Sermão preparado pelo pastor Elissandro Rabêlo
Leitura: Apocalipse 03.14-22
Texto: Apocalipse 03.20

Amados irmãos em Cristo e caros visitantes

Hoje vamos celebrar a ceia do Senhor. É uma alegria e uma grande benção para nós sentar-se à mesa do Senhor e comer do pão e beber do vinho. Primeiro, porque a ceia do Senhor é uma festa, uma comemoração da vitória de Cristo sobre a morte e o pecado na cruz, o que resultou na nossa salvação (perdão dos pecados e vida eterna). Além disso, é também uma benção cear com Senhor porque nesta mesa ele nos alimenta para a vida eterna com seu corpo e sangue, ou seja, por meio do Seu Espírito ele fortalece a nossa fé e nos ajuda a caminhar com perseverança até a glória.

Cristo quer cear conosco. Ele deseja que desfrutemos da sua comunhão e participemos dos seus benefícios. Por isso ele instituiu a ceia para a sua igreja. Vemos esse desejo de Cristo de cear com a sua igreja nas palavras do nosso texto. É ele mesmo quem diz: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Ap.3.20). Dentre outras coisas, esse texto expressa claramente o desejo de Cristo de cear com a sua igreja. Convidar alguém para cear junto na Bíblia é uma expressão de verdadeira amizade e íntima comunhão. Cristo falou estas palavras para a igreja de Laodicéia numa situação específica. Contudo, essas mesmas palavras do Senhor se aplicam à vida de todas as igrejas de Cristo em qualquer época ou lugar (sete igrejas; ouça o que o Espírito diz às igrejas). Com base nisso, eu vos proclamo o evangelho do Senhor Jesus Cristo no nosso texto sob o seguinte tema:

CRISTO NOS CHAMA À COMUNHÃO COM ELE

As palavras do nosso texto são bastante conhecidas. Porém essas palavras são usadas de forma errada por muitos hoje, por não entenderem o seu real significado. Exemplos:

Visão escatológica: O texto está ligado à segunda vinda de Cristo (Cristo está á porta, está prestes a chegar). Apocalipse fala da segunda vinda de Cristo, mas não aqui.

Visão evangelística: Nosso texto é geralmente usado para evangelizar os ímpios. Jesus está batendo na porta de pecadores que ele não conhece para que se arrependam. Há outros textos que podemos usar na evangelização dos incrédulos, mas não aqui em Ap.3.20. O Senhor está falando para os crentes de Laodicéia.

Visão restauradora: Nosso texto faz parte da repreensão de Cristo à igreja de Laodicéia. Cristo está chamando à igreja de Laodicéia à comunhão com ele que estava quebrada por causa do pecado. Nosso texto é um chamado ao arrependimento para uma igreja que conhece o Senhor, mas está sendo infiel a ele. Cristo quer restabelecer a sua comunhão com a igreja de Laodicéia.

Para entender bem o nosso texto, é preciso olhar o contexto da igreja de Laodicéia. Qual era a situação dos membros daquela igreja? Por que Cristo os repreende e chama ao arrependimento?

Onde estava localizada a igreja? Na cidade de Laodicéia: cidade famosa por sua riqueza. Era um grande centro comercial e financeiro onde residiam muitos milionários. Os cidadãos de Laodicéia eram ricos e, ao mesmo tempo, intoleráveis, orgulhosos e vaidosos. Ligação com várias cidades por meio de boas estradas. Indústria de lã e escola de medicina (fabricação de um bom colírio).

O problema da igreja: Cristo conhece a real situação da igreja e a expõe aos membros (14,15). Conheço as tuas obras (15): Como fez com todas as igrejas destes dois capítulos, Jesus expressa o seu conhecimento íntimo da igreja em Laodicéia. Ele anda no meio dos candeeiros (1:13,20; 2:1).
Não há menção de perseguição (Esmirna), nem de dificuldades com falsos mestres (Pérgamo). Também não há nenhum elogio da parte do Senhor. Laodicéia parece com Sardes – cristianismo nominal e acomodado. Em Sardes alguns mantiveram a fé viva (Ap.3.4), mas em Laodicéia toda a igreja era indiferente.

Os membros da igreja eram orgulhosos (17 a): eles absorveram a mesma atitude orgulhosa dos moradores de Laodicéia que por serem ricos demais, achavam que não precisavam de mais nada nem da ajuda de ninguém. Os membros da igreja vangloriavam-se de suas riquezas espirituais. Não havia humildade, mas orgulho espiritual na vida dos crentes de Laodicéia. Não se perturbavam com nenhum problema de consciência de pecado e achavam que não precisavam de admoestações. Estavam satisfeitos consigo mesmos e excluíram Cristo de sua vida e coração. Quem se orgulha de si mesmo e acha que não precisa de Cristo não tem nada e está perdido. O Senhor repreende o orgulho espiritual dos crentes de Laodicéia e revela a miserável condição em que eles estavam (17). Miserável – sem a riqueza divina; pobre – digno de compaixão; cego – podiam ter o melhor colírio da época, mas eram cegos para ver seus pecados e a riqueza de Cristo; nu – tinham uma fábrica de lã, mas precisavam das vestes brancas de Cristo, vestes de salvação.

Os membros da igreja eram mornos (15,16) – não és frio nem quente, mas és morno.
Frio – aqueles que nunca ouviram o evangelho e revelam sua natural frieza à palavra
Quente – crentes zelosos e fervorosos no serviço do Senhor.
Morno – crentes sem entusiasmo pelo Senhor, fracos, sempre prontos a se comprometer, descuidados, indiferentes. Crentes nominais e acomodados. Certamente uma nova geração de crentes que perdeu o seu fervor pelo Senhor e se tornou indiferente. Não havia interesse em testemunhar de Cristo e expandir o seu reino. Aqueles irmãos tinham a Bíblia, conheciam a verdade, mas eram apáticos, indiferentes e despreocupados com as coisas do Senhor (Hb.4.2; 6.4).

A Reação de Cristo: Qual a reação de Cristo a essa situação da igreja? Cristo não pode tolerar um cristianismo morno e indiferente. Ele manifesta o seu desgosto com crentes orgulhos e indiferentes: “Estou a ponto de vomitar-te da minha boca”. Jesus olhou para a igreja de Laodicéia, contente no seu estado de auto-suficiência e falsa confiança, e sentiu vontade de expulsá-la de sua presença. Palavras duras, mas que revelam a paciência de Cristo e a esperança de restauração para a igreja de Laodicéia. “Estou a ponto de vomitar-te da minha boca” – o Senhor ainda está esperando. Ele envia esta carta a fim de desfazer o espírito morno dos laodicenses e conduzi-los ao arrependimento. Sua carta não é uma carta de punição, mas de correção e disciplina visando a restauração de sua igreja.

O Senhor chama os membros da igreja ao arrependimento para que tenham a comunhão restaurada com Cristo (19,20). O Senhor faz isso por amor, pois quem ama disciplina. Amor e disciplina estão de mãos dadas na Bíblia (Pv. 3.12; Hb. 12.6). Eu repreendo e disciplino a quantos amo (19): A correção que vem de Deus é uma manifestação do seu amor (Hebreus 12:4-11). Quando Deus nos corrige, devemos aceitar a disciplina como ele deseja, para o nosso próprio bem. Ele quer nos conduzir ao arrependimento e à plena comunhão com ele. A disciplina aplicada pelos servos de Deus deve, também, ser motivada pelo amor (Hebreus 12:12-13). Esta atitude deve guiar os pais que corrigem os seus filhos (Provérbios 13:24), e os cristãos que corrigem os seus irmãos na fé (Tiago 5:19-20; 2 Coríntios 2:5-8).

É nesse contexto de disciplina que se encontram as palavras do nosso texto.

Eis que estou à porta e bato” – a iniciativa é do Senhor. É ele quem está batendo e chamando. Não é o pecador quem busca a Cristo, mas é Cristo quem busca o pecador, pois ele veio buscar e salvar o perdido (Lc.19.10). Ele está batendo na porta dos corações daqueles irmãos com a sua palavra (carta, anjo que prega). O Senhor nos chama ao arrependimento por meio da sua palavra. Ele faz isso continuamente por meio da pregação viva da sua palavra e por meio da exortação dos seus oficiais. Membros que estão em disciplina por seus pecados (indiferença ao Senhor e sua palavra; falta de comunhão; etc.), precisam saber que Cristo está chamando. Ele está batendo na porta do seu coração e ele aguarda a sua resposta. Cristo se preocupa com você. Ele te ama e quer restaurar a tua vida. Por isso ele te busca com a sua palavra. E o que ele deseja que você faça?

Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta” – Aqui o Senhor chama a nossa atenção para a responsabilidade humana. Ouvir a voz e abrir o coração = arrepender-se, deixar o pecado e voltar – se para Cristo. O Senhor quer mudança de vida. Ele quer que ouçamos a sua voz. Os crentes de Laodicéia tinham de deixar seu orgulho e indiferença e reconhecer sua total dependência de Cristo. Cristo coloca uma condição aqui para se ter comunhão com ele: arrepender-se, ouvir sua voz. Para cear com Cristo e participar de suas bênçãos, é preciso uma atitude correta diante do pecado (tristeza e abandono) e da palavra (alegre obediência). As ovelhas do Senhor ouvem a sua voz e o seguem (Jo.10)

“Entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele comigo”: entrar na casa de alguém e cear com ele é sinônimo de verdadeira amizade especial e garantia de real aliança. Entrar e cear representam a comunhão com Cristo. Ele entra na casa e habita naqueles que obedecem à palavra dele (João 14:23). Cear com alguém sugere uma relação especial de estar de acordo ou em comunhão (1 Coríntios 10:21; 5:11). É um privilégio especial comer à mesa do rei (2 Samuel 19:28). Não há privilégio maior do que a bênção de cear com o Rei dos reis! Cear com Cristo é ter comunhão com ele, é mais do que sentar-se á mesa do Senhor; é desfrutar dos seus benefícios e participar das suas riquezas. É somente na comunhão com Cristo que temos tudo que precisamos para nossa salvação.

Cristo aconselha os crentes a buscar nele tudo o que precisam para a salvação (18): ouro refinado, vestes brancas, colírio – figuras da salvação. A salvação é ouro porque nos faz verdadeiramente ricos (II Co. 8.9); é uma vestidura branca porque cobre a nudez da nossa culpa e nos veste da retidão e santidade de Cristo (3:4; 19:8); é colírio porque quem a possui não é mais cego espiritualmente. Quando nos arrependemos, reconhecemos nossa pobreza e a riqueza de Cristo e confiamos nele. O Senhor te dá a salvação pela graça (Is. 55.1).

O crente tem abençoada comunhão com o seu Salvador e Senhor agora e eternamente. Tal comunhão será aperfeiçoada no porvir quando o crente vencedor sentar-se com Cristo no seu trono para reinar eternamente, assim como Cristo, o Vencedor, sentou com Seu Pai em seu trono. “Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono” (21). Os vencedores terão o privilégio de reinar com Cristo (veja 2:26-27; 20:4). Tal honra não seria para os orgulhosos e auto-suficientes, mas para os humildes e obedientes. Jesus foi obediente ao Pai aqui na terra para ser exaltado ao lado dele no céu (Filipenses 2:8-9). Somente os que se arrependem e ouvem a voz do Senhor terão comunhão com ele e reinarão com ele pelos séculos dos séculos. Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Elissandro Rabêlo

Pastor na Igreja Reformada em Cabo Frio - RJ.