Pregação preparada pelo Pr. Abram de Graaf

Leitura: Romanos 02.01-11; 03.01-20

Texto: Dia do Senhor 04

 

Queridos irmãos em Jesus Cristo,

É normal em todas as escolas que o professor avalia os seus alunos. E os resultados finais são escritos num boletim: Português: 08; Matemática: 06; Comportamento: 9; e há muito mais. A cada ano os resultados são avaliados e se tiver bons, será premiado. OU poderá continuar num grau mais alto, OU receberá a prova de que se formou. Dessa forma os alunos são estimulados para produzir bem e eles descobrem o nível deles; em algumas matérias você não é tão bom, mas em outras matérias você produz bem. E isso é bom para o seu respeito próprio. Pois ninguém gosta de ouvir: tu não és bom e tu não prestas de jeito nenhum. E se ouvir isso REGULARMENTE, um aluno fica sem estímulo e finalmente pensa: não me importa nada! Não presto e nunca faço uma coisa boa! Vai embora! Se um aluno cada vez de novo é criticado, ele fica desmotivado. E por causa disso os professores tentam estimular os seus alunos premiando os bons resultados. Isso estimula os alunos e lhes dá um brio.

Considerando isso, a situação na igreja deve ser estranha para muitas pessoas. Na sociedade elas são premiadas por causa dos bons resultados, mas aqui na igreja elas ouvem: Não vale nada o que você fez; você é corrompido e não consegue fazer bem algum e é inclinado para todo mal. Esta mensagem está perpendicular à sua experiência diária. Esta mensagem dá um conflito; e quando as pessoas ouvem esta mensagem a cada domingo, eles ficam sensíveis; e finalmente se irritam com esta mensagem. Às vezes as pessoas já ficam irritadas se ouvirem os primeiros capítulos do nosso Catecismo. Imagine que o pastor a cada domingo toque nesta tecla, falando sobre a nossa miséria, sobre os nossos pecados; sobre o fato de que somos corrompidos e não conseguimos fazer bem nenhum e somos inclinados para todo mal. Há pessoas que se irritam, porque não sentem isso, e outras acreditam e ficam tristes, até depressivas.

Considerando tudo isso o Domingo 4 não é uma das partes mais popular do nosso Catecismo. Pois enquanto nós, sendo filhos de Deus, tentamos fazer o melhor, ouvimos a reação de Deus, dizendo que não conseguimos fazer coisas boas; somos incapazes e maus, inclinados para todo mal. Imagine que ouvirá isso a cada dia, enquanto está se esforçando para fazer coisas boas… “Sem Valor!”; Ruim! Um desastre! Não presta!

Isso irrita e provoca uma reação.

Então, irmãos, uma tal reação encontramos no Domingo 4 do nosso Catecismo.

O Catecismo reage como um advogado contra a acusação de Deus que somos corrompidos e não conseguimos fazer bem algum e somos inclinados para todo mal; Esta acusação provoca uma reação e como um advogado o Catecismo nos defende aqui. O nosso advogado aponta circunstâncias atenuantes para nos desculpar; o advogado duvida se o castigo de Deus combina com os nossos pecados; o advogado dirige um apelo para a misericórdia de Deus. Pode dizer: O nosso Catecismo apela para o Supremo Tribunal. E vamos ver o seguinte:

Tema: Deus recusa os motivos do nosso apelo

Deus recusa:

  • 1. A nossa desculpa da impotência
  • 2. O nosso pedido de diminuição de pena
  • 3. O nosso pedido de clemência

1. Deus recusa a nossa desculpa da impotência

Há pessoas que dizem que Deus é cruel. Pois Deus exige coisas, que nós não podemos fazer. Imagine: Uma pessoa que é deficiente mental. Ele entra numa empresa onde trabalham só pessoas saudáveis. O chefe não considera o seu estado deficiente e exige que o deficiente mental faça o mesmo trabalho como os outros e no mesmo tempo. E se não conseguir, será demitido. Depois de um dia já é claro que ele não pode produzir como os outros; é demais. O chefe exige coisas que ele não pode cumprir por causa da sua deficiência. Quem observa uma tal situação, pode se perguntar: isso é honesto? Não é cruel se um chefe exige coisas impossíveis duma pessoa com deficiência mental?

Da mesma maneira, irmãos, reage o Catecismo, quando diz: “Então, Deus exige do homem, em sua lei, o que este não pode cumprir. Isso não é injusto?”. E a resposta da Bíblia é assim: Não! Pois Deus criou o homem de tal maneira que este pudesse cumprir a lei. O homem, porém, privou a si mesmo e a todos os seus descendentes desses dons. Deus nos leva até o Paraíso e nos mostra que ELE criou o homem BOM. Deus o criou de tal maneira que ele podia cumprir o que Deus exigiu. No fim da criação Deus NÃO disse que Adão foi corrompido e não conseguia fazer bem algum e foi inclinado para todo mal. Nada disso! Deus disse que tudo era muito bom. Assim Deus avaliou TUDO no último dia da primeira semana: TUDO era muito bom. TUDO. Também o homem. Adão era inocente neste momento. Ele fez coisas boas. Ele deu a Deus o que Ele merecia e fez o que Deus exigia. Mas,… foi por causa da queda que isso mudou. Naquele momento a natureza humana era corrompida de tal maneira que Adão não podia mais cumprir o que Deus exigia. Como devemos imaginar esta mudança, a bíblia não nos explica. O catecismo também não diz nada sobre isso, pois a bíblia não fala sobre isso. O catecismo só registra os fatos e lendo a bíblia o Catecismo tira a conclusão que depois da queda o homem não foi mais capaz de fazer o que Deus exigiu. O Catecismo concorda com o apóstolo Paulo, que escreveu na sua carta aos Romanos: “Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; TODOS se extraviaram, à uma se fizeram inúteis”. Assim é a situação depois da queda.

Bom, diz o nosso advogado. Posso entender isso, mas não é justo que Deus conte com isso? Não é justo que Deus adapte as suas normas e regras nesta nova situação? Devemos ter cuidado com esta pergunta, irmãos e devemos bem distinguir neste caso. Devemos em primeiro lugar constatar que DEUS não fez nada mal, mas o HOMEM estragou tudo. As normas de Deus não são erradas, mas o homem, que se corrompeu, é errado. Deus conservou as normas para nos mostrar o que é errado. Para nos mostrar como o homem se corrompeu. Talvez possa explicar isso com um exemplo. Pode comparar isso com a situação duma pessoa que não pode engordar demais. O médico disse para ela. Vou te dar uma dieta. Tem que viver conforme esta dieta. Agora você usa a medida 40 nas roupas, isso não pode aumentar, pois é ruim para a sua saúde. Se ela não segue a dieta e engorda as roupas tamanho 40 ficam apertadas demais. Então, se acontecer ela pode fazer duas coisas: OU voltar para a dieta, OU corrigir a sua medida. O médico pode dizer: bom pode também ficar com 44. Mas todo mundo entende que ele se torna mentiroso, pois antes disso ele disse que não era bom para a saúde. Se foi verdade, ele não pode mudar a sua opinião.

Então, é a mesma coisa com as normas que Deus nos deu no inicio da vida humana; estas normas nos lembram à vida boa e agradável no paraíso. A lei de Deus nos lembra como Deus criou o homem: BOM. Quer dizer: o homem sabia amar a Deus e ao seu próximo. Deus criou um Paraíso, em que Ele foi honrado e glorificado e onde não houve mentira, nem assassino, nem violência. Foi assim no início e devemos nos lembrar disso.

Mas o homem não quer pensar nisso. Vivemos num mundo onde Deus não é honrado nem servido; vivemos num mundo onde as pessoas provocam um ao outro, onde as pessoas brigam, mentem, roubam e muito mais; e nós descobrimos que somos inclinados a fazer a mesma coisa e por causa disso queremos alargar as normas; não queremos saber que vivemos mal; que pecamos todos os dias; por causa disso os homens querem deslocar os limites e alargar as normas, para não sentirem os limites da lei de Deus e para que não se sentirem culpados perante Deus. Mas fazendo isso, as pessoas se enganam. Elas agem como a mulher, que comprara uma medida maior. Naquele momento PARECE que ela não fez nada erradamente; Ela se engana, pois ela engordou e continua a ultrapassar as regras do médico. Com roupas mais largas ela não SENTE isso, pois ela alargou a medida das suas roupas, mas ela não pode enganar o médico, pois o médico logo vai ver que ela não vive conforme a dieta que ele tinha dado.

Assim é a nossa situação. Nós não podemos nos desculpar. Somos culpados junto com Adão. Nós herdamos a natureza pecaminosa de Adão, e somos também culpados com Adão. O apóstolo Paulo escreveu aos Romanos (5, 18) “por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação”. A culpa de Adão vem sobre todos nós. Isso aconteceu, pois Adão foi o representante de todo o gênero humano. O que Adão fez, tinha conseqüências para todos os seus descendentes. A culpa dele se tornou uma herança para os seus filhos. Vocês podem comparar isso com a situação do Brasil. Não faz muito tempo que li no jornal o seguinte: cada criança que nasce hoje, logo tem um debito de R$ 1.200. Pois este país tem um débito de mais do que R$ 20 bilhões. Este débito no exterior está na conta de cada habitante do Brasil. Pode ser que vocês nunca viram um centavo deste débito, e pode ser que você não sabe nada disso, mas sendo habitante do Brasil você carrega o débito dos seus avôs. Isso acontece, pois somos todos brasileiros. Então duma maneira igual somos também habitantes deste mundo. Somos uma humanidade só. Somos uma unidade perante Deus. Somos todos descendentes de Adão. E por causa de Adão somos culpados perante Deus. O débito antigo de Adão se tornou uma herança para todas as crianças. Por causa disso ninguém fica inocente perante Deus e Deus não é injusto, se manter a lei dele para nos lembrar de nosso debito.

E agora? Aceitamos que somos culpados perante Deus e que somos incapazes de obedecer à lei dele, mas Deus não podia nos absolver?

2. Deus recusa o nosso pedido de diminuição de pena

Neste ponto se trata sobre A RELAÇÃO ENTRE O PECADO E A PENA. A pergunta é a seguinte: O pecado é tão serio? A resposta da Bíblia é claro: “Deus se ira terrivelmente tanto contra os pecados em que nascemos como contra os que cometemos”.

Dá para ver que o Catecismo faz uma distinção entre A NOSSA NATUREZA PECAMINOSA e OS NOSSOS ATOS PECAMINOSOS. Todos os homens nascem com uma natureza pecaminosa. A igreja confessa (Cânones de Dordt III,2): “Depois da queda, o homem corrompido gerou filhos corrompidos. Então a corrupção, de acordo com o justo julgamento de Deus, passou de Adão até todos os seus descendentes [-]. Não passou por imitação, como os antigos Pelagianos afirmavam, mas por procriação da natureza corrompida”.

Isto se chama a herança do pecado. O pecado é transmitido a cada geração nova. Uma criança nova já é um pecador, enquanto ela ainda não FEZ um pecado. Mas a natureza desta criança é corrompida, e quando cresce se mostra: a criança ultrapassa as regras que os pais colocaram; a criança é desobediente; a criança mente, briga com os seus irmãozinhos; não passa nenhum dia e a criança peca fazendo coisas erradas ou não fazendo as coisas que devia fazer; e igual às crianças são os adultos. Ninguém faz o que Deus exige na sua lei. Até os perfeccionistas não conseguem cumprir os mandamentos de Deus.

Pense em Moisés, que deu os mandamentos ao povo de Deus; ele também ensinou estes mandamentos; ele encontrou Deus e falava com Deus. Podemos dizer: Se uma pessoa tinha condições de viver perfeitamente conforme a lei de Deus, seria Moisés! Mas também Moisés foi um homem fraco e pecaminoso. Ele caiu, como Davi, que escreveu tantos salmos piedosos; como Salomão, que governou com muita sabedoria. Todos eles foram homens pecaminosos. Todos os homens são pecaminosos. Toda raça humana é contaminada pelo pecado. E Deus fica zangado por causa disso: Deus fica zangado por causa do tamanho do pecado, mas também por causa da profundidade do pecado. Pois o que é pecado? O Pecado pode se mostrar em varias maneiras. Há pecados diferentes, mas todos os pecados tem uma coisa em comum. Quem peca, magoa Deus; quem peca, nega a lei de Deus; nega a Deus mesmo, que deu esta lei; e NEGAR é a pior maneira de DESPREZO. Quem nega a uma pessoa, já matou esta pessoa no seu coração. Bom, quem faz isso com Deus, ele ou ela deve saber que Deus se ira sobre isso. E a ira de Deus é terrível. A ira de Deus é destruidora. Pense em Sodoma e Gomorra. A ira de Deus não é um sentimento, que domina Deus ou que leva Deus, como acontece às vezes com os homens, que ficam com raiva e que não sabem se controlar mais e fazem coisas que não se lembram mais depois. Deus não é assim. Deus não ultrapassa os limites. A ira de Deus não é incalculável ou caprichosa. Num momento sim e no outro momento não. Não! A ira de Deus está completamente ligada com a sua JUSTIÇA. Deus nunca se ira sem motivo. Se acontecer, há uma causa legítima para isso. A ira de Deus sempre é uma reação ao pecado do homem. O nosso pecado provoca a ira de Deus. E em algumas situações a ira de Deus se mostra claramente, como no caso de Ananias e Safira em Atos 5. Deus coloca um exemplo. A ira de Deus pode crescer até chegar ao limite, depois disso Deus age.

O que nós devemos saber é que a ira de Deus está ligada com a sua JUSTIÇA. A ira de Deus é santa, pura e sem segundas intenções, sem pecado. Esta ira de Deus leva Deus ao seu julgamento justo: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las” (Gl. 3,10); Já disse: quem nega a lei de Deus, nega a Deus mesmo. Quem nega a Deus, ele o declara morto; quem faz isso, ele coloca a ira de Deus sobre si; Quem maldiz a Deus, ele será maldito: quer dizer ele morrerá; isso conta para todos os homens que nega a Deus; todos os homens fazem isso, pois todos morrem, mas para a maioria dos homens esta morte será a morte eterna. Deus não muda isso. A pena dele é justa. Só desta maneira Deus pode eliminar a vergonha que fizemos a ele pelos nosso pecados. NÓS não damos uma outra escolha a Deus!

Mas, diz o nosso advogado, isso é verdade? Deus não tem uma outra escolha? Deus não é misericordioso? Deus não é amor? Como isso combina com o seu julgamento. Porque Deus não mostra a sua misericórdia e nos perdoa tudo?

3. Deus recusa o nosso pedido de clemência

Irmãos, se lerem o Catecismo, descobrem que nós não podemos fazer uma separação entre a JUSTIÇA de Deus e a MISERICÓRDIA de Deus. Deus não é um esquizofrênico. O amor de Deus ou a misericórdia de Deus não é um outro lado de Deus, onde conseguimos mais. Como num órgão publico; se não consegue nada num guichê, vai para um outro guichê, talvez consiga mais lá. Falando com homens isso pode funcionar assim, mas com Deus não funciona assim. Deus não é um esquizofrênico. Deus é uma unidade perfeita. Não há sentimentos opostos em Deus. A misericórdia de Deus não está oposta à justiça de Deus. No caso dos homens isso pode acontecer. Com Deus não. O fato que Deus é justo, já mostra que Deus é misericordioso. Pois quem age justamente, ele mostra amor; Amor a todos os partidos e a todos os interessados. Quem favorece um partido mais do que o outro, ele não é justo e não fala com amor. Neste caso há dois partidos: Deus e o Homem. E destes dois, só Deus é justo. Só ele pode avaliar e julgar o nosso caso puramente. E neste caso devemos saber que Deus não pode negar-se a si mesmo (2 Tim. 2,13). O que Deus disse ou prometeu, não mudará. Quando Deus disse no Paraíso: “não comerás, porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. Ele não pode anular estas palavras. O que foi dito, foi dito. O sim de Deus é sim, o seu não é não. A segurança e a credibilidade estão em jogo. Pense nas palavras de salmo 111: a sua justiça permanece para sempre. Deus é fiel. Ele faz o que Ele promete: Ele cumpre as suas promessas e os seus avisos. A sua justiça exige isso. O pecado é uma afronta para Deus, que só pode ser anulada, se o pecador for anulado; quer dizer se o pecador for castigado com a pena eterna em corpo e alma. Este julgamento permanece. A justiça de Deus exige isso. Mas no outro lado Deus vem na sua misericórdia com uma solução, que combina com a sua justiça. Esta solução é Jesus Cristo. Ele cumpre a justiça de Deus, cumprindo a lei de Deus e tomando a responsabilidade em si. Ele toma o castigo, que nós merecemos; Deus não anula o débito; Deus não anula o seu julgamento; Deus não anula o castigo eterno. Deus conservou tudo isso e por causa disso Jesus se tornou o sacrifício. Quando ele estava pendurado na cruz, a maldição de Deus estava nas suas costas. Fazendo isso ele se tornou uma benção para todos nós. Em Jesus Cristo se unem a JUSTIÇA E A MISERICORDIA DE DEUS. Em Cristo recebemos GRAÇA; NÃO É UMA GRAÇA BARATA, MAS UMA GRAÇA IMPAGÁVEL. Graças a Cristo a graça de Deus e uma verdadeira graça.

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Abram de Graaf

O pastor Abram de Graaf é “Doctorandus” (Drs) em Teologia e um dos professores do Instituto João Calvino (Aldeia, Camaragibe-PE). Ele é pastor da Igreja Reformada de Hamilton, Canadá, enviado como missionário às Igrejas Reformadas do Brasil, desde o ano 2000. É Diretor do Projeto Dordt-Brasil. Ele mora em Maceió e também desenvolve projetos nessa cidade.

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