Sermão preparado pelo pastor Lucio Manoel
Leitura: Atos 17.1-14
Texto: 1ª Tessalonicenses 1

Amada Igreja do Senhor Jesus Cristo

As igrejas reformadas confessam que Deus reúne uma igreja eleita para a vida eterna (Domingo 21 do Catecismo de Heidelberg), ou seja, Deus reúne os seus eleitos, desde o começo do mundo até o fim dos tempos, de todos os lugares. Uma pergunta que muitas pessoas fazem neste ponto é a seguinte: como ter certeza da eleição?

Esta pregação vai apresentar dois testemunhos para a eleição, que aprendemos do primeiro capítulo da primeira carta Aos Tessalonicenses.

Tema: A pregação fiel do evangelho e a operosidade da fé, são testemunhos da vossa eleição no Senhor

1) A pregação fiel do evangelho é testemunho da vossa eleição no Senhor

Pouco tempo depois de ter iniciado uma igreja em Tessalônica, o apóstolo Paulo escreve esta carta junto com Silas (Silvano é a forma romana para Silas) e Timóteo (1Ts 1.1). Estes dois irmãos fizeram parte do grupo de evangelização que pregou o evangelho em Tessalônica, poucos meses antes dessa carta ser escrita (At 17.1-9).

Apesar do pouco tempo que passaram em Tessalônica, estes irmãos não tinham dúvida que ali Deus tinha edificado uma verdadeira igreja de Cristo. Eles estavam convictos que nesta igreja tinham verdadeiros crentes em Jesus Cristo, eleitos de Deus. Por isso, eles saúdam a igreja com a graça e a paz de Deus, Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Essa era a saudação que Paulo costumava usar para as igrejas, em outras cartas.

Paulo tinha partido de Antioquia em mais uma viagem evangelística, e levado consigo a Silas; durante a viagem Timóteo se juntou ao grupo; passaram pela Galácia e chegaram a Macedônia – onde tiveram experiências marcantes em Filipos (a conversão de Lídia, a expulsão do espírito de uma mulher que adivinhava, a conversão da família do carcereiro). Depois desses episódios eles tiveram de partir de Filipos, seguindo para Tessalônica (At 16.40; 17.1).

Chegando em tessalônica, os irmãos foram à sinagoga, e por vários sábados falavam para os judeus e para os gentios que conheciam a Lei de Moisés. Paulo proclama que Jesus era o Messias prometido ao povo de Israel. Alguns judeus e muitos gentios religiosos creram.
Mas os irmãos não tiveram muito tempo para organizar a igreja e para fortalecer a fé dos novos crentes, porque os judeus incrédulos começaram a perseguir os cristãos ao ponto dos missionários ter de fugir para Bereia.

Em Bereia, os missionários continuaram com o trabalho de pregação, e muito mais pessoas se converteram a Cristo. Mas os mesmos judeus de Tessalônica vieram a Bereia e continuaram a perseguir os irmãos. Silas e Timóteo ficaram um pouco mais em Bereia, mas Paulo teve de fugir para Atenas e depois para Corinto. Quando Paulo estava em Corinto, Silas e Timóteo chegaram e se juntaram a ele (At 18.5).

Paulo tinha preocupações com os irmãos de Tessalônica. Os missionários tiveram de deixar a cidade antes que a igreja estivesse bem estabelecida. Além disso, a perseguição dos judeus foi muito forte contra os missionários e contra os novos crentes de Tessalônica.

Quando ainda estava em Atenas, Paulo tinha enviado Timóteo para obter notícias e para consolar os irmãos de Tessalônica (3.1). Para surpresa de todos, Timóteo voltou com boas notícias, dos próprios irmãos e dos lugares por onde passou. Movidos pelas boas notícias e por algumas questões adicionais, os missionários começaram a escrever esta carta num clima de bastante alegria (versos 2,3).

Saber da firmeza da fé dos irmãos é motivo para dar graças a Deus em suas orações. Os missionários recordavam tudo que tinha acontecido em Tessalônica; a maneira como o evangelho foi pregado e como os irmãos tinham recebido a pregação com fé sincera; a maneira como essa fé se mostrou operante, em amor, paciência e esperança (frutos do Espírito Santo – Gl 5.22); a maneira confiante como estes irmãos esperavam pelo retorno de Cristo. Estas coisas testemunham em favor da eleição destes irmãos (verso 4).

O apóstolo explica que a pregação fiel do evangelho testemunhava em favor da eleição divina dos tessalonicenses. Paulo e os irmãos estavam convictos da verdade da mensagem que tinham pregado em Tessalônica. Eles pregaram o Evangelho de Cristo.

Uma coisa importante: se a carta aos Tessalonicenses é o primeiro documento escrito do Novo Testamento, como alguns estudiosos sugerem, então o verso 5 é a primeira vez que a palavra Evangelho aparece no Novo Testamento.

Esta palavra é importante nesta carta, porque os tessalonicenses já a conheciam. A palavra Evangelho era comum no mundo grego e romano. O evangelho era a boa notícia anunciada pelos arautos, pelos mensageiros oficiais dos reis da antiguidade.

Quando um reino alcançava uma vitória militar, a boa nova era proclamadas em todas as cidades do reino. Também quando nascia um novo rei ou quando um novo rei assumia o trono, esta boa notícia ou evangelho era anunciada em todo reino.

A cidade grega de Tessalônica havia sido conquistada pelo Império Romano havia muitos anos. Os moradores de Tessalônica ouviram muitas vezes o anúncio do evangelho, a proclamação das vitórias dos imperadores romanos, do nascimento dos herdeiros do trono; da coroação dos imperadores.

Mas o evangelho que os tessalonicenses conheciam não significava muita coisa para eles, pois eles estavam sujeitos aos Romanos e muitos imperadores e governadores agiam com tirania e opressão. Nem sempre o evangelho era de fato um notícia alegre e para ser festejada.
No entanto, quando estes crentes tessalonicenses estavam na sinagoga, ou talvez nas praças, e ouviram Paulo falar que Jesus era o messias prometido na Lei de Moisés, eles ouviram o Evangelho verdadeiro pela primeira vez. Foi uma mensagem tão poderosa como eles nunca tinham ouvido.

O apóstolo pregando a Palavra de Deus em nada parecia com os arautos gregos e romanos. O evangelho que os missionários anunciavam em nada parecia com os anúncios que os arautos gregos e romanos faziam.

O evangelho pregado pelos missionários não era uma notícia que chagava aos ouvidos, mas a boa nova de salvação que penetrava nos corações dos ouvintes, acendendo uma chama inextinguível.

Paulo e os demais irmãos não anunciavam um evangelho meramente de palavras, mas um evangelho de poder. Um evangelho pregado no Espírito Santo, um evangelho de certeza (verso 5).

Esse era um lado da eleição verdadeira. A eleição dos crentes se revela na pregação fiel e verdadeira do evangelho de Jesus Cristo.

É importante falar sobre isso, porque em nossos dias muitas vezes ouvimos falar sobre um falso evangelho que tem sido anunciado às pessoas. Um falso evangelho que engana as pessoas com técnicas e ensinos humanos. Um falso evangelho que entra no ouvido, mas não tem poder de penetrar no coração de ninguém. Um falso evangelho que não pode dar certeza de salvação a ninguém.

Pois se o evangelho de Cristo não está sendo fielmente pregado, as pessoas não estão ouvindo a verdade sobre Cristo. Não há operação do Espírito Santo. Não há salvação de pecadores. Não há motivo de louvor a Deus.

Sem a verdadeira e fiel pregação do evangelho, como alguém pode ter certeza da sua eleição?

2) A operosidade da fé é testemunho da vossa eleição no Senhor

O outro testemunho da eleição dos crentes é operosidade da fé. Os frutos de uma fé verdadeira, gerada pelo verdadeiro evangelho.

Paulo e os demais irmãos recordavam a maneira como os irmãos receberam o evangelho. Eles receberam a palavra em meio a sofrimentos. Eles eram imitadores do Senhor e dos apóstolos (verso 6). Cristo sofreu para ser Ele mesmo o evangelho da salvação. Também estes irmãos sofreram por receber este evangelho com fé.

Os apóstolos foram perseguidos por causa do evangelho. Os cristãos de Tessalônica também foram perseguidos. Os judeus de Tessalônica enfureceram-se contra estes irmãos porque creram no evangelho de Jesus. Estes judeus incrédulos perseguiram os irmãos. Levaram alguns diante das autoridades (At 17.6) e expulsaram a outros. Apesar dessas tribulações, estes irmãos encontraram grande gozo do Espírito Santo, no coração deles (verso 6).

A fé destes irmãos era tão firme que a sua fama se espalhou rapidamente e se tornou motivo de encorajamento para irmãos de outras igrejas.
Do verso 7 em diante, o texto mostra como este testemunho de fé dos irmãos de Tessalônica se espalhou rapidamente. E não foi porque o apóstolo Paulo, Silas e Timóteo contaram esta história onde quer que eles passaram, não! Eles nem precisaram fazer isso.

Os que eram perseguidos e fugiam da cidade testemunhavam do evangelho a todas as pessoas; se alguém visitava a cidade testemunhava da firmeza da fé destes crentes diante os judeus incrédulos. Assim, toda a província da Macedônia e também a vizinha Acaia, além de outros lugares, conheceram o testemunho de fé desta igreja.

Todos estavam ouvindo sobre o trabalho poderoso que o apóstolo e os outros irmãos estavam realizando e também como estes crentes abandonaram os idolos para servir ao Deus vivo.

Na época em que Roma conquistou Tessalônica, os irmãos tessalonicenses tinham trocado seus antigos deuses por Cesar. Eles aprenderam a reverenciar Cesar como Senhor, mas agora eles foram conquistado pelo Senhor Jesus. O senhorio de Cesar era opressor e não dava nenhuma esperança, mas o senhorio de Cristo, a quem o Pai havia ressuscitado dos mortos, os livrava da ira de Deus e prometia vida eterna.

Estes irmãos agora tinham esperança. Esperança porque pertenciam ao Senhor Jesus. Esperança de que o Senhor deles voltaria para pôr fim ao sofrimento presente. Por essa razão, eles podiam viver vidas alegres em meio de muitas tribulações.

Em todos os lugares se dava testemunho da fé destes irmãos, mas também até hoje podemos abrir a Palavra de Deus e ser edificados com a história de fé destes crentes.

Como uma igreja reformada, nós estamos em relação fraternal com outras igrejas reformadas, do Brasil e do exterior. As Igrejas Reformadas do Brasil se reúnem pelo menos duas vezes por ano, em concílio, para tratar de assuntos de interesse comum; também se reúnem em eventos para se edificarem mutuamente; e quando uma igreja precisa de conselhos recorre a outra igreja irmã mais próxima. Assim, de várias maneiras, uma igreja procura encorajar a outra a continuar firme na fé.

Mas existe outra maneira muito especial de encorajar outras igrejas: quando a fé no Senhor Jesus Cristo é tão notável em uma igreja que essa fama se espalha e chega até outras lugares e serve de encorajamento a outras igrejas. Isso aconteceu com a igreja de Tessalônica, mas nós também somos encorajados a uma vida de fé operante, usando o exemplo de fé dos Tessalonicenses.

E devemos confiar que a Palavra de Deus nos assegura da nossa eleição, quando desfrutamos da pregação fiel do evangelho todos os domingos em nosso púlpito. Essa segurança de que somos povo eleito do Senhor é experimentada também quando os frutos dessa eleição são visíveis em nossa vida: amor, paciência e esperança.

Batalhem pela eleição de vocês. Não porque vocês precisam lutar para serem eleitos – a eleição é obra de Deus somente, mas porque a operosidade da fé de vocês vai gerar frutos que estimularão vocês a progredirem mais e mais na fé em Jesus Cristo.

A história está cheia de exemplos de igrejas que deixaram de batalhar pela fé verdadeira, pelo evangelho de Cristo Jesus, e sucumbiram diante dos inimigos deste mundo ou desapareceram totalmente.

Mas vocês podem ser lembrados, na história das Igrejas Reformadas, como uma igreja eleita. E o testemunho da fé de vocês pode chegar a lugares distantes e encorajar outras igrejas a seguir o vosso exemplo.

Lutem meus irmãos, para que os dois lados da eleição sempre sejam visíveis nesta igreja. Ou seja, de um lado, a eleição de vocês seja testemunhada pela pregação fiel do evangelho e, do outro lado, a vida de vocês revele a mesma fé sincera e verdadeira, o mesmo amor, a mesma paciência, a mesma esperança na vinda do nosso senhor Jesus.

Que a maravilhosa graça do Salvador Jesus leve vocês a viverem vidas cheias de alegria e paz, mesmo em meio de muitas tribulações. Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Lucio Manoel

Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil.