Pregação preparada pelo Pr. Elso Venema

Leitura: Romanos 03.19-26

Texto: Dia do Senhor 23

Amada congregação do Senhor Jesus Cristo,

Como podemos nós, que somos pecadores miseráveis, ser justos perante Deus? Esta é questão sobre qual trata Domingo 23 do Catecismo de Heidelberg. É uma questão fundamental, uma questão que já atormentava Martinho Lutero. Ele, um frade, se esforçava o máximo para cumprir todas as leis e exigências da igreja. Fazia de tudo para ser piedoso e santo. Orava, jejuava, ficava horas e horas de joelhos, e fazia muito mais ainda. Assim ele tentou conquistar a benevolência de Deus. Assim ele tentou conquistar um Deus justo. Mas não deu certo. Mesmo esforçando-se o máximo possível, mesmo se atormentando o tempo todo, ele não encontrou a paz. Pelo contrário, quanto mais lutava e zelava, quanto mais decepcionado ficou. Ele descobriu que um só pecado, já podedestruir o efeito de muitas boas obras. Assim ele ficou frustrado. Cada vez mais ele sentiu que continuava sendo um pecador miserável. Fez todo o possível, mas não alcançou a perfeição. Então ele ficou desesperado. Pois o que o pecador pode esperar do lado de Deus? O que o pecador pode esperar de Deus, que é justo, senão ira e condenação? Assim Lutero tinha cada vez mais medo de Deus. Cada vez ele se esforçava mais ainda para ser santo. Ele disse a si mesmo as seguintes palavras: “Quando finalmente você vai ficar piedoso? Quando finalmente você vai fazer o suficiente para conseguir um Deus gracioso”? Lutero tentou conquistar a amizade de Deus, mas acabou sendo decepcionado consigo mesmo, tendo cada vez mais consciência de suas fraquezas e pecados.

Irmãos, será que nós também buscamos o SENHOR Deus com tanta seriedade? Quais são os esforços que nós fazemos para agradar a Deus nosso Pai? Quem está com medo de Deus, ou em desespero, por causa dos seus muitos pecados? Já podemos aprender algo com Martim Lutero. Ele levava Deus a sério. Ele sofria com seus pecados. Ele não era relaxado. Ele não era preguiçoso. Ele tinha consciência dos seus pecados. Será que nós também temos consciência dos nossos pecados? Ou devemos admitir que estranhamos ouvindo do medo e da preocupação do frade Lutero? Realmente, existe o grande perigo de ser membro do povo de Deus, e só ter pensamentos e sentimentos superficiais acerca da vida espiritual. Existe o grande perigo de participar das atividades da igreja, enquanto o nosso coração está frio e sem amor. É possível assumir uma atitude diferente, confessando com a nossa boca que cremos em Deus, mas nunca ficando preocupados com nada, e só cumprindo a rotina. Isto, irmãos, é um perigo, pois tendo apenas pensamentos e sentimentos superficiais, não ficando preocupado com nada, temos uma fé vazia e temos que ficar até muito preocupados. Pois uma fé vazia, uma fé fria e morta, não salva ninguém.

É fundamental sabermos e sentirmos o que Martim Lutero sabia e sentia na sua alma: Temos que ter uma consciência profunda dos nossos pecados e fraquezas. Temos que sentir que somos pecadores, que não param de cometer transgressões e que não merecem nada senão o castigo de Deus, o qual é santo e justo. Neste ponto Lutero estava certíssimo. Assim, irmãos, nós também devemos ter esta convicção de que somos indignos por causa dos nossos pecados. Sei que os irmãos já ouviram muitas vezes estas coisas. Pode até ser chato ouvir tantas vezes as mesmas coisas. Mas é necessário repeti-las, sem parar nunca. Pois é difícil mesmo, reconhecer os seus pecados. É tão difícil, que muitas pessoas acham que nunca erram, e que a culpa é sempre dos outros. Muitos encobrem seus erros, e mesmo mostrando infidelidade e desinteresse, falam como se fossem santinhos. Muitos sempre se justificam. Muitos acham que seu procedimento é sempre bom. É assim mesmo, como a palavra de Deus diz: “Todo caminho do homem é reto aos seus próprios olhos” (Provérbios 21: 2). O próprio homem, muitas vezes faz o que não é certo, e depois ele vem mostrar que não fez nunca nada de errado. Irmãos, isto é triste, lamentável e grave. É triste e lamentável, se nós ficamos preocupados com um jogo de futebol, até chegando a roer as unhas, e que nós ficamos muito animados e alegres por causa de uma festinha, mas quando o assunto é o nosso relacionamento com Deus, não há nada de preocupação, nem nada de animação.

Vamos então aceitar os ensinamentos da palavra de Deus, e ter consciência dos nossos pecados. Assim podemos compreender um pouquinho mais das lutas de pessoas como Martim Lutero. Pois admitindo e reconhecendo, de coração, que somos pecadores miseráveis, que mesmo lutando e batalhando não temos condições de cumprir totalmente a vontade de Deus, nós ficamos sensíveis para um grande problema. Nós somos pecadores perdidos, por natureza e desde o nosso nascimento. Aí está o problema. Pois Deus é santo e justo. Ele nunca jamais justificará o ímpio, o perverso, o pecador (Êxodo 23: 7). Na opinião de Deus, o justo deve ser justificado, mas o perverso deve ser condenado. Deus não passa a mão pelas cabeças de pessoas culpadas. Irmãos, vocês sabem o que impunidade. Já vimos exemplos disto, exemplos de pessoas que roubaram, mataram, manipularam e cometeram corrupção, mas que saíram ilesas. O povo já está acostumado com isto. Um deputado federal pode ser o chefão de um esquadrão de morte. Mas é difícil, difícil mesmo ele ter o mandato cassado. Assim o povo aceita muitas coisas. Mas Deus não é assim. Deus é justo, e dá a cada um o castigo merecido, o castigo justo. Foi por causa disto que Lutero se esforçou tanto para ser um bom cristão. Foi por este motivo que Lutero sofreu tanto, se esforçando e acabando consigo mesmo para conseguir um Deus gracioso.

Mas não deu em nada. Lutero ficou desesperado. Parecia que todos os esforços tinham sido em vão. O Deus justo continuou sendo o Deus justo, e o pecador Lutero continuou sendo o pecador Lutero. Assim Lutero chegou à mesma conclusão que o apóstolo Paulo: “Ninguém será declarado justo diante de Deus baseando-se na obediência à lei, pois é mediante a lei que nos tornemos plenamente conscientes do pecado” (Romanos 3: 20). Ou seja, nenhuma obra da lei, nem qualquer outra obra humana, traz a salvação. Então, Lutero chegou a uma conclusão muito dolorosa: O homem pecador não será declarado justo diante de Deus com base nas suas próprias obras. Não é possível conquistar a simpatia e a amizade de Deus pelas nossas obras. O caminho das nossas próprias obras, não é um caminho que nos leva à salvação. Só cumprindo total e perfeitamente a vontade de Deus, dá para ganhar a salvação. Mas é justamente isto que nem um ser humana é capaz de fazer. Ou seja, não há uma saída para nós pecadores.

Agora, escutem qual foi a grande descoberta de Martin Lutero. Ele descobriu que Deus, pela sua grande misericórdia e amor, abriu um caminho para o pecador. Deus abriu outro caminho, para poder justificar o ímpio, justificar o perverso, sem porém, ferir a sua justiça, que manda castigar o ímpio e o perverso. “Agora, sem lei, se manifestou justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que crêem” (Romanos 3: 21-22). Manifestou-se salvação da parte de Deus, mas não é uma salvação que se ganha através de obras e penitências. É a salvação que se recebe por pura graça, mediante a fé em Cristo! O homem pecador ganha o perdão e a vida pela graça de Deus. Mas Deus que é justo, continua sendo o mesmo Deus, o Deus justo. Ele não passou a mão pela cabeça de ninguém. Mas ele deu o seu Filho, seu único e amado Filho, para ser entregue nas mãos de homens perversos, e para carregar o castigo que nós merecíamos! Assim Cristo se tornou a nossa justiça! Ele fez o que nós devíamos fazer, mas nunca poderíamos fazer. Este é o caminho da salvação que Deus abriu para nós que somos, sim, pecadores miseráveis. Se nós cremos em Cristo, recebendo com amor os seus mandamentos, recebemos o perdão dos nossos pecados e a vida eterna. É desta maneira, e outra maneira não há, que podemos ter um bom relacionamento com Cristo. “Por verdadeira fé em Cristo, Deus me dá, sem nenhum mérito meu, por pura graça, a perfeita satisfação, a justiça e a santidade de Cristo. Deus me trata como se eu nunca tivesse cometido pecado algum ou jamais tivesse sido pecador” (Domingo 23). No início, o frade Lutero não compreendia isto. Mas quando começou a ler a palavra de Deus, ele recebeu um grande alívio. Pela graça de Deus ele recebeu, apesar de ser pecador, o alívio de ter certeza de sua salvação, não por qualquer obra humana, mas somente mediante a fé em Cristo.

E agora, como é que vai ficar a nossa situação? Claro, devemos ter plena consciência dos nosso pecados. Mas não é para ficarmos desesperados. Devemos ter, pela fé em Cristo, certeza da nossa salvação. Deus nos vê como se nunca tivéssemos cometido pecado nenhum e como se nunca tivéssemos sido pecadores. Assim, irmãos somos livres. Podemos ser filhos de Deus, sem carregar um peso pesado nas costas. Cristo já carregou o peso mais pesado. Ele carregou o peso do castigo de Deus. Por isso podemos ser confiantes e alegres. Sim, irmãos, só podemos ser alegres, pois nós que éramos perdidos, fomos salvos, não por nosso mérito, mas por pura graça. Agora, tudo isto, que Deus nos proporciona, não significa que nós agora podemos ser crentes preguiçosos ou desinteressados. Tudo isto, que Deus fez por nós, também não quer dizer que nós podemos sempre fazer qualquer coisa. Muito pelo contrário. Nós somos salvos mediante a verdadeira fé em Jesus Cristo (Domingo 23). Somos salvos por aquela fé, da qual fala a palavra de Deus tão claro: a fé que reconhece Jesus Cristo como o único Senhor e que produz frutos de gratidão.

Então, irmãos, é isto que devemos fazer: produzir boas obras, frutos de gratidão, não para ganhar alguma coisa, mas para mostrar a Deus que somos gratos. Devemos fazer boas obras, mostrando amor a nossos irmãos, ajudando os outros, falando palavras edificantes, falando palavras que restauram a paz, dando ofertas ao Senhor – de coração e com alegria, visitando um irmão que se afastou, ou que está no leito, convidar pessoas que não conhecem o único Salvador Jesus Cristo, ser fiel e ter tempo para ouvir e ler a palavra de Deus. Aquele que pode dizer que tem o desejo de viver assim, ele pode ter certeza: eu, pobre pecador, eu tenho a verdadeira fé em Jesus Cristo, portanto, sou salvo, não por minhas obras, nem por meus méritos, mas somente pelos méritos de Cristo. A fé frutífera é a prova de sua salvação. Que alegria, irmãos, ter esta fé! É mediante esta fé, a fé praticada, que recebemos a salvação. É através desta fé que recebemos também certeza da nossa salvação. Agora, irmãos, não tendo esta fé, você sendo uma pessoa que sempre está inventando desculpas para não colaborar com os irmãos, você deve sentir o que Martim Lutero sentia enquanto estava desesperado. Gostaria que qualquer irmão, que não tem aquela fé viva, que opera pelo amor, que produz boas obras, ficasse abalado e profundamente incomodado. Pois se não há frutos da fé, não há fé. E se não há fé, também não salvação. Então, irmãos, não sejamos fracos, acomodados ou preguiçosos. Creiam no Senhor Jesus Cristo, vivendo pela fé, tendo cada vez uma vida diferente, transformada. A salvação que Deus nos dá é tão maravilhosa, que não dá para não ter animação, e que não dá para não ser um membro efetivo e alegre da igreja de Cristo. Seja assim, irmãos, o nosso relacionamento com Deus. Nós pecadores, vamos mostrar, em nosso proceder, em nosso falar e em nossas obras, que somos filhos amados de Deus, salvos por pura graça.

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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