Sermão preparado pelo pastor Jim Witteveen
Leitura: 1 Coríntios 11:17-34
Texto: 1 Coríntios 11:17-34

Amada Congregação de Nosso Senhor Jesus Cristo,

De vez em quando, em muitas igrejas, nós gostamos de comer juntos como congregação. Geralmente, estas ocasiões são bem divertidas. Até quando não há muito dinheiro, ou riqueza na congregação, temos comida suficiente para todos, por causa da generosidade do membros, e geralmente o trabalho das mulheres! Achei na minha congregação no Canada que nossa refeições congregacionais foram os melhores eventos para promover a comunhão na igreja. Mas veja o que aconteceria no mundo romano dois mil anos atrás:

Plínio, o Jovem, nas “Letras,” escreveu sobre a experiência dele, comendo na casa de um homem quem se orgulhava sobre a elegância da economia dele:

“Os melhores pratos eram reservados por ele e poucos outros, e as sobras da comida foram dadas aos outros no jantar. Ele dividiu o vinho em três garrafas pequenas, não porque ele queria que seus convidados tivessem uma escolha, mas para impossibilitar isso, para que eles não poderiam recusar o vinho ofertado. Uma porção foi destinada para ele e para nós, uma outra para os amigo menores (todos os amigos dele são classificados), e a terceira para os seus e nossos servos.”

Quando 1 Coríntios foi escrito, a tradição de hospitalidade no Império Romano era assim. Jantares foram hospedados pelos ricos, porque somente os ricos tinham espaço para hospedar eventos nas suas casas. Num jantar em Corinto, houve apenas espaço para dez pessoas, mais ou menos, na sala de jantar. Estas dez pessoas poderiam reclinar confortavelmente ao redor de uma mesa carregada com muitos tipos de comida exótica. Mas os outros convidados tinham que reunir-se numa outra sala – onde eles receberiam comida de pior qualidade, sobras, ou até absolutamente nada. E a desigualdade foi enfatizada pelo fato de que os convidados fora da sala de jantar tinham que comer em pé ou, talvez, assentados – normal para nós, mas na época, uma vergonha.

Este tipo de comportamento não era hospitalidade real. Isso nunca aconteceria nas nossas refeições. Mas era exatamente o que acontecia na igreja em Corinto. Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague. Em outras palavras, aqueles que tinham os recursos financeiras poderiam organizar uma festa pessoal, levar para a casa do hospedeiro, não pensando nas necessidades dos outros, não compartilhando com os outros, até os pobres. Alguns membros permaneceram com fome e com sede, enquanto os outros estavam celebrando, satisfeitos com uma abundância de comida e bebida.

Como se isso não fosse perturbador o suficiente, tudo isso aconteceu no contexto da celebração da Santa Ceia. Na igreja antiga, quando as congregações se reuniram nas casas, a Santa Ceia foi celebrada no contexto desta reunião. Ou antes ou depois a refeição, a refeição simbólica, o sacramento, foi celebrado, com o pão e o vinho servidos em memória e proclamação do sacrifício de Cristo. Então, Paulo começa esta discussão dizendo, um pouco temperadamente, “Nisto, porém, que vos prescrevo, não vos louvo.”

Porque embora o evento em que eles estavam participando tivesse a aparência da Santa Ceia, em realidade não foi a Santa Ceia que eles estavam celebrando. Na verdade, foi nada mais do que uma adaptação Cristã de uma festa Romana – com seus ricos no centro, e os pobres excluídos. A congregação se reunia na casa de um dos ricos. Seus amigos se reuniam com ele na sala de jantar, onde eles poderiam reclinar confortavelmente. Entretanto, os escravos, os trabalhadores, os não poderosos, não nobrezas, seriam excluídos do círculo interno, e todas as suas vantagens.

Paulo salienta o problema, e começa a responder com um lembrete sobre o verdadeiro significado da Santa Ceia. Ele recebeu, da boca do Senhor Jesus, as palavras de instituição, faladas, importantemente, na noite da traição de Jesus. Paulo lembra os Coríntios do contexto das palavras de Jesus, e o conteúdo, e também do seu significado para aqueles que queriam participar nesta refeição simbólica. Ele lembra os Coríntios do corpo de Cristo, dado por eles. Da cálice, a nova aliança no sangue de Cristo, derramado por eles. O fato que comerem o pão e beberem da cálice da Santa Ceia significou que eles deveriam estar proclamando a morte do Senhor até que ele venha.

Pense na ironia em tudo isso. Durante uma refeição, proclamando a morte do Senhor Jesus, os Coríntios foram neglicenciando seus próprios irmãos. E lembrem-se como anteriormente Paulo enfatizou que estes irmãos eram pessoas para quem Cristo morreu. Eles estavam participando num memorial que começou na noite em que o Senhor foi traído aos Seus inimigos – traído nas mãos dos servos do mal. Um memorial para se lembrar do sacrifício que o Senhor Jesus tinha feito, para eles. E agora, eles estavam devorando a sua própria comida enquanto os seus irmãos pobres olhavam – não renunciando qualquer privilegio por causa dos seus irmãos na fé.

Imagine, nesta situação, a primeira leitura desta epístola na igreja de Corinto. Os ricos e os poderosos estavam assentando, ouvindo. E talvez este assunto, os problemas com a Santa Ceia, poderia ter sido algo que eles nunca sequer consideravam. É possível que eles nunca pensavam que isto era um problema – que eles não deliberadamente maltratavam seus irmãos, com malícia ou qualquer outro tipo de pensamento. Esse comportamento simplesmente foi considerado como comportamento normal, uma parte regular da vida em Corinto.

E agora, Paulo está lhes revelando o verdadeiro horror da injustiça do seu tratamento dos seus próprios irmãos. E ele faz isso lembrando-os de quem eles eram no passado, e como eles se tornaram o que eles tinham se tornado – parte do povo da nova aliança de Deus, a aliança selada com o sangue de Cristo. Para os Coríntios sensibilizados na leitura desta epístola, através da obra do Espírito, isso deveria ter resultado em auto-exame sério, e talvez ao arrependimento também.

E os pobres devem ter se sentido vindicados, incluídos na igreja completamente, talvez pela primeira vez. Como Coríntios pobres, membros da comunidade geral, isso deve ter sido normal, esta exclusão. Mas agora, como membros da comunidade da nova aliança, criada pelo derramamento do sangue de Cristo, o quebramento do Seu corpo, eles não eram como estrangeiros ou forasteiros não mais. Não mais os neglicenciados, deixados para trás. Mas incluídos. Porque a inclusão no corpo de Cristo não depende no que temos, ou no que temos a oferecer. A inclusão é baseada na graça de Deus – e a graça de Deus não é limitada a uma classe social ou grupo econômico.

Veja a parábola da grande ceia, em Lucas 14:15-24:

“Ora, ouvindo tais palavras, um dos que estavam com ele à mesa, disse-lhe: Bem-aventurado aquele que comer pão no reino de Deus. Ele, porém, respondeu: Certo homem deu uma grande ceia e convidou muitos. À hora da ceia, enviou o seu servo para avisar aos convidados: Vinde, porque tudo já está preparado. Não obstante, todos, à uma, começaram a escusar-se. Disse o primeiro: Comprei um campo e preciso ir vê-lo; rogo-te que me tenhas por escusado. Outro disse: Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las; rogo-te que me tenhas por escusado. E outro disse: Casei-me e, por isso, não posso ir. Voltando o servo, tudo contou ao se senhor. Então, irado, o dono da casa disse ao seu servo: Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. Depois, lhe disse o servo: Senhor, feito está como mandaste, e ainda há lugar. Respondeu-lhe o senhor: Sai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa. Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia.”

Em Cristo, aqueles assentados ao redor da mesa de comunhão com Ele não são divididos em grupos de ricos e pobres, classe alta e classe baixa, respeitável e marginal. Todos nós somos os pobres, os aleijados, os cegos, e os coxos. Todos nós somos aqueles encontrados nos caminhos e atalhos. As distinções do mundo não têm lugar ao redor da mesa do Senhor. Não existe favoritismo com Deus. Todos nós somos incluídos, apesar da nossa indignidade.

Isso era, e permanece, o aspeto central da celebração da Santa Ceia. Sua enfoque é a restauração dos relacionamentos verticais, pode dizer, o relacionamento entre nós e Deus Pai, restaurado em Cristo Jesus. Mas, central ao sacramento, está refeição de comunhão, esta refeição simbólica da aliança, era, e permanece, a restauração dos relacionamentos, horizontalmente. Em Cristo, ninguém está deixado fora. Não existem cidadãos da alta classe no reino de Deus, com mais direitos e privilégios do que aqueles da classe baixa.

Em Cristo, somos um. Temos sido feito um. Nossa celebração da Santa Ceia juntos é a comemoração visível, tangível, daquela unidade. Então, quando os Coríntios celebravam a Santa Ceia na maneira em que eles celebravam, e quando nós celebramos a Ceia do Senhor sem vivendo a unidade que temos em Cristo, numa maneira real, prática, estamos fazendo uma mentira da Ceia do Senhor – uma charada. Então não é a Ceia do Senhor que comemos. É uma imitação pálida da celebração bonita, significativa.

Então, Paulo segue este lembrete da base do evangelho, da mensagem proclamada na Santa Ceia, com uma advertência: “Aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor.: No começo desta passagem, Paulo diz que ele não tem surpresa que existe facções na igreja. Ele não está dizendo que é bom, mas  não é uma surpresa.

Mas a existência de facções fez claro que alguns estavam no interior, enquanto outros estavam no exterior – e aqueles que pensavam em si mesmos como os privilegiados foram realmente revelando a sua falta de sinceridade, de autenticidade.

Fazendo um escárnio da Santa Ceia, eles estavam se alinhando com os inimigos do Senhor Jesus, a quem Ele tinha sido traído. Eles estavam se tornando aliados daqueles que crucificou o Salvador. Beber e comer indignamente não vão providenciar bençãos. Eles somente estavam comendo e bebendo juízo para si.

E isso estava ficando evidente em Corinto numa maneira clara – muitos deles se tornaram fracos e doentes, e “não poucos dormem.” Como servo inspirado de Deus, Paulo tinha entendimento a respeito do significado destes eventos. Ele pode dizer isto porque Deus revelou qual foi o resultado do julgamento de Deus. Mas isso não foi um julgamento de ira absoluta – foi na verdade um ato da misericórdia de Deus.

Em tempos especiais na história do povo de Deus, na história de redenção, Deus atingia pessoas quando elas agiram em desobediência. Pode pensar em Nadabe e Abíu, os filhos de Arão, quem ofereceram fogo estranho diante do Senhor, o que Ele não lhes ordenara. Saiu fogo de diante do Senhor, e os devorou.

Pode pensar em Uzá – Uzá estendeu a mão à arca de Deus, e pegou nela, porque os bois tropeçaram. Então a ira do Senhor se acendeu contra Uzá, e Deus o feriu ali; e Uzá morreu ali junto à arca de Deus (2 Samuel 6:6,7).

Pode pensar em Ananias e Safira, derrubados por Deus após eles mentiram aos discípulos e ao Espírito Santo. Em cada um destes eventos, Deus fez claro ao Seu povo que eles não podem brincar com Ele. Como Paulo escreve em versículo 32, “Quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo.”

Então, Deus estava julgando alguns membros da igreja por causa da igreja inteira. Ele estava fornecendo um lembrete vívido da sua santidade – ele deve ser levado a sério. No seu amor para o Seu povo, Ele os julgou nesta vida, para que eles nunca fossem condenados junto com o mundo. Paulo lembra os Coríntios a levar a sério a sua participação na Santa Ceia, e a se lembrar a profundidade do significado da Ceia. Antes de participarem na refeição da aliança, eles devem se examinar – deliberadamente, não sem pensamento. Eles devem examinar as suas vidas, e julgam se a sua prática concorda a sua profissão. E, especificamente, eles devem se lembrar o corpo, como Paulo escreve em versículo 29: “Pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si.”

E Paulo não está falando aqui sobre um tipo de entendimento profundo dos elementos de pão e vinho – ele não está dizendo que nós precisamos entender se Cristo é realmente, fisicamente, presente nos elementos, ou espiritualmente presente, ou completamente ausente, na Santa Ceia. Ele não está dizendo que precisamos explicar a diferença entre transubstanciação e consubstanciação e o entendimento da Ceia que diz que a Ceia é somente uma comemoração, antes de participarmos. Ele está fazendo um tipo de jogo com palavras aqui – se você não discernir o corpo, vai ficar culpado do corpo e sangue de Jesus Cristo.

Em outras palavras, se você não tem o corpo de Cristo, a comunidade da aliança, a igreja, seus irmãos e suas irmãs, em mente quando você celebra a Santa Ceia, se você não está vivendo em amor para os irmãos, em relação com os irmãos, sua participação na Ceia é uma charada e, praticamente, uma expressão de uma mentira. Se você come e bebe sem discernimento do corpo, o corpo dos crentes, que é o corpo que tem Cristo como cabeça, você esta mostrando que ou você não entende, ou você não cuida, sobre sua posição como parte do povo de Deus. Você está agindo egoístamente, como o mundo, e não desinteressadamente, como o Senhor Jesus Cristo. E se você faz isso, Paulo diz, sua lealdade tem mudada. Você fica fora da comunidade da aliança, e será julgado como forasteiro.

A igreja moderna não celebra a Santa Ceia como parte de refeição congregacional. Essa prática mudava quando as congregações começavam a reunir nos edifícios públicos, quando o tamanho das igrejas cresceram. Então, não vamos enfrentar a mesma questão específica que os Coríntios enfrentavam nas congregações que reuniram nas casas dos membros, e a celebração da Santa Ceia naquele contexto.

Ninguém vai correr à mesa quando celebramos a Santa Ceia e beber todo o vinho ou devorar tudo o pão antes que todos os outros podem chegar à mesa. E como eu disse na introdução, ainda quando nos reunimos como congregação para jantar juntos, não vemos o mesmo problema em ação, graças a Deus. E eu acho que não acontece agora porque nossa cultura é formada pelo ensinamento da Bíblia, e por isso esse tipo de comportamento é inimaginável por nós.

Mas ainda podemos aplicar o ensino de Paulo nessa passagem como mais de tratado na teologia da Ceia do Senhor, ou dos sacramentos. Paulo leva os Coríntios, e nos leva também, às raízes de nossa fé, o centro de nossa fé – a morte expiatória, o sacrifício, de nosso Salvador, o ato altruísta de nosso Redentor. Ele nos chama a proclamar aquela verdade, não somente nas palavras, mas também nas ações. Cristo sofreu, e morreu, para formar, para Ele mesmo, um povo novo e unido.

E quando celebramos a Santa Ceia, precisamos nos examinar. Como vivemos em relação aos irmãos da igreja? Existem pessoas na comunhão que nós ignoramos, ou menosprezamos? Pensamos em nós mesmos primariamente como membros da comunidade de Cristo, e somente logo como membros de qualquer outra comunidade? É que nossa membresia no povo da aliança é a membresia mais importante da nossa vida? Como tratamos os outros, quem são recebidos por Cristo? Como forasteiros? Ou como membros da nossa família da fé? Ou talvez nós vivemos como estrangeiros nós mesmos, satisfeitos vivendo na beira da comunidade da aliança, sem dando tudo pela causa do povo do Senhor, como nosso Salvador fez?

Quando nos reunimos como o povo de Deus, vamos nos reunir como expressão de uma realidade viva. Antes de abordar a mesa do Senhor, pense nisso: a minha vida está focada no que está acontecendo aqui? Ou pode ser que a comunhão simbólica que experimentamos na mesa é a única comunhão que eu experimento com o povo de Deus? Estas são questões muito importantes. Porque se a nossa participação nos rituais da fé Cristã não concorda com nosso estilo de vida, quando nos reunimos, não vai nos melhorar – vai piorar. Quando reunimos, iremos receber o julgamento de Deus, não as bençãos. Quando comemos e bebemos, iremos comer e beber juízo em nós.

Mas após de nós examinarmos, seremos levados a arrependimento, pela graça de Deus. O nosso foco não permanecerá em nós mesmos. O nosso foco será orientado ao lugar onde o Apóstolo orientou o foco dos Coríntios – à cruz, ao corpo de Cristo, quebrado por nós, e ao sangue de Cristo, derramado por nós. E aí, diante da cruz, vamos nos conhecermos corretamente. Nos conheceremos como indignos recipientes da graça de Deus, do auto-sacrifício de nosso Salvador. Nos conheceremos como pessoas que precisam tudo de Deus, e quando sabemos isso, seremos levados a viver numa maneira que fornece uma resposta correta à generosidade divina.

Precisamos voltar ao ponto de partida, ou isso vai ser nada mais do que um exercício fútil em auto-aperfeiçoamento – uma tentativa de fazer o impossível, que vai concluir somente em frustração. Paulo nos lembra do sacrifício de Cristo, e precisamos deste lembrete. Porque tudo começa lá, e é no sacrifício de Cristo onde o nosso fundamento é encontrado.

Agora, tendo sido lembrados disso, das boas novas e os dons preciosos dados aos indignos recipientes como nós, vamos rejeitar o egoísmo do mundo, e viver, com todo o coração, como o novamente constituído corpo de nosso Salvador, Jesus Cristo.

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Jim Witteveen

Pastor missionário das igrejas reformadas do Brasil e diretor do Instituo João Calvino.