Sermão preparado pelo pastor Jim Witteveen
Leitura: 1 Coríntios 16:01-24
Texto: 1 Coríntios 16:13,14

Amada Congregação de Nosso Senhor Jesus Cristo,

Se você ouvisse essas instruções, “Sede vigilantes. Permanecei firmes. Portai-vos varonilmente. Fortalecei vos!” sem saber o contexto delas, quem é que você acha deveria ouvir elas? Parece uma lista de instruções destinada a um grupo de soldados antes da começa de uma batalha. Estas são as palavras de um sargento preparando uma companhia de soldados para avançar contra o inimigo.

Mas depois há uma última palavra de instrução, que não parece se encaixar no contexto militar: “Todos os vossos atos sejam feitos com amor.”

Nesta primeira carta aos Coríntios, vemos Paulo abordando os problemas das divisões na igreja de Corinto. Lemos como Paulo admoestou os coríntios com severidade. Ele lidou com a questão da tolerância da imoralidade sexual dentro da igreja; o problema dos cristãos processando seus irmãos no tribunal; a questão de se os cristãos tivessem o “direito” de comer alimentos sacrificamos a ídolos; o tema dos papéis das mulheres na oração e profecia. Lemos nesta carta a advertência de Paulo contra a ganância e egocentrismo que os Coríntios estavam mostrando até mesmo na celebração da Santa Ceia. Lemos a advertência contra a atitude egocêntrica sobre os dons espirituais e seu uso.

As lutas da Igreja em Corinto foram numerosas, e sérias. Elas não poderiam ser ignoradas ou minimizadas. Elas tinham que ser tratadas.

Agora nós consideramos os últimos pensamentos do Apóstolo, e somos lembrados mais uma vez do fato de que, quando lemos 1 Coríntios, estamos lendo uma carta endereçada a outras pessoas. Paulo aborda algumas questões praticais – uma oferta para os santos em Jerusalém, e como esta oferta deve ser feita; os planos de viagem de Paulo, e a sua esperança de passar algum tempo em Corinto mais uma vez; uma futura visita de Timóteo, com instrução a respeito de como os Coríntios devem recebê-lo; algumas notícias sobre Apólo, que não voltou para Corinto, mas ainda esperava. Algumas saudações pessoais e um relato de uma visita que Paulo havia recebida de alguns membros da igreja de Corinto.

Mas Paulo não está apenas terminando sua carta com conversa fiada. Não é como quando você envia um e-mail para um amigo que está longe, e o termina dizendo, “Dê lembranças a todos,” ou “Espero que possamos nos reunir em breve.” Entre as saudações e informações pessoais que talvez não tenham muito para nos dizer hoje em dia, há um forte apelo aos coríntios sobre como eles devem lidar com os problemas que estavam enfrentando.

Paulo encerra a carta lembrando aos coríntios sobre seu amor por eles; a mensagem que ele tinha para eles não foi nada fácil. Ele tinha algumas coisas difíceis para dizer, e se você olhar para as palavras escritas, ele frequentemente tinha que dizer coisas dolorosas, admoestações que teriam sido difíceis para alguns dos coríntios de aceitar. Mas ao longo desta carta, o objetivo de Paulo nunca foi simplesmente exercer a autoridade, flexionar seus músculos apostólicos, bater os coríntios com palavras duras, ou simplesmente humilhá-los.

Paulo mostra uma inflexibilidade em seu compromisso com Cristo, e também em seu encorajamento a outros para manter seu próprio compromisso com Cristo – pode ver isso na maldição que ele pronuncia em versículo 22: “Se alguém não ama o Senhor, seja anatéma.” É claro que, como disse um comentarista, a comunidade cristã não é “infinitamente inclusiva.” Mas dentro dessa comunidade cristã, unida internamente por estar unida externamente, com Cristo, o princípio que governa tudo é o princípio do amor.

E assim vemos as últimas palavras de Paulo de encorajamento aos coríntios – estar atentos, permanecer firmes na fé, agir como homens, ser fortes e fazer todas essas coisas dentro de um ambiente de amor. Paulo não diz aos coríntios para imitá-lo na conclusão de sua carta. Mas este é claramente o modo de vida que ele exemplificou, já que ele falou a verdade para eles em amor.

Com esse monte de problemas, o que os coríntios deveriam fazer? Paulo primeiro lhes diz, “Sede vigilantes.” E há dois lados a essa instrução. O primeiro aspecto, podemos dizer, é escatológico – tem o fim em vista. Esta é a maneira que o Senhor Jesus falou em Marcos 13.35-37, usando a mesma palavra:

“Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã; para que, vindo ele inesperadamente, não vos ache dormindo. O que, porém, vos digo, digo a todos: vigiai!”

Na parábola das virgens sábias e tolas em Mateus 25, o Senhor Jesus conclui com a advertência: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (v.13). Então, quando Paulo diz, “Sede vigilantes,” uma parte do ser vigilante é ficar acordado. Significa sendo preparado, preparado para o retorno de Cristo, para o final de todas as coisas que está por vir. Fique preparado. Não seja como aquelas virgens insensatas da parábola, que não estavam preparadas para a vinda do noivo. Leva esta vida no conhecimento de sua impermanência.

Mas essa vigilância não se limita a aguardar atentamente a vinda do Senhor Jesus. Isso também significa estar em guarda contra os ataques do mundo. Paulo tinha uma mensagem semelhante para os tessalonicenses em 1 Tessalonicenses 5.6-8:

“Assim, pois, não durmamos como os demais; pelo contrário, vigiemos e sejamos sóbrios. Ora, os que dormem dormem de noite, e os que se embriagam é de noite que se embriagam. Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios, revestindo-nos da couraça da fé e do amor e tomando como capacete a esperança da salvação.”

Precisamos permanecer vigilantes. É quando não estamos sendo vigilantes, quando nos tornamos complacentes em nossa caminhada cristã, quando nos esquecemos de que estamos envolvidos numa batalha, que caímos. Em 1 Pedro 5.8, Pedro tem a mesma mensagem:

“Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar.”

Se não estamos alertas, se estamos distraídos, nos tornamos presa fácil para o inimigo. Se perdermos nosso foco, se nossa atenção para a nossa tarefa ao longo da vida, nosso compromisso com Cristo vacilar, estaremos nos colocando em perigo. Lembre-se da guerra – poder ser uma “guerra fria,” e o inimigo pode ser sútil, mais permanece uma guerra, e ainda continua. Então, fique atento!

Então Paulo diz aos coríntios: “Permanecei firmes na fé.” E novamente, essa foi uma injunção comum para Paulo. Em Efésios 6.13, ele escreveu:

“Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis.” Temos aqui uma imagem de um soldado ficando de guarda – não sendo movido, não recuando, mas permanecendo forte e imutável. Você pode imaginar um grupo de soldados, lado a lado, armados, prontos para enfrentar o inimigo. Não haverá retiro. Eles fizeram o compromisso, e não serão movidos. Qualquer que seja o caminho, eles traçam sua linha na areia.

Mas o que foi a base dessa firmeza? Em primeiro lugar, observe que ele não diz, “Permancei firmes em sua fé.” Ele não está dizendo aos coríntios e a nós que tomemos posição em algo subjetivo, em algo dentro de nós mesmos. Ele diz: “Permanecei firmes na fé.” Ele escreveu a mesma coisa, novamente, aos tessalonicenses, em 2 Tessalonicenses 2.15:

“Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa.”

Então, a mensagem é: fique firme na fé – significando fique firme no conteúdo da fé. Fique firme na Palavra de Deus. Fique firme nos ensinos que você já recebeu. Segure-se firmemente à instrução que você recebeu; cresça em conhecimento; cresça em entendimento. Apenas quando você faz isso, vai ficar firme. Não serão “como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Efésios 4.14). Não será enganado ou desviado. Não será ignorante sobre os ensinamentos básicos, mas muito importantes, da Palavra de Deus. Sua fé não será construída apenas sobre seus próprios sentimentos, que são tão pouco confiáveis, ou sobre o que “parece” certo para você – ela será baseada num fundamento firme e inabalável: a rocha sólida da infalível Palavra de Deus.

Quando você não fica firme no conteúdo da fé, quando você está contente com um entendimento superficial, quando você não está buscando crescimento neste entendimento, você não pode ter confiança – você não deve ter confiança. Qualquer confiança você tem em si mesmo é equivocada. E confiança equivocada vai se desviar. Vai se tropeçar. Não vai prover força quando você precisa.

Repetidamente, ao longo desta epístola, nós vimos como Paulo volta às Escrituras, para redirecionar os Coríntios, para reformar sua forma de pensar conforme a Palavra de Deus, e não conforme seus próprios desentendimentos. E isso é exatamente o que todos nós precisamos para ficar firme, para tomar posição contra os inimigos que continuar a atacar-nós. Irmãos, existe uma urgência a estas instruções, uma urgência que devemos levar a sério. Se estamos tentando a ficar firme em nossa fé, em nossa própria força, estamos buscando força no lugar errado. Paulo já avisou os Coríntios em 1 Coríntios 10.12:

“Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia.”

Não seja pretensioso. Fique firme, e fique firme na fé – somente quando fazer isso você vai ter a capacidade de batalhar contra o inimigo dentro de você – a natureza pecaminosa – e os inimigos fora de você – esse mundo pecaminoso, e Satanás.

Então Paulo diz, “Portai-vos varonilmente.” É uma figura de retórica, que significa, “Seja corajoso.” Não seja infantil. Conheça as suas responsabilidades. Vamos ver que isso não significa o machismo do mundo, o machismo de força física. Masculinidade significa o oposto do comportamento dos Coríntios em muitas áreas da vida. Assim como a liderança Cristã é oposto da liderança mundana, muitas vezes baseada em compulsão e força de armas, a masculinidade Cristã é uma virtude que significa mostrar maturidade suficiente, confiança suficiente, coragem suficiente, para não insistir nos seus próprios direitos. Somente quando estamos vigilantes, somente quando permanecemos firmes na fé, nós podemos nos portar varonilmente – nós podemos assumir a responsabilidade por nossas ações, podemos entender o efeito que nossas ações têm sobre outras pessoas, e podemos ficar prontos para ter um impacto positivo na vida de nossas próximos.

A exortação final em versículo 13 é “Fortalecei-vos.” Combinar esta frase com a prévia nos lembra das palavras de Moisés enquanto Israel estava se preparando para entrar na terra prometida:

“Sede fortes e corajosos, não temais, nem vós atemorizeis diante deles, porque o SENHOR, vosso Deus, é quem vai convosco; não vos deixará, nem vos desamparará. Chamou Moisés a Josué e lhe disse na presença de todo o Israel: Sê forte e corajoso; porque, com este povo, entrarás na terra que o SENHOR, sob juramento, prometeu dar a teus pais; e tu os farás herdá-la. O SENHOR é quem vai adiante de ti; ele será contigo, não te deixará, nem te desamparará; não temas, nem te atemorizes” (Deuteronômio 31:6:8).

Como podemos ser fortes e corajosos? Apenas quando sabemos que é o SENHOR que vai conosco. Como podemos ser maduros, ousados, confiantes sobre a futura, sem medo das palavras de outras pessoas, sem medo em respeito a nossa reputação, nosso status? Verdadeira força, verdadeira coragem, podem vir a nós apenas quando somos realmente humildes. E verdadeira humildade pode vir a nós apenas quando conhecemos o SENHOR que realmente vai conosco. A força e a coragem não são frutos de poder pessoal – elas são frutos de fé.

“Todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma. Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma” (Hebreus 10:38,39).

Nesse mundo, muitas vezes a covardia é disfarçada como uma expressão de masculinidade. O medo se disfarça como bravata. Aqueles que são os mais inseguros, os mais assustados, se tornam os maiores brigões. Mas em Cristo verdadeira coragem e força são encontradas. E para viver como devemos, para viver em comunhão uns com os outros, para viver verdadeiramente e sinceramente como a Igreja, o corpo de Cristo, precisamos daquela força e coragem – não a falsa força e a falsa coragem do mundo, que podemos apenas nos levar a desastre. Apenas em fé verdadeira podemos ficar fortes e corajosos, sabendo que não precisamos batalhar sozinhos, sabendo que podemos colocar o outro no primeiro lugar, e nós mesmos no segundo lugar, sabendo que é o SENHOR que vai conosco.

E nosso último ponto é encontrado em versículo 14, que resume as ordens de versículo 13, as limita, e as defina. “Todos os vossos atos sejam feitos com amor.” Esta declaração lembra-nos do capítulo 13, e sua mensagem que, aparte de amor, todos os dons espirituais são inúteis. O amor é a corda que liga tudo. Devemos ser vigilantes – vigilantes, em amor. A nossa vigilância não pode ser egoísta; o amor governa esta vigilância, e aplica esta vigilância ao nosso próximo. Portanto, se nós vemos o nosso próximo andando no caminho para desastre, a nossa vigilância deve ser usada em serviço deste próximo. Fique firme na fé. Mas fique firme em amor. Segure firme as doutrinas, os ensinos, a instrução, que você recebeu. Mas faça isso em amor. Não use a doutrina como martelo – use como ferramenta de amor, em serviço ao amor.

Permaneça firme na fé, em amor do Deus, cuja Palavra é o fundamento de nossa fé, enquanto mostrando amor para aqueles que são chamados àquele fé, junto com você. Se comporte varonilmente, corajosamente – mas se comporte varonilmente em amor, não em orgulho, não com o desejo de ser admirado. Se fortaleça – mas sua força deve ser governada por amor, expressada em amor. Somente uma pessoa que é verdadeiramente forte e verdadeiramente corajosa pode mostrar humildade verdadeira, para servir os outros.

Requer alguém como Jesus Cristo. Ele exemplificou todas estas qualidades em perfeição. Ele ficou pronto para enfrentar tudo, e Ele se preparou a enfrentar o sofrimento que Ele sabia que viria. Ele permaneceu firme na fé – e o exemplo maior é a maneira em que Ele permaneceu firme contra as tentações do Satanás no deserto – ficando firme no fundamento da palavra de Deus, usada corretamente, interpretada corretamente, contra a torção da Palavra pelo diabo. Ele mostrou masculinidade genuína. Ele enfrentou os seus acusadores em silêncio, Ele não fugiu do seu destino. Ele era, realmente, forte e corajoso, confiando que Seu Pai o acompanharia.

Somente através de fé em Cristo nós podemos ser todas estas coisas – podemos ser vigilantes, podemos permanecer firmes na fé, podemos portar-nos varonilmente, podemos nos fortalecer. E somente em Cristo podemos fazer estas coisas em amor. Sem Cristo, sem o Espírito Santo, podemos tentar ser vigilantes, podemos tentar permanecer firmes na fé, podemos tentar nos portar varonilmente, mas nossos esforços melhores vão acabar em desastre. Sem a obra do Espírito, não podemos nos empenhar para a unidade da igreja. Não podemos pôr as necessidades dos outros em primeiro lugar. Não podemos nos humilhar. Precisamos da graça do Senhor Jesus. Precisamos do amor de Deus.

E podemos confiar que Ele vai providenciar. Paulo conclui esta carta com a palavra simples: Amém. Não significa, Fim, ou “Agora eu terminei, vocês podem rolar o rolo e voltar para sua casa.” Significa, “É verdadeiro, e certo.” A instrução é verdadeira. As exigências são verdadeiras. As censuras são verdadeiras. As admoestações são verdadeiras. E as promessas são verdadeiras também. A nossa fé é estabelecida na verdade da Palavra de Deus, e esta carta era a palavra de Deus para os Coríntios, e permanece a palavra de Deus para nós também.

Para aceitar esta palavra, para confiar nesta palavra, para obedecer esta palavra, devemos primeiramente reconhecer a nossa impotência, que não temos a força para realizar qualquer coisa sem a obra do Espirito dentro de nós. Precisamos entender a nossa fraqueza, e buscar o poder que somente pode ser encontrado em Cristo. Não podemos fazer nada de bom por nós mesmos. Precisamos de Deus, e precisamos da ajuda de nossos próximos, nossos irmãos na fé, a congregação de Jesus Cristo. Por isso Deus nos deu a igreja. Mas não há força em números. Todos nós, trabalhando junto, precisamos de Cristo. Porque somente em Cristo podemos fazer o que devemos fazer. Não nós, mas Cristo trabalhando em nós, e por meio de nós.

Precisamos olhar para Ele, como o nosso perfeito exemplo, mas como muito mais do que simplesmente um exemplo – como aquele sem quem não podemos fazer nada. Quando recebemos a graça de Deus, quando vivemos na graça de Deus, podemos viver na maneira revelada por Deus através do Seu servo Paulo – unidos, ficando firme no mesmo Espírito, empenhando com uma mente só, lado a lado por causa do evangelho. Isso é o chamado glorioso que todos nós recebemos. Que nós nos regozijemos nessa vocação, glorifiquemos nosso Deus, vivamos em amor pelo Senhor, agora, e para sempre.

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Jim Witteveen

Pastor missionário das igrejas reformadas do Brasil e diretor do Instituo João Calvino.