Sermão preparado pelo pastor Jim Witteveen
Leitura: 1 Coríntios 14:01-40; Isaías 28:01-13
Texto: 1 Coríntios 14:21-22

Amada congregação de nosso Senhor Jesus Cristo,

Vocês já experimentaram uma ocorrência rara na historia das Igrejas Reformadas do Brasil. Não é algo que você vai ouvir cada domingo – seu pastor falando em línguas. Mas isso foi exactamente o que eu fiz. Mas as palavras que eu dizei provam a verdade dessa frase: “O que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetiza edifica a igreja” (1 Cor. 14:4).).

Agora, precisamos seguir a instrução de Paulo em versículo 27 –

“No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete.” Então, isso foi o que eu disse antes:

“Amada congregação de nosso Senhor Jesus Cristo, dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós. Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua.”

Existe muito confusão a respeito de “falar em línguas” – passagens como Atos 2, as línguas faladas em Pentecostes  Atos 10, Atos 19, e 1 Coríntios 12-14. A maioria da atividade chamada “falando em línguas” hoje em dia é um tipo de discurso estático – não uma língua genuína, mas um tipo de língua espiritual – uma forma de discurso que não podemos traduzir.

Esse discurso estático é suposto ser uma atividade que expressa sentimentos que são verbalmente, intelectualmente, inexprimíveis – discurso que passa por cima do intelecto, da mente consciente, discurso supostamente mais profundo, mais espiritual. E aparte de considerarmos se o dom de falar em línguas de hoje em dia é legítimo, e uma continuação da atividade do Espírito no Pentecostes em Jerusalém, esta atividade vigente nas igrejas Pentecostais não está feita conforme a injunção de Paulo em 1 Coríntios 14: que a pessoa que fala em uma outra língua deve orar que ela possa interpretar. Que se alguém fala em uma língua estranha no culto, aquele discurso deve ser acompanhado por uma interpretação.

A primeira questão que precisamos considerar é essa: O que foi este falar em línguas? A opinião da maioria de Cristãos não carismáticos, é que falar em línguas foi um dom especial dado aos Cristãos na igreja antiga, que lhes permitiu a profetizar em línguas que eles mesmos não conseguiam entender. Por meio do Espírito Santo, eles conseguiam comunicar a mensagem de Deus, sendo entendidos por pessoas que falavam outras línguas, apesar do fato que elas nunca tinham estudado a língua que estavam falando. Porque o dom de línguas, muitas pessoas acreditam, foi em si um dom de revelação, quando a revelação especial de Deus foi completada, quando a palavra de Deus foi completamente revelada nas Escrituras, o dom não foi necessário não mais.

Essa é a visão tradicional, pode dizer. Mas eu acho que devemos examinar este entendimento, para ver se na verdade ele acorda com a evidência das Escrituras. Então, começamos por olharmos na primeira instância de “falar em línguas,” escrita em Atos 2. Quando lemos o que aconteceu em Atos 2, isso é o que nós vemos:

Atos 2:4 – Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem.

E Atos 2:6 – Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua. Estavam, pos, atônitos e se admiravam, dizendo: Vede! Não são, porventura, galileus todos esse que aí estão falando? E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? Todos, atônitos e perplexos, interpelavam uns aos outros: Que quer isto dizer? Outros, porém, zombando, diziam: Estão embriagados!

Pedro responde aos zombadores com uma citação da profecia de Joel – “E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos.”

Então, o que aconteceu exatamente no Pentecostes? O que causou tal choque à congregação reunida em Jerusalém para a festa? Somos ditos que havia medos, elamitas, os naturais da Mesopotâmia, Judeia, Capadócia, Ponto, e Ásia, Frígia, Panfília, Egito, as regiões da Líbia, nas imediações de Cirene, romanos, cretenses, e arábios, e todo mundo ouviram esses Galileus falando em suas próprias línguas as grandezas de Deus.

Em primeiro lugar, quais foram as línguas faladas por essas pessoas? Podemos dividir os ouvintes em dois grupos – eles que vinham do leste do Império Romano, e eles que vinham do oeste. No leste, o idioma era aramaico. No oeste, o idioma era grego. Os judeus, dispersos em todo o império, aqueles que voltaram a Jerusalém na peregrinação pelas festas, não eram falantes de dialetos locais, ou grupos linguísticos menores. Eles falaram a língua dominante no lugar onde eles viviam – o idioma dos comércios, dos negócios. Eles falaram grego, e eles falaram aramaico.

Os discípulos também falaram grego e aramaico. Eles estavam falando idiomas que eles já sabiam – não idiomas desconhecidos por eles. Não é que eles estavam abrindo as bocas, e surpreendentemente eles descobriram que eles estavam falando em línguas que eles mesmos não entenderam. O que aconteceu foi isso: eles estavam cheios do Espírito Santo, e eles começaram a profetizar – falando em outras línguas, ou outras idiomas, “conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.”

Mas o que foi tão especial sobre isso? Qual foi a surpresa? Se isso não foi um milagre de idiomas, se “falando em línguas” não foi a parte milagrosa desse evento, porque o tumulto? Aqui, Atos 2:12,13 pode nos ajudar a entender o que estava acontecendo.

Alguns ficaram surpresos e perplexos ao ouvir esse discurso profético em sua própria língua. Outros acusaram esses homens de estarem bêbados. E isso por causa de um simples fato: essas pessoas estavam esperando, no Pentecostes, reunidas perto do templo para este tempo muito especial de adoração, ouvir o discurso religioso – ouvir os mestres proclamando e lendo as Escrituras em hebraico.

Mas eles não esperavam ouvir isso em aramaico ou em grego. Eles esperavam ouvir a língua sagrada, a linguagem das Escrituras, hebraico. “O povo santo de Deus, reunido na terra santa, na cidade santa, no templo, o lugar mais sagrado no mundo, esperando que sacerdotes treinados, homens santos, conduzissem a liturgia em hebraico, a língua sagrada, no dia santo” (Zerhusen). Em vez disso, o que ouviram foram esses homens não eruditos da Galiléia, proclamando o evangelho, com poder e autoridade, nas línguas comuns das pessoas presentes.

É assim que esta acusação de embriaguez pode surgir. “A embriaguez,” escreve Robert Zerhusen, “não dá a capacidade de falar línguas não aprendidas; diminui a capacidade verbal e frequentemente faz com que a fala fique indecisa. Por outro lado, as pessoas inebriadas geralmente perdem suas inibições e se engajam em comportamentos que nunca teriam feito se elas estivessem sóbrias. Somente uma pessoa bêbada seria tão desinibida a ponto de ignorar a distinção entre o sagrado e o profano.”

O idioma religioso dos judeus era hebraico. Os judeus viviam numa cultura que praticava diglossia – o uso de língua comum, a língua das atividades diárias, a linguagem dos comércios; e o uso da língua mais alta, uma língua especial – a língua de religião, a língua do culto. Eles poderiam ter aprendidos um pouco de hebraico na escola, mas eles não poderiam comunicar regularmente em hebraico. O fato é, provavelmente muitos deles poderiam não entenderem a língua hebraica quando essa língua estava usada – no culto do templo. Mas isso foi o que eles esperavam – e isso foi o que eles queriam, porque eles pensaram que foi a maneira correta de cultuar – ainda quando eles não poderiam entender as palavras que eles estavam ouvindo.

E quando pensa nisso, não é uma situação incomum. Em Islã, vemos diglossia em ação – árabe é o idioma de religião, não importa onde o muçulmano vive. O árabe é a língua da oração no Islã, é a língua da mesquita, e é a língua do alcorão. Nos países como Indonesia, as Filipinas, onde árabe não é a língua diária do povo, mas onde existem populações grandes de muçulmanos, o árabe é considerado o idioma alto – o idioma que é respeitado e honrado, ainda quando não é entendido. Ainda aqui no Brasil, se um muçulmano brasileiro entraria uma mesquita, e ouvisse o imã ensinando em português e não em árabe, ele seria ofendido e provavelmente chocado.

O mesmo tem sido verdade às vezes na história da igreja cristã. O latim foi por muito tempo a “língua eclesiástica” – a língua da igreja. William Tyndall foi martirizado por traduzir as Escrituras para o inglês – o que era considerado escandaloso – porque o latim era a língua do “registro superior,” a língua da igreja. Mesmo que as pessoas não pudessem entender, o latim ainda era considerado preferível para questões de religião do que a língua comum. E ainda existem os católicos romanos de rito latino que insistem em que a missa seja celebrada em latim, e não nas assim-chamadas “traduções vernaculares.”

Isso foi a situação em Judea no Pentecostes. Portanto, quando os discípulos começaram a falar em outras línguas, pregando e profetizando em línguas estranhas, não em hebraico, isso foi chocante. E embora aconteceu um milagre no Pentecostes, o milagre não foi na língua falada pelos discípulos, ou no idioma ouvido pela plateia. O milagre foi o fato que estes homens ordinários estavam profetizando – que o Espírito tinha capacitado estes homens a falar em nome de Deus, com poder e autoridade. E tudo isso não foi feito em hebraico – foi feito na língua dia-a-dia do povo.

Então, podemos entender o significado da citação de Paulo de Isaías em 14:21 – Falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor. Porque o discurso em outras línguas aparte de hebraico que aconteceu no Pentecostes foi um sinal com dois lados. Por um lado, positivamente, as línguas de Pentecostes esclareceu a mudança radical da nova aliança. Agora, gente de cada tribo e nação, falantes de todas as línguas, foram convidado no povo de Deus. As promessas pactuais de Deus estavam sendo declaradas às nações, não apenas ao Israel. O muro de divisão entre os judeus e os gentios estava sendo demolido. Todas as nações agora são enxertadas na videira. Ser filho de Abraão não é limitado a um grupo étnico. Agora, a partir de Pentecostes, os da fé são abençoados com o crente, Abraão (Gálatas 3:9).

Mas foi também um aspeto negativo a este sinal. Três declarações de julgamento são feitas no Antigo Testamento que falam de “línguas” como sinal de julgamento. Em Deuteronômio 28:49, uma das maldições da aliança foi isso: O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra virá, como o voo impetuoso da águia, nação cuja língua não entenderás.” Isso seria um sinal que julgamento tinha caído em Israel por causa da sua rejeição da Palavra de Deus.

E Jeremias tem a mesma mensagem, em Jeremias 5:15: Eis que trago sobre ti uma nação de longe, ó casa de Israel, diz o SENHOR; nação robusta, nação antiga, nação cuja língua ignoras; e não entendes o que ela fala.

Isaías profetizou que, porque Israel se recusavam a ouvir a voz de Deus através de seus mensageiros, Ele falaria a Israel nessa maneira (Isaías 28.10-13):

Porque é preceito sobre preceito, preceito e mais preceito; regra sobre regra, regra e mais regra; um pouco aqui, um pouco ali. Pelo que por lábios gaguejantes e por língua estranha falará o SENHOR a este povo, ao qual ele disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; mas não quiseram ouvir. Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será preceito sobre preceito, preceito e mais preceito; regra sobre regra, regra e mais regra; um pouco aqui, um pouco ali; para que vão, e caiam para trás, e se quebrantem, se enlacem, e sejam presos.

No hebraico de Isaías 28:10 e 13 as palavras parecem como o balbuciar – tsav latsav, tsav latsav, gan lagan, gan lagan, zeir sham, zeir sham. Os israelitas reclamavam que isso foi a mensagem dos profetas – um monte de balbuciar, linguajar infantil. Por isso, como juízo, Deus daria exatamente isso – falar a eles numa língua que eles não seriam capazes a entender.

No mundo antigo, estrangeiros que não falaram a língua local foram considerados como paroleiros infantis. Isso levou a uso da palavra “bárbaro” – alguém que fala uma língua estranha, diferente de sua própria língua – em outras palavras, uma pessoa não cultivada, inculta.

A palavra bárbaro vem dos sons nela – bar-bar – que demonstra como pessoas falavam sobre línguas estranhas. Aqueles que não falaram o idioma da nação, especialmente o idioma santo, foram chamados de gagos, que só diriam, “Bar, bar, bar,” e nada mais. E quando Paulo diz, em versículo 11, “Se eu, pois, ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim,” ele usa aquela palavra, “bárbaro.” Se alguém fala na igreja num idioma desconhecido, “Serei bárbaro para aquele que fala, e ele, bárbaro para mim.”

Por isso, podemos entender o falar em línguas de Pentecostes a ser, não um milagre de linguagem, ou de ouvir, mas um milagre de profecia, de revelação. A milagre deste evento foi o fato que estes homens regulares estavam profetizando, e eles estavam profetizando na língua comum, a língua baixa, não na língua alta da religião organizada. As línguas foram um sinal da abertura da nova aliança, e também um sinal contra Israel, um sinal do julgamento de Deus. Como eles se recusavam a seguir o próprio Filho de Deus, quando Ele estava entre eles, agora o Senhor falaria com eles por meio de pessoas com línguas estranhas, pelos lábios de estrangeiros. Assim, eles seriam endurecidos na sua descrença – como podemos ver na reação de muitos dos judeus no dia de Pentecostes.

Mas a situação em Corinto foi diferente. Corinto era uma cidade no cruzamento do Império Romano. Era um cidade portuária, com muitos imigrantes que se mudaram a Corinto para melhorar as suas vidas. Muitas línguas foram faladas em Corinto, mas a língua comum foi grego. Muitas línguas estavam faladas, nas casas, nas conversas privadas, mas o grego foi a língua de discurso público.

Mas os linguistas explicam que pessoas têm uma língua do coração. Se, quando criança, você cresceu falando português e se muda para outro país, onde tem que aprender outro idioma, o português continuará sendo sua “linguagem do coração” – a linguagem que você se sente confortável expressando seus sentimentos mais profundos, mais importantes, mais sérios. Pode ser a língua em que você ora, ou a língua que você continua usando para ler a Bíblia, ou a leitura devocional e a adoração pessoal. Porque essa linguagem é uma parte de quem você é – e quando você está lidando com assuntos do coração, e isso inclui especialmente questões de religião, essa é a linguagem que você estará inclinado a usar.

Então, o que estava acontecendo em Corinto foi isso: pessoas de diferentes partes do Império, de diferentes grupos linguísticos, estavam se levantando na igreja para falar, orar ou cantar – e estavam fazendo isso em sua “linguagem do coração” – que talvez ninguém mais na congregação pudesse entender. Por isso um tradutor foi necessário – e por isso Paulo também pode dizer, em versículo 27 e 28: “No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus.” No caso de línguas reais, conhecidas do falante, mas desconhecidas para os ouvintes, pode ou não haver alguém presente no culto que teve o dom de ser capaz de traduzir. Portanto Paulo diz, em versículo 13, que aquele que fala em outro idioma deve orar para que ele possa interpretar.

Isso não significa que a pessoa que fala no idioma não entendeu o que ele estava dizendo. O que significa é o fato de que a tradução é uma tarefa muito difícil, que requer uma habilidade real. É possível falar outro idioma sem poder traduzir corretamente; e isso é de particular importância quando estamos lidando com a palavra de Deus, com a revelação de Deus sobre si mesmo. Assim como os dons de ajuda e administração, que Paulo mencionou anteriormente, o dom de falar em outras línguas e o dom de ser capaz de traduzir, ou interpretar, não eram o que consideramos dons espetaculares e obviamente sobrenaturais.

São dons dados por Deus, habilidades especiais que Deus nos dá. O ponto principal de Paulo neste capítulo é que ele não quer que o culto se degenere em liberdade para todos, com uma pessoa falando uma língua, não interpretada, outra falando uma língua diferente, não interpretada. O culto cristão não é apenas uma questão de sentimentos – é também uma questão de intelecto. O cristianismo não tem a ver somente com nossos sentimentos pessoais, e o culto cristão não é sobre entrar num estado emocional elevado. O culto cristão tem conteúdo real, e a mensagem do evangelho é uma mensagem que deve ser comunicada. E se o intelecto for incapaz de compreender o que está sendo dito, a comunicação será infrutífera. É o que Paulo está dizendo em versículo 14 – quando ele diz que a mente fica infrutífera, ele não está dizendo que o orador não entende o que está dizendo; porque “produzir fruto” sempre tem relação com “o outro” – é produzir frutos naqueles que estão ouvindo.

E como ele fez ao longo desta carta, Paulo aponta para si mesmo como exemplo. “Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós,” diz ele (v.18). “Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua” (v.19). Paulo, como missionário, comunicando-se com judeus e gentios, falou em vários idiomas. Podemos ver um grande exemplo disso em Atos 21 e 22. Ele começa falando aramaico aos judeus. Ele continua falando com ao tribuno romano em grego. E então, finalmente, ele se dirige à multidão na língua hebraica, provando ser um homem de autoridade, falando na linguagem do registro superior, a língua da religião judaica.

Mas enquanto Paulo é grato por sua habilidade linguística, e a benção que ele tinha em ser capaz de se comunicar com pessoas de diferentes origens, ele diz que prefere falar cinco palavras inteligíveis no serviço da igreja do que mil num idioma diferente – porque só assim sua mensagem seria entendida. Então sua comunicação daria frutos. Então ele não estaria apenas se beneficiando, ele também estaria beneficiando seus ouvintes.

Porque é disso que se trata – o que os ouvintes recebem, entendem. Se a comunicação é unilateral, diz Paulo, a comunicação não está acontecendo. Se a igreja não estã sendo construída pelo que está sendo comunicado, então essa comunicação é inútil. E, de fato, seria prejudicial – porque no caos de ter uma pessoa falando uma língua, e outra falando uma língua diferente, sem ninguém para traduzir, o incrédulo visitante no culto de adoração não chegaria a outra conclusão senão que essas pessoas eram loucas. Eles já acharam que os estrangeiros não tinham cultura, e pensaram que as línguas estrangeiras eram uma espécie de balbuciar infantil; então, se o culto da igreja fosse em grande parte incompreensível para eles, nada de bom seria realizado. O Espírito Santo usa meios para realizar Sua obra. E um dos seus meios é a pregação do evangelho. E isso significa que deve ser compreensível para que dê frutos.

Então, Paulo diz, “Procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis.” A profecia é capaz de edificar, encorajar, dar conforto, porque é compreensível, porque comunica as verdades de Deus. A igreja deve ser edificada – isso é claramente central para o que Paulo está dizendo neste capítulo – ele a repete cinco vezes – em v.3, v.5, v.12, v.17, e v.26. Quaisquer dons que recebemos não são dados a nós em benefício próprio, mas para o benefício do corpo.

Novamente, Paulo está falando sobre o mesmo tema que ele tem abordado ao longo desta carta – que os cristãos em Corinto devem lembrar que eles são partes do corpo de Cristo, e que em tudo o que fizeram, eles deveriam colocar os outros membros do corpo em primeiro lugar, e não eles mesmos. Eles estavam sendo egocêntricos em sua adoração. Eles estavam pensando em si mesmos, colocando-se no centro. Mas o egoísmo não tem lugar no culto cristão ou na vida cristã em geral. Ser seguidor de Cristo significar doar-se, não simplesmente receber por si mesmo. Como Cristo fez, dando-se completamente por amor ao povo de Deus.

Então, neste tempo, quando o Espírito Santo estava dando uma revelação especial, porque as Escrituras não haviam sido completadas, os membros da Igreja deveriam se controlar. Eles podem ter sido muito apaixonados, eles podem ter sentido que tinham algo importante para dizer – mas se essa mensagem não pudesse ser entendida pela congregação, eles deveriam simplesmente manter a boca fechada. Melhor que a mensagem seja entendida, do que um derramamento caótico de palavras, por mais sincero que seja, que ninguém possa entender. Deus não é um Deus de desordem, mas de paz. E essa paz é a paz na qual o corpo pode ser edificado, fortalecido, encorajado e instruído.

Então, novamente, a mensagem para nós é que quaisquer dons que recebemos devemos usá-los, não para nós mesmos, não para nosso próprio benefício, mas para o benefício do corpo. Eu posso estar orgulhoso porque aprendi um novo idioma, mas é ridículo para mim usá-lo num contexto onde não será entendido – então eu estou apenas procurando admiração, ou na melhor das hipóteses, uma comunhão estritamente pessoal com Deus, e não a edificação do corpo, que é o que eu deveria fazer. O foco está no outro – no ouvinte, não no falante. E podemos ver isso ao longo do capítulo 14 – o foco de Paulo está naqueles que ouvem a mensagem. Eles são aqueles que são realmente importantes.

Portanto, é importante em outro nível que nossa adoração seja inteligível para as pessoas. Podemos ter uma espécie de linguagem cristã, ou conhecer todos os tipos de jargão cristão, e podemos ver uma forma de comunicação como superior às outras. Mas, se não estamos sendo compreendidos, é inútil. Precisamos nos esforçar para sermos compreendidos – seja como pregadores ou como cristãos em geral.

E nossos cultos devem ser ordenados, não degenerando em caos. A mensagem do evangelho já é ofensiva, e não devemos acrescentar desnecessariamente a esta ofensa, pela aparência de loucura que aqueles de fora da igreja experimentam quando eles entrem um culto e verem cada tipo de comportamento esquisito. Isso significa que nossa adoração deve ser não egoísta, não focada em nós mesmos, ou no que nós recebemos. Precisamos focar no outro, no corpo inteiro. O corpo será fortalecido apenas quando as coisas são feitas decentemente, e com boa ordem. Porque o nosso Deus não e Deus de confusão, mas o Deus de paz.

Então, nossa adoração, e de fato nossa vida inteira, deve espelhar esta verdade. Nunca devemos limitar a fé a uma questão do intelecto – a simplesmente assentarmos a uma série de proposições intelectuais, o entendimento intelectual e nada mais.

Mas também não devemos denegrir o intelecto enquanto concentramos apenas no coração, nas emoções. Somos uma unidade – nossa mente, nossas emoções, nossos sentimentos, nossos pensamentos, tudo. Fomos redimidos como pessoas completas – mente e corpo, alma e espírito. E cada parte de nossa vida, nossa vida intelectual, nossa vida emocional, está sendo renovado à imagem de nosso Criador, porque nós pertencemos a Jesus Cristo. E os dons que recebemos, em todos esses aspectos, devem ser usados para o benefício de todo o povo de Deus.

Irmãos, pense em como vocês estão usando seus dons – sejam quais forem esses dons – para edificar o corpo de Cristo. Recebemos grandes e preciosos dons de Deus; e agora podemos usar esses dons, ao serviço do Deus da paz.

Amém.

___________________________________

* Exceto onde o contrário esteja explícito, todos os conteúdos deste site estão licenciados sob uma Licença Creative Commons “Atribuição – Não Comercial – Sem Derivados 3.0 Não Adaptada“.

** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

Compartilhe!

Pr. Jim Witteveen

Pastor missionário das igrejas reformadas do Brasil e diretor do Instituo João Calvino.