Sermão preparado pelo pastor Laylton Coelho
Leitura: João 20.19-23
Texto: Dia do Senhor 31

Amados irmãos no Senhor,

O assunto do Domingo 31 é as chaves do reino dos céus. Geralmente quando as pessoas pensam nas chaves do reino dos céus, elas se lembram das pinturas e das esculturas do apóstolo Pedro segurando duas chaves em suas mãos. Nas pinturas é possível vermos que uma dessas chaves é de prata e a outra é de ouro. As pessoas que olham para essas representações do apóstolo Pedro também pensam no brasão do Papa, onde também aparecem duas chaves, uma de prata e uma de ouro. De acordo com uma tradição católica romana, a chave de prata indica o poder de DESLIGAR a terra ao céu, e a chave de ouro indica o poder de LIGAR a terra ao céu.

Mas, de onde vêm essas chaves do reino, e como elas vieram parar nas mãos do apóstolo Pedro e do bispo de Roma? Com relação às origens das chaves do reino, e de como elas chegaram até as mãos de Pedro, nós encontramos a resposta no texto de Mateus 16.18-19, onde achamos as seguintes palavras ditas pelo Senhor Jesus Cristo:

Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.

Então, como vocês ouviram, a origem das chaves do reino dos céus vem do próprio Senhor Jesus Cristo. E elas chegaram às mãos de Pedro porque foi o próprio Senhor Jesus Cristo que as colocou nas mãos de Pedro. Posteriormente, essas mesmas chaves também foram entregues aos outros apóstolos depois que o Senhor ressuscitou dentre os mortos. Nós encontramos a entrega das chaves do reino aos demais apóstolos no texto de João 20.21-23:

Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos.

É verdade que nesse texto não aparecem as palavras “chaves do reino”, mas aparecem as palavras relacionadas com o poder dessas chaves. Ou seja, o poder de perdoar e reter pecados. Este poder de perdoar e reter pecados tem o mesmo significado das palavras “ligar e desligar”. Portanto, como vocês podem constatar, as chaves do reino dos céus não ficaram somente nas mãos do apóstolo Pedro. Elas também estavam nas mãos dos demais apóstolos do Senhor. E não ficou somente nas mãos dos apóstolos, elas também estão nas mãos da igreja de Cristo como um todo. Nós podemos ver isso no texto de Mateus 18.15-18:

Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado nos céus.

Então, irmãos, como vocês podem observar, as chaves do reino dos céus foram entregues diretamente pelo Senhor Jesus Cristo a Pedro, aos demais apóstolos e a toda sua igreja. Portanto, as chaves do reino dos céus não estão exclusivamente nas mãos de uma única pessoa dentro da igreja.

Mas, se é assim, porque o bispo de Roma usa essas chaves em seu brasão de um modo tão especial e tão solene? A resposta é que o bispo de Roma se intitula o sucessor do apóstolo Pedro. E se Pedro tinha as chaves do reino, então o sucessor de Pedro também as possui. Esta é a lógica da igreja romana a respeito do seu bispo. O que acontece, irmãos, é que nós podemos ver biblicamente que as chaves do reino dos céus foram dadas a Pedro, aos apóstolos e a toda a igreja cristã. Mas não é possível acharmos nenhuma base bíblica para que as chaves do reino estejam exclusivamente nas mãos do Papa.

O único fundamento que a igreja de Roma possui para defender essa ideia é a chamada tradição apostólica que ela afirma transportar ao longo dos séculos. Porém, ninguém pode provar que essa doutrina católica romana vem da época apostólica. Pois é impossível acharmos e acreditarmos em outra tradição apostólica além da Bíblia, tomando como base apenas as informações da igreja latina ou da igreja grega. Não existe essa tão famosa tradição apostólica extra-bíblica, pois o que nós encontramos ao longo dos séculos da história da igreja é uma série interminável de acréscimos e mais acréscimos de decisões episcopais. Hoje, a famosa tradição apostólica das igrejas romana e grega é na verdade uma tradição episcopal desenvolvida ao longo do tempo.

Desta forma, irmãos, ao invés de confiarmos nessa tal de tradição apostólica das igrejas latina e grega, é melhor ficarmos com a Bíblia. A Bíblia é a Palavra de Deus, e ela não pode errar. A Bíblia nos ensina claramente que as chaves do reino dos céus ficaram com toda a igreja de Jesus Cristo. E hoje em dia nós não temos mais apóstolos para liderar ou presidir o uso dessas chaves. O que temos agora são os presbíteros. São os presbíteros dos nossos dias que presidem a igreja na utilização correta dessas chaves.

Essas chaves são em número de duas. Mas elas não são chaves no sentido literal. Nenhum presbítero possui duas chaves (uma de prata e outra de ouro) guardadas em sua casa. Porém, o poder das chaves está com os presbíteros. Isto significa que os presbíteros possuem uma grande responsabilidade em suas mãos. Eles são os líderes espirituais das igrejas locais. Cristo entregou essas chaves à igreja para que os seus presbíteros as usassem com o objetivo de abrir e fechar o reino dos céus perante as pessoas deste mundo.
E neste momento nós devemos perguntar: Quais são essas duas chaves? A resposta é que, tomando como base o poder que essas chaves representam, isto é, o poder de ligar e desligar, a igreja percebeu que uma dessas chaves é a pregação do santo evangelho, e a outra chave é a disciplina eclesiástica.

Observem que no dia-a-dia uma chave é um instrumento que serve para abrir e fechar portas. Então as chaves do reino servem para abrir e fechar os portões do reino dos céus. Se os portões do reino são abertos, então uma pessoa pode entrar. Mas, se os portões do reino são fechados, então é impossível que uma pessoa entre no reino de Deus. Portanto, utilizar as chaves do reino dos céus é uma grande responsabilidade.

Podemos ver o uso dessas chaves ao observamos o trabalho dos apóstolos de Jesus Cristo. Por exemplo, o apóstolo Pedro usou uma dessas chaves quando ele pregou o seu grande sermão no dia de pentecostes. Naquele dia, Pedro explicou o que tinha acontecido durante o derramamento do Espírito Santo, e pregou claramente o nome do Senhor Jesus Cristo, exortando as pessoas a se arrependerem dos seus pecados. A Bíblia mostra que naquele dia quase três mil pessoas que ouviram a pregação do evangelho entraram no reino dos céus.

Nós podemos também observar o uso da segunda chave, a disciplina eclesiástica, na primeira carta de Paulo aos coríntios. No capítulo 5, Paulo claramente determina a excomunhão de um membro da igreja que vivia em pecado e que não queria se arrepender. Neste capítulo, nós encontramos as seguintes palavras do apóstolo Paulo:

Eu, na verdade, ainda que ausente em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente, que o autor de tal infâmia seja, em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor, entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus.

Esta sentença de excomunhão deveria ser executada pela igreja de Corinto, pois mais à frente Paulo acrescentou: “Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor”. Aqui temos um bom exemplo do uso da segunda chave do reino. Observem que as palavras de Paulo exemplificam claramente o sentido de ligar e desligar, ou de reter e perdoar pecados.

E esse mesmo poder das chaves está com as verdadeiras igrejas de Cristo dos nossos dias. Todas as vezes que um ministro da Palavra, que também é um presbítero, prega o evangelho, então os portões do reino dos céus se abrem ou se fecham diante dos pecadores. Se alguém se arrepende, os portões se abrem para ele. Mas se esse alguém não se arrepende, os portões se fecham diante dele. E, do mesmo modo, toda vez que o colégio de presbíteros faz uso da disciplina eclesiástica, novamente nós temos os portões do reino dos céus se abrindo ou se fechando diante dos pecadores.

Outro exemplo do uso das chaves do reino dos céus dentro da igreja é quando ouvimos a Forma para Celebração da Santa Ceia. Na Forma da Santa Ceia constam as seguintes palavras:

Deus certamente recebe à mesa do seu Filho, Jesus Cristo, todos os que têm esta intenção. Declaramos a eles, que Deus os recebe em graça e lhes dá esta comida e bebida celestial apesar dos muitos pecados e fraquezas que lhes restam contra a sua vontade. Por outro lado, declaramos que aqueles que não têm esta intenção “comem e bebem juízo para si”. Por isso advertimos que eles se abstenham da mesa do Senhor. Nós declaramos aos que praticam pecados ofensivos que não têm parte no reino de Cristo se não se arrependerem. Ofensivos consideramos os seguintes pecados: Servir a ídolos ou invocar santos falecidos; prestar homenagem a imagens; dar crença a feitiçaria ou bruxaria; desprezar a Deus, a sua Palavra e aos santos Sacramentos; brigar; ser desobediente a seus pais e superiores; viver em ódio e inveja; adulterar, embriagar-se, roubar, em geral viver uma vida dominada por pecados contra Deus e os homens. Todos os que permanecem em tais pecados, devem abster-se desta comida, que Jesus Cristo ordenou somente para seus fiéis, para não aumentarem seu juízo e condenação.

Estas palavras são, ao mesmo tempo, um convite e uma advertência para aqueles que se aproximam da Mesa do Senhor. Se alguém fez o autoexame proposto pelo apóstolo Paulo de um modo sincero, então essa pessoa pode participar da Santa Ceia. Pois os portões do reino dos céus foram abertos diante de si. Entretanto, se uma pessoa continua presa a uma vida de pecado sem arrependimento, então a Santa Ceia está fechada para essa pessoa. Os presbíteros são responsáveis pela preservação da aliança da salvação. Eles não vão servir o pão e o vinho para uma pessoa que vive em pecado. Quando os presbíteros fazem isso, eles estão usando o poder das chaves do reino dos céus que Cristo deu a sua igreja.

Irmãos, exercer o poder das chaves é uma coisa muito séria. Jesus disse que tudo aquilo que ligarmos ou desligarmos aqui na terra também será ligado ou desligado nos céus. Isto significa que o poder das chaves, que é executado pelos presbíteros, é confirmado pelo Senhor Jesus Cristo lá nos céus.

Portanto, irmãos, oremos para que os nossos presbíteros usem essas chaves com grande sabedoria, humildade e fidelidade ao Senhor. Oremos para que os portões do reino dos céus sejam abertos para muitas pessoas por meio da pregação do evangelho e da disciplina eclesiástica. Oremos para que muitas pessoas se arrependam de seus pecados, ao se depararem com os portões fechados diante de seus olhos. Que eles roguem a Deus por arrependimento. Que eles peçam a Jesus Cristo por sua salvação. E que eles orem ao Senhor para que os portões do reino de Deus sejam novamente abertos diante deles.

Que o SENHOR nos abençoe.

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Laylton Coelho

Pastor na Igreja Reformada em Imbiribeira.