Pregação preparada pelo Pr. Elissandro Rabêlo

Leitura: Gênesis 01.26-28,31; 02.07,15-17; 03.01-06

Texto: Dia do Senhor 03

 

Amados irmãos no Senhor Jesus Cristo

Estudando o Domingo 2, aprendemos que a lei de Deus é um espelho que revela a nossa miséria. Este é o assunto de domingo 2 : o conhecimento da nossa miséria pela lei de Deus. Se a lei de Deus revela o nosso pecado, podemos nos perguntar: De onde vem nossa miséria? Até que ponto o pecado afetou a nossa vida? Domingo 3, que trata ainda da nossa miséria, procura responder estas perguntas à luz da palavra de Deus. Domingo 3 nos mostra qual é o ensino bíblico acerca da origem e da profundidade da nossa miséria. Vejamos então qual é a verdade da Bíblia ensinada no catecismo (dom.3) sobre a origem da nossa miséria e sobre a profundidade da nossa miséria.

1. A origem da nossa miséria

Tratando da origem da nossa miséria ( do pecado), já foram apresentadas, ao longo dos séculos, as mais diversas idéias e pensamentos por parte de alguns teólogos e filósofos da humanidade. Alguns acreditam que o contato da alma com a matéria a tornou pecaminosa e deu assim, origem a toda miséria que há no mundo. Este é o pensamento do gnosticismo que vê matéria como algo mau em sua essência. Outros ensinavam que as almas dos homens pecaram numa existência anterior e, portanto, entraram no mundo em uma condição pecaminosa. Essa é a teoria do pré-existencialismo.

Não devemos atentar para o que os homens pensam ou dizem baseados em suas teorias e idéias especulativas acerca da origem da nossa miséria, mas devemos atentar para o claro e verdadeiro ensino da Bíblia que revela realmente de onde viemos e qual é a origem de nossa miséria. Por isso é importante atentarmos para os primeiros capítulos do livro de Gênesis que trata da origem de todas as coisas, inclusive da nossa miséria.

Nos capítulos 1 e 2 do livro de Gênesis encontramos a belíssima narrativa da criação do mundo e de tudo que nele há e principalmente da criação do homem por Deus. O SENHOR, por seu poder e conforme a sua própria vontade, criou do nada todas as coisas. Tudo o que existe ao nosso redor bem como nós mesmos não é fruto do acaso ou da evolução, mas do ato criativo de Deus. A Bíblia diz que Deus não apenas criou todas as coisas, mas também que ele fez tudo muito bom. Depois que tudo estava feito, viu Deus tudo quanto fizera e eis que era muito bom (Gn. 1.31). Tudo era muito bom, ou seja, tudo era perfeito, completo e nada faltava. Cada obra estava no seu devido lugar cumprindo perfeitamente o propósito para o qual fora criada por Deus.

Tudo quanto fizera de bom inclui principalmente o homem. O homem foi criado muito bom, isto é, em total perfeição e capacidade para cumprir sua função estabelecida por Deus na criação. Deus criou o homem bom e conforme à sua imagem e semelhança. É isso que nós confessamos com base na Bíblia (Gn. 1.26-28). O que significa o fato do homem ter sido criado à imagem e semelhança de Deus? Quanto a isso podemos dizer o seguinte:

  • 1.1 – O homem criado à imagem de Deus recebeu do Seu Criador uma posição e tarefa especiais para cumprir na terra.

Por ter sido feito à imagem e semelhança de Deus, o homem foi colocado por Deus acima das outras criaturas. Deus lhe deu uma posição excelente. Ele era a coroa da criação. Era o representante de Deus na terra com a tarefa de dominar e governar a criação. O SENHOR ordenou ao homem que sujeitasse a terra e tivesse domínio sobre todas as outras criaturas (1.26,28). Com esse propósito, Deus criou um belo jardim e colocou dentro dele o homem que tinha formado com a tarefa de cultivá-lo e guardá-lo (Gn.2.8,15).

O primeiro casal, Adão e Eva, recebeu do SENHOR o privilégio de viver no paraíso em plena harmonia com a natureza e principalmente em comunhão com o Seu Criador. Eles podiam muito bem refletir a glória do Seu Criador no domínio de toda a criação que estava sob sua responsabilidade.

  • 1.2 – O homem criado à imagem de Deus foi revestido de bondade, justiça e santidade.

“Estas três qualidades não são próprias do homem, mas são próprias de Deus. Bondade, justiça e santidade compõem a natureza de Deus. Deus em sua essência é bom, justo e santo. E quando o homem foi criado por Deus, Deus lhe deu estas qualidades em seu primeiro estado no jardim do Éden”. O fato do homem ter sido criado dessa maneira implica que ele tinha total capacidade de está na presença de Deus e concordar em tudo com a vontade de Deus. Ele podia não pecar. Tinha plenas condições de cumprir a vocação e o propósito para o qual fora criado por Deus. O homem tinha tudo que precisava em suas mãos. Podia viver com Deus e para Deus, pois era santo, justo e bom.

Com que propósito Deus criou o homem à sua imagem? Havia uma necessidade para isso? Deus precisava criar o homem? Não. Deus criou o homem por sua livre vontade e também com um propósito maravilhoso: Ter um relacionamento de amor com ele. Deus resolveu criá-lo e quis também viver em comunhão com ele. Nosso catecismo nos explica o propósito pelo qual Deus criou o homem bom e à sua imagem: 1) para conhecer corretamente a Deus Seu Criador; 2) amá-lo de todo o coração; 3) viver com ele em eterna felicidade, para louvá-lo e glorificá-lo.

O homem tinha condições de conhecer corretamente a Deus, viver com ele, amá-lo e glorificá-lo, pois foi criado por Deus com este propósito e apto para o seu cumprimento. O SENHOR deu tudo o que o homem precisava; nada lhe faltava naquele bonito jardim. Ali ele fora colocado não para viver para si mesmo, mas para viver para Deus e, vivendo para Deus ele tinha a verdadeira felicidade.

O fato do homem ter sido criado à imagem de Deus, não quer dizer que ele foi criado como um robô para obedecer automaticamente a vontade de Deus. O homem foi criado como um ser moral, isto é, com total responsabilidade por seus atos. Deus lhe deu a responsabilidade de dominar a criação, cultivando e guardando o jardim. Ele podia fazer isso muito bem e com muito prazer. Também o SENHOR Deus lhe deu a seguinte ordem: “ De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn.2.16,17). Qual a razão dessa ordem de Deus para o homem? Tal ordem não foi uma emboscada ou armadilha criada por Deus para o homem cair, mas foi um teste para ver se o homem queria realmente e voluntariamente demonstrar o seu amor por Seu Bondoso Criador. Ele também podia obedecer esta única ordem. Vemos então que o SENHOR, ao dar este mandamento ao homem, manifestou sua justiça e bondade com o homem avisando-lhe claramente das conseqüências de sua desobediência, não exigindo demais do homem e, ao mesmo tempo, dando-lhe plenas condições de cumprir perfeitamente a sua vontade. Na verdade este mandamento não era um mandamento para a morte, mas para a vida.

Depois dos capítulos 1 e 2 de Gênesis nos deparamos com o capítulo 3, o capítulo mais triste e lamentável da Bíblia. Este capítulo narra-nos o fato histórico da entrada do pecado no mundo, da origem da nossa miséria. Gênesis 3 está ligado com Gênesis 1 e 2. Gênesis 1 e 2 relata-nos o período no qual tudo era muito bom, pois o homem vivia em harmonia com a natureza e em plena comunhão com Deus Seu Criador. Em Gênesis 3, Deus nos revela que, em decorrência da desobediência do homem à sua ordem, o pecado entrou no mundo e assim deu-se origem à nossa miséria.

A nossa miséria, portanto, vem da queda e desobediência de nossos primeiros pais Adão e Eva no paraíso. Motivados por Satanás e levados por sua própria cobiça, Adão e Eva desobedeceram a ordem de Deus. Gênesis 3.6, mostra-nos claramente o momento exato em que se deu origem a nossa miséria: “ Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido e ele comeu”. A queda do homem foi o seu ato de desobediência a Deus, exatamente o seu ato de comer do fruto proibido. Este foi o primeiro pecado, o pecado original que deu origem a toda miséria e pecado que há no mundo. Um ato simples, porém, terrível, pois deu origem à miséria do homem.

Que conclusão podemos tirar do fato de Deus ter criado o homem bom e à sua imagem, em plenas condições de fazer a sua vontade? Que a origem da nossa miséria não está no ato da criação do homem por Deus, mas está no ato da desobediência do homem a Deus. Isso significa que Deus não é o culpado pela miséria que há no mundo, mas o homem é o principal responsável por sua miséria. Deus não criou o homem mau e perverso, mas bom e à sua imagem. Portanto, Ele não é o autor do pecado. A culpa da miséria que há no mundo não é sua e nem mesmo pode ser. Pois, se considerarmos Deus como o autor do pecado e o principal responsável por toda miséria que há no mundo, ele então deixa de ser Deus. A Bíblia não ensina que Deus é o autor do pecado. Pelo contrário, segundo as Escrituras, o SENHOR Deus: 1) É justo e perfeito em si mesmo e em todas as suas obras ( Jó 34.10; Dt. 32.4); 2) Ele não pode ser tentado pelo mau e ele mesmo a ninguém tenta ( Tg.1.13).

De fato, Deus deu a certeza da entrada do pecado no mundo. Ele sabia que o homem ia cair e decretou que isso acontecesse. Pois ele é Deus e portanto conhece todas as coisas antes mesmo de acontecerem. Mas não podemos dizer que a causa e a origem de nossa miséria está em Deus e que ele é o autor responsável pelo pecado, pois ele não criou o homem mau e perverso, mas o criou à sua imagem e semelhança: bom, justo e santo, capaz de concordar em tudo com a Sua boa e perfeita vontade ( CB. Art.14). Não Deus, mas o homem é responsável por sua miséria. Essa é a conclusão do sábio pregador que escreveu em Eclesiastes 7.29: “Eis o que tão somente achei: que Deus fez o homem reto, mas este se meteu em muitas astúcias.”

2. A Profundidade da Nossa Miséria

Por sua desobediência, Adão e Eva erraram o alvo para o qual foram criados. Eles não somente se tornaram os principais responsáveis pela origem de nossa miséria, mas também caíram do estado excelente em que se encontravam. Por pecarem deliberadamente contra Deus, continuaram sendo seres humanos normais com vontade, desejos, pensamentos; porém, perderam todos os dons excelentes que tinham recebido de Deus (santidade, justiça e bondade). Ambos que eram santos, justos e bons, capazes de obedecer a Deus perfeitamente, tornaram-se perversos e corruptos em todos os seus pensamentos, desejos e práticas. A desobediência provocou uma mudança profunda e terrível na vida de Adão e Eva. Logo depois da queda, Adão e Eva colheram o fruto de sua desobediência. A relação íntima que tinham com Deus foi cortada por causa do pecado, pois, tornando-se corrompidos, não tinham mais condições de refletir a imagem de Deus perfeitamente nem de viver livremente na sua presença. Por causa disso foram expulsos do jardim. Pois Deus é santo e não suporta pecado e com ele não habita o mal. Tornaram-se merecedores da morte e destinados a ela. A queda também trouxe sérias conseqüências para a relação do homem com a natureza, a qual não mais se sujeitaria livremente a ele, mas ele teria de trabalhar forçado para obter seu sustento. Tudo porque o homem se tornou totalmente corrompido.

É por causa da desobediência de nossos primeiros pais que vem a origem de nossa miséria. Por que chamamos Adão e Eva de nossos primeiros pais? O que temos a ver com o pecado deles? Adão e Eva, o primeiro casal, eram nossos representantes diante de Deus. Deus os criou e os mandou encher a terra de filhos. Estes nasceriam e herdariam a natureza de seus pais. A obediência deles seria a nossa obediência; porém, sua desobediência foi a nossa desobediência. Adão e Eva pecaram no paraíso e nós estávamos envolvidos naquele pecado. O resultado, portanto é que ali no jardim, nossa natureza tornou-se tão envenenada (corrompida), que todos nós somos concebidos e nascidos em pecado. É isso que a Bíblia ensina. No salmo 51.5 Davi confessa: “ Eu nasci na iniqüidade e em pecado me concebeu minha mãe”. E o apóstolo Paulo, fazendo alusão à queda, escreveu: “Por um homem entrou o pecado no mundo e , pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homem, porque todos pecaram” ( Rm.5.12); e no verso 19 ele diz: “ Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos ( todos) se tornaram pecadores…”.

Observe que domingo 3 usa palavras fortes para falar da profundidade de nossa miséria. Na resposta da pergunta 7 encontramos a expressão “natureza tão envenenada (corrompida)”. Quer dizer que nossos atos, palavras e pensamentos e desejos são tão corrompidos que não somos capazes de fazer algum bem para nos salvar nem de cumprir a lei de Deus perfeitamente, mas somos inclinados para o mal. A pergunta 8 afirma isso quando diz que somos tão corrompidos que não conseguimos fazer bem algum e somos inclinados a todo o mal. Algumas pessoas podem pensar que o catecismo é radical e pessimista demais quando afirma que o homem, por natureza é tão corrompido que não consegue fazer bem algum e é inclinado a todo mal. O catecismo é realista. Ele tão somente repete o ensino da Bíblia. A verdade bíblica acerca da profundidade da miséria do homem é que este está morto em seus delitos e pecados (Ef.2.1), é incapaz de por si só buscar a Deus e fazer algum bem, mas é inclinado ao mal (Rm.3.10-18); sua vontade está corrompida pois ele é escravo do pecado (Jo.8.34), seus pensamentos são corrompidos pois não compreende as coisas de Deus (I Co.2.14); seu coração é desesperadamente corrupto (Jr.17.9; Mc.7.21-23).

Essas referências são mais do que suficientes para nos mostrar que o homem é totalmente corrompido. Ele nada pode fazer de si mesmo para resolver o problema da sua corrupção natural. Ele está morto e não pode vivificar a si mesmo; ele é escravo do pecado e não pode se libertar por suas próprias forças. Será que existe esperança para o homem que não pode fazer bem algum para sua salvação e ainda é inclinado a todo mal? Há condições do pecador ser restaurado de sua terrível miséria?

Há sim, irmãos. A solução para o homem ser liberto de sua terrível miséria está no próprio Deus. O que o homem não pode fazer por si mesmo, Deus faz. O homem foi o principal responsável por sua ruína e miséria. Mas Deus é o principal responsável por sua restauração. Pelo poder do Seu Espírito Santo ele concede ao pecador o novo nascimento. Este novo nascimento é uma ação exclusiva do Espírito de Deus pela qual, ele dá ao homem arrependimento, fé e um coração novo para que este, na nova vida que agora tem, cumpra o propósito para o qual fora criado: conhecer corretamente a Deus; amá-lo, louvá-lo e glorificá-lo de todo o seu coração em todos os seus atos, palavras e pensamentos. O novo nascimento não significa a remoção completa da natureza pecaminosa. O homem regenerado continua pecador. Somente depois de sua glorificação ele alcançará a perfeição total. No entanto, nesta nova vida ele já recebeu do Espírito Santo a capacidade para fazer a vontade de Deus. Ele é uma nova criatura restaurada da profundidade da sua miséria pelo Espírito.

Quando o catecismo fala sobre a obra do Espírito de restaurar o pecador nesse contexto da profundidade da miséria do homem é para deixar bem claro o grande contraste entre a incapacidade do homem para salvar a si mesmo e o poder de Deus para salvá-lo. Os Cânones de Dort mostram isso ao juntar os capítulos 3 e 4 (A corrupção do homem e sua conversão a Deus). Nossas confissões de fé simplesmente estão seguindo o ensino da Bíblia. Basta lermos Tito 2.3-7 para vermos quão grande é a graça e o poder de Deus em favor da restauração do miserável pecador. Graças ao nosso Bom Deus que nos dá condições de viver de novo para ele pelo poder do Seu Espírito que nos faz nascer de novo e habita em nós para sempre.

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Elissandro Rabêlo

Pastor na Igreja Reformada em Cabo Frio - RJ.

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