Sermão preparado pelo pastor Marcel Tavares
Leitura: 1ª Coríntios 11.17-34
Texto: Dia do Senhor 30 (p/r 81 e 82)

Amada Igreja do nosso Senhor Jesus Cristo,

Já estamos no terceiro domingo tratando sobre o assunto mais discutido em todo o catecismo: a Santa Ceia. O catecismo não faz isto por acaso, mas de fato considera o assunto da mesa do Senhor algo de extrema importância. Nossos irmãos da época da reforma tiveram acaloradas discussões sobre a natureza de Cristo na Ceia. Isto partiu a Igreja em pelo menos três grupos: os romanistas e a ideia da transubstanciação; os luteranos e a consubstanciação e os reformados e a presença espiritual de Cristo na Ceia.

Vimos no domingo anterior que a Ceia não é um altar de sacrifício, mas uma mesa, onde participamos de uma refeição pactual. Cristo espiritualmente nos convida a comunhão com ele, nesta mesa, onde tomamos parte do pão e do vinho que são símbolos do seu sofrimento e morte na cruz (seu corpo partido e seu sangue derramado).

Tendo esta imagem da Santa Ceia em mente, onde uma mesa está preparada com pão e vinho, que são sinais visíveis e terrenos de uma realidade invisível e celestial, e onde Cristo está espiritualmente sentado e nos convidando a participar dela, agora devemos então nos perguntar: quem é digno de se assentar nesta mesa para participar deste banquete pactual? Por isso, é importante sabermos quem pode vir e quem não pode vir a mesa do Senhor.

Nesta manhã vamos ver o que a igreja confessa sobre os participantes da Santa Ceia debaixo do seguinte tema: Cristo nos chama a atentarmos cuidadosamente para a mesa da Santa Ceia.

1) A necessidade do auto-exame
2) A responsabilidade da Igreja

A necessidade do auto-exame

Irmãos, por que é necessário um auto-exame para participarmos da Ceia? Porque é um mandamento de Cristo por meio do Apóstolo Paulo (v.23 – o apostolo Paulo recebeu do Senhor o que também os entregou). Também porque aqueles que não fazem um auto-exame chamam juízo para si. Nós lemos 1 Co 11.17-34, onde Paulo fala sobre o auto-exame (v.28). Devemos buscar entender o auto-exame dentro do seu próprio contexto.

Na igreja em Corínto haviam pessoas vivendo na imoralidade, como podemos ler por exemplo em 1 Co 5.1(ver) . Aquela igreja tolerava pecados escandalosos. Ela não estava lamentando aquele tipo de pecado (1 Co 5.2 ver).

A igreja também vivia em ciúmes e contendas. Havia discordias. Uns se diziam de Paulo, outros de Apolo, outros de Cefas e outros de Cristo (1Co 3). Outros em litígios (1 Co 6). Esse lítigio tinha a ver com o fato de que dentro da igreja existia irmãos brigando por questões de negócios. Esses negócios não eram resolvidos de forma cristã, dentro da igreja. A briga ia para os advogados lá fora da igreja. Tinha também a desordem no culto (1 Co 14). Podemos perceber nestes relatos pecados que faltava amor entre aqueles irmãos. A luz disso tudo agora chega a questão da Santa Ceia. É certo que irmãos envolvidos nestes pecados deveriam participar da Santa Ceia? Sem amor?

O capítulo 11, no verso 21, podemos ver o reflexo da falta de amor. Cada um tomava a sua própria ceia, se antecipando um aos outros. Algumas pessoas comiam de mais, outras ficavam sem comida. Existiam até pessoas que tomavam tanto vinho que se embreagavam. Então, imagine que bagunça! Pessoas enchendo seus copos e outros ficando sem nada.

À luz deste contexto é que devemos considerar o auto-exame no verso 28. O auto-exame é uma avaliação da nossa vida pecaminosa. Não é só se assentar e comer e beber. O participante deve chegar na mesa com fé e arrependimento. Um profundo desejo de servir a Deus e ao meu próximo. A mesa da Ceia é a mesa de Cristo! Ele é santo, santo, santo. Os elementos da Ceia estão apontando para o seu amor pelo seu povo. Um amor que deu a sua própria vida.

O ambiente da Santa Ceia não combina em nada com o pecado! Não combina com imoralidade sexual. Não combina com litígio. Não combina com glutonarias. Por causa disso, veja o que Paulo fala no versículo 20. Paulo aqui quer dizer que aquela atitude dos participantes fugia do propósito original da Ceia.

E qual é o propósito original da Santa Ceia? Vamos ler novamente os versículos 23-25. Primeiramente Cristo aponta para a gratidão (tendo dado graças). Ao contrário disso os coríntios pareciam não ter uma atitude de gratidão. Em segundo lugar, Jesus disse que aquele pão representava seu corpo. Seu corpo foi moido por nós. Antes de comer o pão partido, o participante naquela igreja deveria se humilhar reconhecendo a sua miséria. Ao se alimentarem, aqueles participantes deveriam desejar receber de Cristo mais santidade, mais vida em Cristo.

A Santa Ceia foi instituída para lembrarmos constantemente de que Cristo morreu. v.26 – Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha.

E o que é este morrer? Cristo recebeu o juízo de Deus contra nossos pecados.  Ele foi desamparado por Deus. Isto foi sua primeira morte. Deus virou as costas para ele. Cristo também foi sepultado. Seu espírito deixou seu corpo lá na sepultura.

A Ceia é um anuncio público da morte de Cristo e deve ser realizado de forma reverente. Os participantes devem participar de cabeça baixa. Meu pecado foi colocado na conta de Cristo e ele foi esmagado pela poderosa mão de Deus.

Mas, como os Coríntios estavam pensando? A Santa Ceia deles não tinha nenhum valor além de comer e beber. A Santa Ceia se tornou uma festa ímpia, profana.

Mas nos versículos 29 e 30, do capítulo 11, Paulo está falando dos perigos de participar da Ceia sem auto-exame (ler).  A mão de Deus estava pesando naquela igreja. Existiam entre os membros da igreja dos Críntios pessoas doente e pessoas que tinham morrido. A tradução diz “e vários já dormiram”. A palavra aqui no grego tem a ver com morte. E qual era a razão? Paulo diz no verso 31 (ler). Que coisa séria!

Mas Cristo ama a sua igreja. O verso 32 mostra que aquele juízo tinha a finalidade de livrar aqueles irmãos de serem condenados com o mundo. O Senhor corrige aqueles a quem ele ama. Hebreus 12.6 – porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe.

Cristo também ama esta igreja aqui. A prova de que Ele nos ama hoje é que Ele nos chama a atentarmos cuidadosamente para a Santa Ceia.

A Santa Ceia é para aqueles que reconhecem os seus pecados. Eles não desejam viver neles. Eles estão lutando contra estes pecados. Eles estão tristes. Eles estão confiando no sangue de Cristo que nos cobre de todo o pecado.

Qual é o objetivo do auto-exame? O auto-exame deve nos levar ao arrependimento e fé nas promessas de Cristo. A resposta 81, refletindo as Escrituras vai apontar para isso (ler pergunta e resposta).

A forma para a Santa Ceia que é usado pelas nossas igrejas expressa este cuidado que o participante deve ter. Conforme a forma, o auto-exame consiste em três partes:

Em primeiro lugar, cada pessoa deve ter consciência dos seus pecados e da maldição de Deus para se  detestar e se humilhar perante Deus, porque a ira dele contra o pecado é muito grande. O pecado não poderia ficar impune, mas Deus o puniu no Seu filho amado, Jesus Cristo, por meio de sua vergonhosa morte de cruz.

Em segundo lugar, cada pessoa deve examinar seu coração para determinar se realmente confia na promessa fiel de Deus. A promessa é esta: que todos os pecados dessa pessoa só são perdoados por causa do sofrimento e morte de Jesus Cristo, e que a perfeita retidão de Cristo é gratuitamente concedida em seu favor, como se a pessoa mesma tivesse cumprido toda a justiça.

Em terceiro lugar, cada pessoa deve determinar se tem a intenção sincera de mostrar a Deus a sua gratidão por uma vida consagrada a Ele. Do mesmo modo, deve mostrar que está determinado a amar o próximo e a deixar toda a hipocrisia, inveja, inimizade e raiva.

Cristo recebe os humildes de coração. Os humildes se examinam. 1) Eles tem consciências de seus pecados; 2) Eles confiam em Cristo; 3) Eles querem viver uma vida de gratidão a Deus amando-O e amando ao próximo.

Quem não em esta intenção não pode participar da Santa Ceia. Quem participa da Santa Ceia e está vivendo uma vida de pecado, seja um pecado secreto ou que as outras pessoas saibam, deve ficar com medo do juízo de Deus. E que juízo é este: doença e morte.

A Santa Ceia é responsabilidade do participante. Mas qual é a responsabilidade da igreja?

A responsabilidade da Igreja 

Irmãos e irmãs, quando falo em responsabilidade da Igreja, quero me referir a responsabilidade dos presbíteros da igreja. Eles são guardiões da mesa! Infelizmente nós vivemos num mundo individualista. As pessoas pensam que apenas o seu auto-exame as permite se assentarem na mesa.

Mas a prática bíblica e reformada entende que é preciso ter um testemunho da pessoa que vai participar da Santa Ceia. Quem pode dar este testemunho são os seus presbíteros. As igrejas praticam o que é chamado de comunhão restrita. O que é a comunhã restrita? Os elementos da Santa Ceia são distribuídos apenas para aquelas pessoas que estão debaixo da supervisão dos presbíteros daquela igreja. Qualquer pessoa não chega no dia da Santa Ceia e participa da Ceia. Os presbíteros entendem que o Senhor da mesa pode punir uma igreja inteira, se alguém participar indignamente. Visitantes tem que trazer cartas dando um testemunho cristão da sua vida. Se não trazem cartas, mas são conhecidos de algum membro do conselho, então há uma conversa antes da Santa Ceia. Essa prática mostra cuidado e boa ordem com as coisas de Cristo!

As igrejas da época da Reforma tinham a prática de visitar todos os membros antes do Domingo da Santa Ceia, a fim de assegurar que ninguém participaria de forma indigna. Essa é uma ideia muito boa! Isso é proteção para o participante (não participar indignamente). Isso também é proteção para toda a igreja (não sofrer o juízo de Cristo).

Certo homem piedoso disse o seguinte “aqueles que dão os sinais da aliança para o ímpio, fazem Deus um amigo dos pecadores e fazem os filhos do diabo se tornarem filhos de Deus”. Veja que profanação! A Santa Ceia é um sinal da amizade de Cristo com o seu povo. Daí, alguém que vive como inimigo de Deus, em seus pecados, está lá dizendo que tem amizade com Cristo. Os presbíteros que deixam estas pessoas participarem da Santa Ceia estão dizendo que estes filhos do diabo são filhos de Deus. Isso é terrível!

O nosso catecismo expressa o cuidado na mesa do Senhor quando diz que incrédulos e ímpios não devem ser admitidos na Ceia. Esses incrédulos não são só aqueles que não acreditam em Cristo, mas são aqueles que dizem crer em Cristo, mas vivem uma vida onde seus atos estão dizendo não crer em Cristo. E que atos seriam estes? Eu vou citar a forma da Santa Ceia: 1) Servir a ídolos ou invocar a santos falecidos; 2) prestar homenagens a imagens; 3) dar crédito a feitiçaria e bruxaria; 4) desprezar a Deus, a sua Palavra e aos Santos Sacramentos; 5) brigar; 6) ser desobediente a seus pais e superiores; 6) viver em ódio e inveja; 7) adulterar; 8) embriagar-se; 9) roubar. 10) viver uma vida dominada por pecados contra Deus e os homens.

Meu irmão e minha irmã, se você anda em um desses pecados, você não pode participar da Santa Ceia. Você é um incrédulo e ímpio se vive assim! Por que você não pode participar da Santa Ceia se você vive assim? Veja a resposta 82: Assim é profanada a Aliança de Deus e é provocada a ira de Deus contra toda a congregação.

Portanto, os presbíteros devem evitar que isto aconteça. Isto está no restante da resposta 82. A igreja cristã aqui é uma referencia ao conselho da igreja.

Agora, perceba como temos o evangelho neste assunto específico da Santa Ceia. De um lado, Cristo está dizendo para aqueles que estão lutando contra seus pecados: Venha a mim que Eu te darei força para continuar! Do outro lado, Cristo por amor, está exortanto àqueles que não se importam com sua vida diante de Deus e dos homens: Tomem muito cuidado! Arrependam-se e vivam! Caso contrário vocês sofreram o juízo que Eu recebi na cruz do calvário!

Caros irmãos e irmãs, vocês que tem filhos pequenos ensinem-os sobre o que significa a Santa Ceia. Ensine-os a irem até Cristo em arrependimento e fé. Aos jovens que estão na catequese e se Deus quiser, pela graça de Deus, farão sua profissão de fé e vão participar deste sacramento; a mensagem para vocês é: confiem em Cristo! Queiram viver uma vida santa! Não olhem para este mundo e seus prazeres. Vivam para a glória deste salvador que celebramos na Santa Ceia!

Um dia cearemos face a face com Ele. Não será o presbítero da igreja que lhe convidará para a mesa, mas será Ele, o próprio Jesus quem chamará você pelo seu nome. Ele vai chamar você para você festejar com Ele. Todos estarão comemorando a vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte. Será uma alegria e uma festa que durará para sempre. Sem prazo para terminar. Será uma alegria tão grande que nenhuma alegria deste mundo poderá chegar perto. Não há comparações! Vamos continuar Ceando aqui em memória dele, com respeito, temor, reverencia. Amém!

___________________________________________________________________________________________________

* Exceto onde o contrário esteja explícito, todos os conteúdos deste site estão licenciados sob uma Licença Creative Commons “Atribuição – Não Comercial – Sem Derivados 3.0 Não Adaptada“.

** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

Pr. Marcel Tavares

Pastor na Igreja Reformada do Brasil Maranata, em Unaí-MG. Bacharel em divindade pelo Instituto João Calvino.