Sermão preparado pelo pastor Jim Witteveen
Leitura: Romanos 14:01-23
Texto: 1 Coríntios 08:01-13

Amada Congregação de Nosso Senhor Jesus Cristo,

Tenho certeza que o assunto de comer comida sacrificada aos ídolos não tinha lugar de destaque nos seus pensamentos durante a semana passada, ou, provavelmente, ao longo da sua vida. Na cultura em que nós vivemos não temos que decidir se vamos comer carne oferta aos deuses falsos como sacrifício e logo servida numa festa.

Mas este assunto era muito importante para os Cristãos em Corinto – tão importante que Paulo escreveu três capítulos nesta carta acerca da questão. E não era somente em Corinto onde este assunto era importante. O concílio de Jerusalém, sobre que lemos em Atos 15, tomou essa decisão: “Escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, bem como das relações sexuais ilícitas, da carne de animais sufocados e do sangue.”

E nas cartas às sete igrejas em Ásia Menor, nos primeiros capítulos do Apocalipse de João, vemos que este assunto era importante nas igrejas em Pérgamo e Tiatira também. Lemos em Apocalipse 2:14 – “Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição” – a advertência de João para a igreja de Pérgamo.

E em Apocalipse 2:20: “Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos” – a advertência de João para a igreja em Tiatira. As duas igrejas eram, geralmente, fieis. Mas a tolerância de imoralidade e comer coisas sacrificadas aos ídolos foi um problema sério naquelas igrejas.

Se nós lemos 1 Coríntios 8 fora do contexto, podemos ter a impressão que o Apóstolo Paulo pensa que comer carne sacrificada aos ídolos não é um assunto importante – que deve se abster por causa dos irmãos mais fracos, mas que, em si mesmo, não há nada errado com este tipo de comportamento.

O assunto sobre que ele está falando nestes capítulos é, muitas vezes, misturado com o assunto de Romanos 14. Mas Romanos 14 e 1 Coríntios 8 a 10 estão falando sobre dois assuntos diferentes – relacionados, mas diferentes. Em Romanos 14, Paulo está abordando o relacionamento entre os judeus e os gentios – se os gentios tinham que obedecer as leis judaicas cerimoniais, como os judeus e gentios deveriam relacionar uns aos outros. A questão em Romanos foi sobre ofender – aqueles que não queriam seguir as leis tradicionais deveriam se guardar para não ofender aqueles que queriam seguir aquelas leis – e nenhum grupo deve desprezar o outro.

Paulo toma tempo para construir o seu argumento, e precisamos lembrar que nosso texto é apenas a introdução ao seu argumento, não o argumento completo. Ele vai chegar na conclusão em capítulo dez:

“Antes, digo que as coisas que eles sacrificam, é a demónios que as sacrificam e não a Deus; e eu não quero que vos torneis associados aos demónios. Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demónios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demónios. Ou provocaremos zelos no Senhor? Somos, acaso, mais fortes do que ele?” (1 Cor. 10:20-22).

Então, o primeiro ponto que devemos lembrar enquanto lemos capítulo oito é esse: Paul é absolutamente, firmemente oposto à ideia que os Cristãos de Corinto poderiam conscientemente comer comida sacrificada aos ídolos, especialmente quando essa atividade acontecia no próprio templo do ídolo. Se eles fariam isso sem conhecimento, seria uma questão diferente – e Paulo vai falar sobre aquela questão no capitulo dez.

Bem, porque essa questão foi tão importante? Primeiramente, lembrem-se da cultura de Corinto. Não muitos dos Cristãos de Corinto eram ricos, não muitos deles eram respeitáveis nos olhos do mundo, mas alguns deles eram. Eles eram bem conscientes de status, preocupados com o seu lugar dentro da sociedade. Eles eram arrivistas sociais. Eles queriam ser parte da alta sociedade, respeitados, admirados, financeiramente, socialmente. E para entrar a alta nível da sociedade, precisavam participar nas atividades do elite. E uma dessas atividades, e uma atividade bem importante, era a participação nas grandes festas que aconteciam nos templos dos ídolos de Corinto.

Existia um número de contextos em que um coríntio seria convidado para participar numa refeição como essa. Se ele fosse membro de um clube, ou sindicato, ele teria sido esperado a participar em eventos sociais que incluíram sacrifícios, conversa, e debates, muito beber, e a atividade chamado “networking” – “o ato, a prática de se encontrar com as pessoas para conversar e trocar informações e consulta sobre assuntos de trabalho ou de interesse comum.”

Existiam também sociedades funerais, grupos formados para compartilhar nos gastos de funerais; o culto do Imperador era central em Corinto; e os jogos Ístmicos, que aconteceram de dois em dois anos, também incluíam sacrifícios como uma parte essencial das suas atividades.

Se você queria ser envolvido com a elite da sociedade, se você queria suceder nos seus negócios, se queria crescer na estimação dos outros, precisava ser socialmente ativo. E para os Romanos, o “religioso” e o “social” eram a mesma coisa. Atividades religiosas eram atividades sociais, e as atividades sociais eram atividades religiosas. Não existia um muro entre a vida privada, religiosa, e a vida pública.

Portanto, o assunto de comer alimentos ofertas aos ídolos foi importante, especialmente para a minoria de Cristãos Coríntios da classe alta. Se eles fossem rejeitar os convites às festas nos templos, eles se excluiriam da cena social da cidade – e todos os seus benefícios. Eles seriam excluídos, e como pessoas que queriam status, isso seria difícil. Mas ao mesmo tempo, eles queriam permanecer Cristãos. Então, não foi a boa teologia que formou a sua prática, foi sua prática que formou sua má teologia.

Talvez eles usavam o ensino de Paulo sobre comida num contexto diferente para justificar as suas próprias atividades. Afinal, Paulo ensinou também coisas como, “Quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu” (Romanos 14:3). Eles sabiam estas coisas. Eles tinham conhecimento. Eles eram fortes. Eles tinham o direito, como Paulo diz em versículo nove (ou “o poder,” ou “a autoridade”). Eles reivindicaram autoridade pessoal, o poder a fazer qualquer coisa que eles queriam. Mais uma vez, eles apelaram às categorias da filosofia Grega, ao pensamento individual, à racionalização egoísta do que eles estavam fazendo. Sim, existiam outros que eram fracos, mas na verdade, não foi o problema dos fortes, não é?

Mais uma vez, nós vemos a arrogância dos Coríntios. Paulo cita a sua reclamação em capítulo 8:1 – “todos somos senhores do saber.” Porque todos nós temos este saber, eles estavam dizendo, podemos comer comida de ídolos e não experimentarmos problemas, porque nós sabemos que, como Paulo escreve em versículo 4, o ídolo, de si mesmo, nada é no mundo, e que não há senão um só Deus. Nós adoramos o Senhor, então, por que devemos nos privar das oportunidades que precisamos para avançar na vida, para desfrutar o status que merecemos?

Isso não foi, na verdade, uma questão de comida. Eles poderiam comer em qualquer lugar. Eles não ficariam faminto se não comessem comida sacrificada aos ídolos. Foi uma questão de prestígio, de posição, de glória pessoal. E para manter esses valores antigos, os valores que eles continuavam a prezar, em vez do novo status que eles receberam em Cristo, eles queriam continuar vivendo na mesma maneira em que eles tinham sido vivendo.

Portanto, Paulo começa o seu argumento com um desafio aos pressupostos dos Coríntios sobre o saber. O saber, Paulo diz, não é tudo. Ele já avisou os Coríntios: “Não ultrapasseis o que está escrito; a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro.” E aqui, no nosso texto, ele lhes mostra a fonte do seu problema – o orgulho sobre o saber. Eles imaginavam que sabiam algo – e porque o seu saber causava eles a ensoberbecer com orgulho, tinha ficado claro que eles não sabiam o que eles deveriam saber.

Então, não é o saber em si mesmo que é o problema aqui – é um tipo específico de saber, e uma atitude específica em relação ao saber. Quando o saber se torna uma fonte de orgulho, quando os “sem saber” se tornam objetos de ridículo, ou compaixão auto-justificando, este “saber” é revelado como o que é em realidade – o oposto de amor. Paulo vira este tipo de pensamento de cabeça para baixo em versículo três: Se alguém ama a Deus, esse é conhecido por Ele.

Em primeiro lugar, ele começa falando sobre o amor de Deus, não o saber de Deus. E logo, ele vira a declaração de cabeça para baixo. Pode pensar que ele dizia, “se alguém ama a Deus, ele conhece a Deus,” que é a verdade. Mas em vez disso, ele diz, “Se alguém ama a Deus, esse é conhecido por Ele.” Esta declaração coloca o nosso saber na perspectiva correta. O saber que vem em primeiro lugar é o saber de Deus de nós. Ele é o iniciador no relacionamento entre nós e Ele, não nós. E é sim o saber de Deus que tem a importância primaria, e não o nosso.

Esse perigo permanece, irmãos. Como humanos pecaminosos, temos a tendência de usar o nosso saber, dada a nós por Deus, em maneiras pecaminosas. Ficamos orgulhosos. Ficamos ensoberbecidos. Desprezamos as outras pessoas que não têm o saber que temos. Começamos a imaginar que o nosso saber, nalguma maneira, é nossa posse pessoal, não um dos dons de Deus. Usamos o nosso saber como arma, e não no serviço de amor. Mas quando Cristãos fazem isso, quando o saber fica um cassetete e não uma ferramenta de construção, eles estão mostrando que eles não sabem o que eles pensam que eles saberem. Como pessoas que sabemos muito, e na verdade, nós já aprendemos muito, sabemos muita doutrina, sabemos muito sobre as Escrituras – precisamos tomar cuidado nessa área.

Estes assim chamados sábios na igreja tinham conhecimento, é certo. Eles sabiam que os ídolos não eram reais, eles sabiam a verdade do monoteísmo ensinado no Antigo Testamento. Eles sabiam que a comida oferta aos ídolos não era diferente de comida regular. Mas, Paulo diz, não todos sabem isso. Havia alguns Cristãos, ex-idólatras si mesmos, que poderiam ver estes Cristãos supostamente bem-informados, membros da classe alta, que poderiam participar nas festas dos ídolos sem problema, aparentemente. E então eles seriam tentados a participar. E o resultado não seria simplesmente sentimentos feridos, mas eles poderiam ser desviados – levados atrás, nas atividades, nas crenças, da idolatria que tinha escravizado eles.

Paulo foi preocupado com um assunto muito sério: a destruição da pessoa que aqueles assim chamados “sábios” pensavam ser “fraca.” Paulo não começa o seu argumento por fazer um pronunciamento autoritário sobre o que os Coríntios devem ou não devem fazer. Ele quer que eles realmente pensem sobre o que eles estão fazendo. Por isso, ele construi um argumento com etapas. O primeiro ponto: Sua assim chamado “conhecimento” não é ótimo. O segundo ponto: você precisa pensar em como suas escolhas podem afeitar os outros.

E ele fala com força em versículo 11: “E assim, por causa do teu saber, perece o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu.” É como se ele estivesse perguntando a eles, “Vocês, no orgulho que vocês têm na sua própria força, estão dispostos a enviar o seu irmão ao inferno, por causa de uma refeição no templo de um ídolo?” Pare com este egoísmo. Pense nos outros. Considere as implicações das suas ações na comunidade, não somente seus próprios desejos e direitos. Porque, se você escolher participar nestas festas dos ídolos, você está pecando contra seus próprios irmãos, pessoas para quem Cristo deu a Sua vida. Quando você peca contra eles, você está pecando contra Cristo mesmo.

Claro, o que estava em jogo foi muito mais do que uma refeição simples. Deveríamos não minimizar a importância do que Paulo exigiu desses Coríntios supostamente sábios. Não foi uma questão de evitar a churrascaria uma ou duas vezes por ano. Paulo exigiu muito deles. Ele estava dizendo que eles deveriam ser dispostos a abandonar tudo que acompanhava aquela comida de ídolos, não apenas a comida mesma, se apenas por causa dos seus irmãos. Mesmo que não havia nenhuma outra razão (e sabemos que havia muitas razões para evitar esta prática, desses capítulos e de outros lugares nas Escrituras), mas mesmo que não existia uma outra razão, o amor para os irmãos deveria ser razão suficiente para desistir na participação dessas festas de ídolos, e tudo que acompanhavam elas.

Isso significa que eles devem estar dispostos a abandonar os seus relacionamentos comerciais, por causa dos seus irmãos. Eles devem estar dispostos a abandonar a idéia de avançamento social por causa dos seus irmãos. Eles devem estar dispostos a abandonar o prestígio por causa dos seus irmãos. Eles devem estar dispostos a perder a sua reputação, a sua riqueza, a sua glória, a admiração dos outros, por causa dos seus irmãos. Eles devem estar dispostos a enfrentar o ridículo, a exclusão, a marginalização, que eles enfrentariam porque eles recusaram os convites para participar nas festas dos ídolos, por causa dos seus irmãos.

Foi isso que Cristo fez:

“Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.” (Filipenses 2:6-8).

Ele cuidou para aqueles irmãos suficientemente para deixar tudo para trás – cada direito, todo seu poder e toda sua autoridade, que eram verdadeiros, e absolutas, não como o poder suposto e os direitos supostos destes “sábios” Coríntios.

E agora, como Paulo disse na mesma passagem em Filipenses 2, devemos não olhar cada um somente para o que é seu, mas também para o que é dos outros. Nós temos a mente de Cristo, que Ele exemplificou quando Ele esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens. Ele fez isso não somente para mim, mas também para os meus irmãos. Cristo fez isso. Como podemos imaginar que não devemos imitar a Ele, quando as coisas que nós devemos abandonar não são comparáveis com Seu sacrifício perfeito?

Irmãos, eu mencionei na minha introdução que talvez não enfrentamos o problema de comer comida oferta aos ídolos literalmente. Mas a questão mais geral permanece aplicável para nós.

O que é que estamos dispostos a deixar para trás por causa do evangelho? Existe algo que não estamos dispostos a desistir? Para os Coríntios, foi o prestígio e o status e as finanças em jogo. E para nós, pode ser as mesmas coisas. Estamos dispostos a deixar estas coisas, a abandonar os nossos desejos por causa do evangelho, por causa de nossos irmãos e irmãs? Eu estou disposto a não fazer algo que pode levar um irmão a sua destruição? Eu estou disposto a abandonar os meus desejos pessoais por causa do corpo de Cristo, por causa da noiva de Cristo, o povo por que ele morreu?

Quando aplicamos isso a nós mesmos, precisamos nos perguntar, “Existe algo na minha vida que eu não queria abandonar por causa de Cristo e o seu povo?” Existe algo que eu faço, pensando que tenho conhecimento, que poderia levar um irmão a sua destruição? Se não estamos dispostos a abandonar aquela coisa, seja o que for, ela é um ídolo. E os ídolos devem ser destruídos. Isso é a importância dessa questão. Não é apenas a nossa salvação, nosso próprio relacionamento com Cristo, que está em jogo – é também a vida de nosso irmão, a vida de nosso próximo, a vida do povo de Deus.

Paulo conclui o capítulo dizendo, “Se a comida fizer tropeçar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para não servir de tropeço a meu irmão.” Ele não está escrevendo aqui sobre a carne oferta a ídolos. Ele está escrevendo sobre uma parte da vida indiferente – uma atividade não má em si, mas uma atividade que é de fato saudável quando feito em moderação. Mas o Cristianismo verdadeiro, vivendo no amor que serve os outros, vivendo no amor mostrado a nós por Cristo, significa que devemos dizer algo como isso: “Sim, eu tenho o direito de fazer isso, mas eu não vou, porque não seria um benefício ao corpo de Cristo.” E se significa não fazer até uma coisa que você tem o direito de fazer, na verdade, em Cristo, quanto mais estar disposto a abandonar uma atividade que é, em si mesmo, pecado?

Há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos. Nós existimos para Ele, não para nós mesmos. E há um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele. Nós existimos por Ele, não por nós mesmos. O povo dEle é nosso povo; o interesse dEle é nosso interesse. Ele deu a vida pelas ovelhas, e devemos fazer a mesma coisa. Ele deu altruistamente, para que nós podemos viver. Devemos fazer a mesma coisa, em resposta a Ele; é a natureza da vida Cristã. Quando vivemos para nós mesmos, preocupados com nós mesmos, os prazeres que resultam são fugazes. Eles não são verdadeiros, e eles não duram. Quando lembramos quem somos em Cristo, quando vivemos para Ele, e para os outros, o resultado é alegria – alegria verdadeira, alegria que dura, alegria que somente pode ser encontrada por aqueles que amam a Deus, e são conhecidos por Ele.

Amém.

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** Este sermão foi originalmente escrito para uso do pastor e não passou por correção ortográfica ou gramatical.

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Pr. Jim Witteveen

Pastor missionário das igrejas reformadas do Brasil e diretor do Instituo João Calvino.