clamor a Deus para que sejamos súditos santos e obedientes deste reino que está por vir. Faça-se a tua vontade assim na terra como nos céus.

A oração é uma exigencia de gratidão. Mas também é uma necessidade no processo de santificação. Como salvos em Cristo e desejando ser santos devemos orar: faça-se a tua vontade assim na terra como nos céus!

Nesta manhã vamos entender mais o que isto significa. Eu vos prego o evangelho de Cristo na terceira petição, debaixo deste tema: Cristo nos chama a orarmos: faça-se a tua vontade assim na terra como nós céus.

Esta vontade tem a ver com duas coisas:

a) Renúncia e obediência
b) Cumprimento do dever diário

Renúncia e obediência

Irmãos, muitas pessoas entendem mal esta petição. Elas pensam que orar faça-se a tua vontade, assim na terra como nós céus tem a ver com conformação.

O que é esta conformação? Eu estou sempre disposto a me conformar com a vontade de Deus, e não vou rogar diante de uma necessidade, pois Deus já conhece o princípio, meio e fim. A situação pode ser ilustrada da seguinte forma: Imagine que eu tenha um filho doente, a beira da morte, então eu apenas oro: __Senhor, faça-se a tua vontade, já estou conformado se o Senhor levar o meu filho de mim.

Alguns vão até ligar esta situação ao que Jó falou: o Senhor o deu e o Senhor o tomou. Bendito seja o SENHOR. Mas esta frase de Jó e o que temos na terceira petição são coisas diferentes. A submissão e confiança sobre a decisão de Deus é uma coisa importante, e isto está em Jó.

Mas a terceira petição está num nível diferente. Que tipo de vontade temos expressa nesta terceira petição? É a vontade de Deus expressa em seus mandamentos! O assunto anterior ao assunto da oração no catecismo são os Dez Mandamentos. A ordem do catecismo não é uma ordem aleatória. Não! Aqui temos um fluxo. Uma sequencia lógica!

Esta pedição quer dizer: __Senhor, faça com que eu e todas as pessoas cumpramos com a tua vontade expressa nos teus mandamentos! O caráter de Deus pode ser visto pelos mandamentos.  A Lei de Deus é para todos os homens. Ela é a Lei de um Rei que tem domínio sobre tudo. Esse Rei virá em breve para estabelecer o seu reinado para sempre. Então todas as pessoas são chamadas a se submeterem a Ele.

Por que nos é exigido orar sobre isto? Porque temos dificuldades em obedecer a vontade deste Deus. Travamos uma verdadeira luta todos os dias! Nós temos uma inclinação natural para fazermos a nossa própria vontade.  Essa era a luta de Paulo em Romanos 7: “Porque eu sei que em mim, isto é na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, mas o mal que não quero, esse faço (v.18-19).

Paulo usa a palavra carne para falar da natureza pecaminosa. Ele faz um contraste entre a natureza pecaminosa e a nova natureza em Cristo. Nossas vontades estão torcidas por causa da queda. Nossas próprias vontades estão manchadas pelo pecado. Nesta natureza em Cristo, temos a Lei escrita em nossos coração (cf. Jeremias 31.33). Porém, esta Lei que está em nossos corações nos dá um pequeno início da obediência a todos os mandamentos (cf. Domingo 44).  Conforme Calvino bem disse, o nosso coração é uma fábrica de ídolos. O nosso maior ídolo do coração é o próprio eu (EGO). Portanto, no processo de santificação, o Espírito Santo pela Palavra nos exige a orarmos a Deus para renunciarmos a nossa vontade e obedecermos a vontade de Deus.

A terceira petição é um pedido para que a vontade de Deus seja a força dominante em nossas vidas.

Mas como posso renunciar completamente aos meus próprios desejos que são pecaminosos? Como posso renunciar o meu eu?  Para respondermos a isto temos que olhar para fora de nós. Temos que olhar para o Senhor Jesus.

O que Jesus fez quanto a esta terceira petição? Jesus abriu um novo e vivo caminho. Ele veio cumprir com a vontade de Deus. Ele proclamou por diversas vezes e em diferentes contextos a sua missão. João 4.34, para a mulher samaritana: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra”. João 5.30, para os escribas e fariseus: “porque não procuro a minha própria vontade, e sim a daquele que me enviou”.  João 6.38 para os seus discípulos: Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou.

Queridos irmãos, o Deus eterno exige de nós obediencia perfeita aos seus mandamentos. Essa é a Sua vontade. E quem cumpriu isto em nosso lugar? Foi o Senhor Jesus Cristo!  Então, nEle eu sou cumpridor da vontade de Deus.

Mas a pergunta fica: Por que eu tenho que orar ainda para cumprir a vontade de Deus? O Cristo que está nos céus nos enviou o seu Espírito para nos santificar. Cristo deseja uma igreja pura, sem manchas. Uma igreja santa. Ele está nos transformando a sua imagem.

Nesta oração Deus quer que nos dirijamos a Ele. Ele quer que almejemos a graça de Cristo.  Esta oração por renunciarmos a nossa vontade é para sermos transformados a imagem de Cristo. Se o Rei eterno é o Senhor Jesus Cristo, e pedimos venha o teu Reino. Então queremos ser aqueles súditos que querem se parecer com o seu Rei.

Essa oração também é um reforçar do pedido anterior. É uma oração para que chegue logo o dia em que eu vou obedecê-lo completamente.

Paulo ansiava pela obra final de Cristo, para que pudesse obedecer a vontade de Deus completamente. Em Romanos 7.24b Ele faz uma pergunta retórica: Quem me livrará do corpo desta morte? A resposta já era sabida: Cristo! Quando isto acontecer o meu eu será liquidado para sempre.  Meu amado irmão e irmã, Deus nos chama a orarmos faça-se a tua vontade. Você só fará a vontade de Deus se você estiver esperando isto em Cristo! É somente em Cristo que encontramos a perfeita obediência a vontade de Deus. Esta verdade nos deve levar a uma vida de gratidão a Deus. O amor e a obediencia de Cristo deve nos constranger a isto. Isto nos leva ao segundo ponto.

Cristo nos chama a orarmos: faça-se a tua vontade assim na terra como nós céus. Isto tem a ver com Cumprimento do nosso dever diário

Amados em Cristo, em Efésios 5.22-6.9 Paulo nos mostra que resultado a nova vida em Cristo deve ter diante de outras pessoas. Lembremos que no capítulo 2 desta carta, Paulo nos fala que nós estávamos mortos em nossos delitos e pecados, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos (cf. Ef 2). Mas Cristo nos ressuscitou para fazermos a vontade de Deus.

E como é fazer a vontade de Deus em nossos ofícios e vocações? Efésios está falando sobre vários deveres no nível horizontal (dos homens). O que fazemos no nível horizontal tem implicações para o que fazemos no nível vertical (nós para com Deus).

No capítulo 5.22-33 Ele fala dos deveres dos maridos e das esposas. Esposos devem amar suas esposas. Devem ser o cabeça delas. Eles devem exercer uma liderança espiritual e material. Espiritual é cuidar do crescimento de sua esposa no conhecimento de Cristo. Material é suprir a sua esposas todas as suas necessidades: comida, saúde, roupas, proteção.

As esposas devem se sujeitar aos seus maridos. Elas devem auxiliá-los em sua liderança. Elas devem ser um socorro para eles.

Essa vontade de Deus na terra, é a vontade de Deus nos céus. Tanto é verdade isto que este relacionamento marido e mulher é comparado ao relacionamento entre Cristo e sua igreja.

Verso 5, do capítulo 6. Paulo fala qual vontade de Deus no tocante a relação do trabalho: patrões e empregados. Ler: “Quanto a vós outros, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo” Ao servir aos senhores (patrões) com temor e tremor de forma sincera, tais empregados estavam cumprindo a vontade de Deus que está nos céus.

As palavras aqui usadas (temor e tremor) demostram a sua vontade para com Ele próprio. São palavras do relacionamento de Deus com o seu povo. Cumpra a sua vocação entre os homens que você estará cumprindo com a vontade de Deus nos céus!

Paulo continua confirmando isto no verso 6: “não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração, a vontade de Deus.

Perceba bem que este tipo de serviço que é sincero (cf. Verso 5) é como os anjos nos céus trabalham. Os anjos foram criados para o serviço de Deus. Eles foram criados para executar a vontade de Deus. Eles fazem isto prontamente e fielmente. Então, quando estamos cumprindo com nossas vocações e ofícios na terra, estamos cumprindo com a vontade de Deus nos céus, tal como os anjos!

Já parou para pensar nisto? Quando você trabalha fielmente no seu ofício diário, não para agradar a homens, mas a Deus, você está no mesmo serviço celestial. Os anjos de Deus conforme o salmo 103, verso 20, obedecem a palavra de Deus. Eles executam suas ordens. Eles fazem a sua vontade. Eles são servos de Deus colaborando com a vontade de Deus de sujeitar toda a terra ao seu domínio. Se cumprimos nossos oficios e vocações somos comparados aos anjos e estamos todos anunciando o Rei que nós pedimos que venha.

Isto deve chamar a atenção para o impacto que nossas vidas tem neste grande plano de Deus. Muitos ditos cristãos fazem uma dicotomia entre a vida diária e a vida na igreja no domingo. Eles fazem uma separação entre coisas sagradas e coisas profanas. Andar com um terno e uma Bíblia debaixo do braço, cantar corinhos e dar a paz do Senhor, isto é considerado sagrado. Trabalhar e cuidar da família, isto é coisa do mundo. Mas para o verdadeiro cristão tudo é sagrado. Varrer uma varanda. Lavar uma louça. Isto é sagrado. Isto é fazer a vontade de Deus também.

Portanto, meu amado irmão e irmã, devemos orar e trabalhar para cumprirmos diariamente a vontade de Deus em Cristo! A terceira petição nos mostra a obedecermos a vontade de Deus. Esta obediência se aplica a minha vida diária. Por um lado faremos isto não perfeitamente. Mas por outro lado, confiamos que Cristo fez tudo por nós. Vivamos então para agradarmos o nosso pai celestial. Desejos que um dia o reino de Cristo virá. E quando ele vier vamos viver perfeitamente na vontade do nosso Deus como os anjos nos céus.  Amém!

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

Pr. Marcel Tavares

Pastor na Igreja Reformada do Brasil Maranata, em Unaí-MG.
Bacharel em divindade pelo Instituto João Calvino.