Pregação preparada pelo Pr. Julius VanSpronsen

Leitura: Isaías 01.01-31

Texto: Dia do Senhor 05

 

Amada Congregação do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo,

Imagine que alguém lhe deva R$500. Se ele lhe desse R$350, você acharia que pagou a dívida? Daria a nota fiscal por R$500? A resposta é clara! Não vou dizer que ele pagou a dívida, porque recebi apenas R$350 e me devia R$500. E se pagasse R$500, você celebraria, dando graças ao devedor pela generosidade dele? De novo, é claro que não! Ele apenas pagou aquilo que devia. Depois de emprestar R$500, você espera que, depois algum tempo, o devedor vá lhe pagar o mesmo valor, e se não tiver recebido R$500, todos entendem que há ainda uma dívida. Ao explicar a nossa salvação, o catecismo usa a palavra “dívida”, para que possamos entender bem a nossa situação. Na verdade, temos uma dívida, a saber: temos de satisfazer a justiça de Deus por cumprir todas as exigências d’Ele. A justiça perfeita de Deus exige um pagamento completo.

Acabamos de ouvir sobre a natureza da nossa dívida nos DS 2-4 e aprendemos que, nem a exigência de Deus, nem a punição podem ser mudadas, porque Deus é Santo e imutável – um Deus que é fiel às suas promessas. Isto é o ponto de partida do catecismo – Deus requer que a Sua justiça seja satisfeita. Não há reconciliação com Deus sem pagar a dívida. Para chegar a sermos salvos da ira de Deus, é necessário pagar o que devemos. Quem pode pagar? Quem pode escapar da ira de Deus? Não é tão fácil não, mas há esperança na misericórdia de Deus que se manifesta na sua justiça. Prego o evangelho de Jesus Cristo sob este tema:

Tema: Deus revela o Único Mediador que pode satisfazer a Sua justiça.

  • 1. O preço – o que Deus requer para satisfazer a Sua justiça
  • 2. O problema – o que nos impede de satisfazer a Sua justiça
  • 3. O pagamento – o que Deus fez para satisfazer a Sua justiça

1. O preço – o que Deus requer para satisfazer a Sua justiça

Quando você entrar numa lojinha para comprar uma nova bicicleta, você vai perguntar: “Quanto custa uma bicicleta?”. E o vendedor vai dizer: “Depende do tipo de bicicleta. O que é que você quer? Um triciclo é mais barato do que uma bicicleta de velocidade, para adultos, mas não vale a pena comprar um triciclo se precisa de uma bicicleta para adultos”. Também para nós – não vale a pena tentar comprar algo que não nos serve; algo que não é necessário para a sobrevivência. Para saber o preço, temos de entender, em primeiro lugar, o que precisamos. Porque o preço depende da nossa necessidade. O que é que precisamos nesta vida? Qual é a coisa mais importante que você precisa? Quais coisas estarão na sua lista?

Sendo cristãos, reconhecemos que o nosso único desejo nesta vida é glorificar a Deus, como Adão e Eva fizeram no paraíso. O nosso único desejo é viver em paz com o Criador dos céus e da terra, mas não podemos, não. Na verdade, depois da queda todo homem, por natureza, é inimigo de Deus e o objeto da Sua ira, e como aprendemos em “Dia do Senhor” (2-4) – por natureza, todo homem é um pecador indigno que merece tanto o castigo temporal quanto o eterno. O que precisamos?

Precisamos escapar do castigo de Deus em primeiro lugar! (muitos negam a pecaminosidade do homem, então, não entendem bem o custo da salvação, e compram um “triciclo” que não serve, ou seja, tentam entrar nos céus com um pagamento particular que é parcial). Mas o Espírito Santo diz que todo homem é pecador e merecedor da ira de Deus, e Isaías ensina que os nossos pecados são como escarlate (1.18). E vemos a tensão: por um lado, para viver bem, precisamos de paz e reconciliação com o Criador, e um relacionamento bom com Deus e com o nosso próximo. Mas, por outro lado, pecamos contra Ele e, assim, incitamos a Sua ira contra nós. Agora temos de satisfazer a sua justiça, quer dizer, temos de pagar a dívida – e quanto custa? “A sua justiça requer que o pecado cometido contra a Sua suprema majestade seja castigado também com a pena mais severa, quer dizer, com o eterno castigo do corpo e da alma” (P/R 11). Romanos 6.23 diz que “o salário do pecado é a morte”; o pagamento é morte. E Isaías 1.28 diz que todos os que não fizerem o pagamento serão destruídos e perecerão. Se um pecador quiser escapar da punição de Deus, ele tem de satisfazer a justiça de Deus, quer dizer, tem de sofrer debaixo da ira do Senhor com morte eterna.

E, se quisermos viver em paz com Deus, é necessário fazer mais do que escapar da ira do Senhor. Vamos imaginar que Deus não se ira mais conosco, mas também não tem comunhão conosco. Imagine que Ele não está irado mais, mas também não o ama. Precisamos mais do que apenas escape da ira do Senhor, precisamos de comunhão restaurada com o Criador – acesso ao trono da graça. Não é suficiente escapar da punição de Deus, porque sem comunhão com Deus não há vida. Na verdade, o horror do inferno é a separação de Deus. A angústia (pavor e horror do inferno) consiste na ausência de Deus – escape do castigo não será suficiente. Poucos entendem isso – eles têm medo da ira do Senhor e, por isso, tentam escapar dessa ira com uma boa vida (evitam palavrões, tentam ser honestos, etc.), mas nunca buscam comunhão com Deus. Como é que podemos desfrutar da comunhão com Deus? Existe só um caminho: obedecer a todas as leis de Deus perfeitamente – com justiça haverá salvação. Esse é o preço da comunhão, quer dizer, o homem que quiser comunhão com Deus tem de obedecer a todas as leis.

Então, há duas coisas que precisamos: escapar da ira de Deus e ser recebidos em graça, novamente. Se quisermos estas coisas, temos de pagar pelos nossos pecados com a nossa vida e, depois de pagar a dívida, temos de viver com justiça perfeita conforme todas as leis do SENHOR. Vemos, então, que é muito difícil satisfazer a justiça de Deus; salvação é muita cara; o preço é bem alto… Você pode pagar? Você pode morrer eternamente debaixo da ira de Deus e, ao mesmo tempo, viver em comunhão com ele em obediência perfeita? Esse é o preço… E sabendo do preço, também reconhecemos o problema, o qual veremos no segundo ponto:

2. O problema – o que nos impede de satisfazer a Sua justiça

A Bíblia é clara quando afirma que somos responsáveis pelos nossos pecados, e aponta as consequências desses pecados. Então perguntamos: “Podemos, nós mesmos, satisfazer essa justiça? Temos algo para oferecer a Deus?”.

Vocês podem fazer o pagamento pelos seus pecados que é a morte eterna? Vocês podem viver nesta vida sem pecado – uma vida perfeita? Crianças, vocês podem passar um dia sem fazer nenhuma coisa má?

A Bíblia é clara quando diz que não! Todos são tão corruptos que não são capazes de fazer bem algum. Somos inclinados a todo o mal e, por isso, não podemos satisfazer a justiça de Deus. Isso é o nosso problema. Vocês creem nesta revelação? Se vocês creem, sabem das consequências desta doutrina? Muitos dizem duas coisas contraditórias ao mesmo tempo: de um lado, falam que o homem é pecaminoso e, de outro, dizem que o pecador é capaz de contribuir para a sua salvação. Eles não aceitam as verdades duras; o fato de que o homem é depravado. Mas, vocês sabem das consequências do problema do nosso pecado?

1) Significa que até os bebês que estejam fora do reino de Deus (sim, até os bebês fofinhos) serão punidos assim como todos os pecadores (vs. Pelágio).

2) Significa que, embora todos os Cristãos aqui, orem, para que possam obedecer a Lei de Deus cada vez mais, a sua obediência não pode mudar a sua situação com Deus. Quer dizer, se você passasse um dia sem desobedecer a seus pais (que seria algo ótimo), ou se passasse um dia sem ter nenhum pensamento mau, enquanto ajuda outras pessoas, não o ajudaria a se aproximar de Deus. Acreditam nisso?

3) O problema é que não podemos fazer nada para obter salvação – não podemos fazer nada para escapar da ira de Deus, a não ser morrer eternamente. Não podemos fazer nada para sermos recebidos em graça, muito menos, obedecer perfeitamente. Até Mãe Teresa não obedeceu perfeitamente. Embora ela tenha feito muitas coisas impressionantes e boas, ela não se aproximou, não deu nenhum passo para mais perto da sua salvação por causa desse socorro e amor humanitário. Ela não pôde achar reconciliação e paz com Deus pelas suas próprias ações.

E também você – Você reconhece que, embora você se empenhe em ofertar generosamente à Igreja, ajudar as crianças e orar fielmente todo dia, você não pode achar reconciliação e paz com Deus pelas suas próprias ações?

Entendem o nosso problema? É uma mentira ensinar que a nossa salvação depende da nossa decisão de aceitar Jesus. A Bíblia mostra o erro de tantas, das chamadas igrejas, que ensinam que a sua salvação depende de você. Não é o caso que Cristo abriu a porta dos céus, dando acesso a todo homem que decidir passar pela porta: Eis a salvação – Cristo está esperando você agora, entre! É só aceitar Jesus e você já está pronto – você só tem de fazer o primeiro pagamento; pode ser alguns centavos – só aceite Cristo! Está dentro de você! Tem de decidir logo!

Mas aquele que crê que todo homem é um pecador indigno e depravado, vai reconhecer o problema. Não somos capazes de fazer nenhum pagamento parcial, nem mesmo alguns centavos! Temos de enfatizar isso, porque somos fracos e muitas vezes esquecemos o seguinte: se não estamos vivendo em comunhão viva, e próximos de Deus; se não estamos prestando atenção à mensagem do evangelho; se não estamos adorando Deus nos cultos, com corações gratos e um bom entendimento que é um privilégio imenso, e se não estamos mostrando amor sincero para com os nossos próximos, então há um perigo: estamos cantando os salmos, cultuando nos domingos, oferecendo as nossas ofertas e ajudando os nossos irmãos com motivos errados para contribuirmos com a nossa salvação! Isso não vai mudar a nossa situação com Deus, não! Veja de novo a resposta do catecismo! Todos os dias aumentamos a nossa dívida! O homem está enganado se acreditar que seu comportamento pode contrabalançar seus pecados um pouco. Tal pessoa não conhece a graça. Isto é o nosso problema: não podemos satisfazer a justiça de Deus. Merecemos a morte e separação de Deus – e não temos como resolver a situação. A segunda parte do problema é que é difícil achar alguém que pode nos ajudar.

Onde podemos encontrar pagamento neste mundo? Existem outras criaturas além de Adão e Eva e os seus descendentes? Talvez uma delas possa fazer o pagamento. Pensamos nos anjos, sem pecado, sempre na presença de Deus, servindo a Deus com fidelidade. Eles podem ser nossos substitutos? Ou pensamos nos animais? No Antigo Testamento eles pagavam pelos pecados dos israelitas. Deus não falou em Lv 17.11? A respeito dos animais, o SENHOR revela que o sangue deles nunca tirou pecados completamente. Hebreus 10.4 diz: “Porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados”. Isaías 1.11 diz: “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios?” Animais tiveram uma função (os sacrifícios apontavam e antecipavam o trabalho de Cristo Jesus), mas eles não podiam satisfazer a justiça de Deus. Por que não? Porque Deus não vai castigar o animal ou o anjo pelos nossos pecados! “A alma que pecar, essa morrerá”, diz Deus em Ezequiel 18.4. Você pecou? Você tem de morrer! E, além disso, perguntamos como o profeta Naum: “Quem pode suportar a indignação de Deus?” (Naum 1.6). Vocês estão vendo o problema? Deus está lá nos céus, e estamos aqui na terra – não temos condições de atravessar o abismo; só conhecemos Deus porque Ele tem se revelado a nós. E que revelação maravilhosa! – porque a justiça de Deus não é uma justiça sem misericórdia. Deus mostrou o problema em cores vivas para que possamos reconhecer o que precisamos, e possamos buscar Jesus com todo o nosso coração!

3. O pagamento: o que Deus fez para satisfazer a Sua justiça

Pergunta e resposta 15 podem dar a impressão de que é uma solução nossa, do lado do homem – depois de avaliar o problema e o preço, parece que alguém logicamente concluiu: bom, então é claro que precisamos de um mediador. Mas veja bem, o homem não chegou a essa conclusão de forma alguma! O homem caído estava deslizando para o inferno na lama dos seus pecados sem se sentir preocupado com nada. Com os nossos pecados não reconhecíamos que precisávamos da salvação de Deus; éramos cegos, não sabíamos disso nem nos preocupávamos. Só formulamos as primeiras perguntas neste Dia do Senhor, porque já sabíamos a resposta! É a nossa confissão! Por isso sabemos a resposta! Já conhecemos Jesus Cristo – reconhecemos a obra d’Ele como uma parte do plano perfeito do Deus eterno! E assim como uma criança, tentando chamar a atenção do professor, porque sabe a resposta, nesta confissão também alcançamos a resposta com muita alegria – Deus providenciou um Salvador! Há esperança, alegria e paz, porque ficamos animados com a resposta de Deus que achamos na Bíblia!

Mas, esperem aí, irmãos, e pensem nisto: considerem o perfil (natureza) do mediado, a salvação não é barata; a nossa ferida está sem cura humana. Não é coisa leviana atacar a majestade de Deus? O homem não pode pagar, e a situação é tão ruim que ele nem pode imaginar como satisfazer a justiça de Deus. Mas Deus sabe! E Ele nos revelou o que precisamos: “homem verdadeiro e justo, e, ao mesmo tempo, verdadeiro Deus”. Está vendo? Só Deus mesmo pode salvar o homem – só Deus mesmo pode satisfazer a sua própria justiça!

Qual é a conclusão dessa situação? Precisamos de alguém que seja os dois: um libertador e um mediador. O libertador nos resgata do castigo do inferno (o primeiro problema – escapar do castigo); o Mediador traz a paz e reconciliação entre Deus e o homem (o segundo problema – a falta de comunhão). O Mediador faz isso por satisfazer a todas as exigências da justiça de Deus – por nós e em nosso lugar. Ficamos tão alegres, porque o pagamento foi realizado completamente!

Nas semanas que vêm vamos estudar como fomos salvos. Pela graça do Senhor, nós pecadores que somos, podemos estudar exatamente o que Deus fez em nosso favor! E quando estudarmos esta confissão alegre, vamos nos lembrar da palavra tão importante na pergunta 15: a palavra é “buscar”. Quando conhecermos o Mediador, devemos buscá-Lo! É uma confissão que nos chama à ação – Deus se revelou e o povo dele tem de lhe buscar; não como uma parte do pagamento, mas por causa da nossa alegria e gratidão! Cristo Jesus é o Mediador – Ele é o único que pode conseguir o que precisamos – é só por meio dele que podemos glorificar a Deus eternamente. E, reconhecendo isso, buscamos Jesus com toda a nossa força; dedicando-nos ao serviço d’Ele com gratidão!

O preço da nossa salvação é muito caro – e nenhum homem, anjo ou animal pode obter esta salvação por nós. Agora ouça o mandamento do SENHOR: Busque o SENHOR e viverá eternamente! Porque a justiça de Deus foi satisfeita – há um caminho para os céus, em Cristo. Podemos escapar e sermos recebidos de novo, em graça – em Cristo. Vamos buscar o mediador e libertador perfeito – Jesus Cristo – com alegria que se manifesta no nosso comportamento dia após dia.

Amém.

 

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Pr. Julius VanSpronsen

Pastor da Igreja Reformada em Surrey, Colômbia Britânica. Desde 2008, serve as Igrejas Reformadas do Brasil como plantador de igrejas. B.A. Trinity University, M.Div. Theological College of the Canadian Reformed Churches.

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